
“Se estivermos de fato vivendo um momento de modificações climatológicas importantes, com alterações, por exemplo, no regime pluvial e no regime de chuvas, a gestão precisa ser muito maior e melhor do que tem sido. É difícil porque, daqui a pouco, a gente pode estar falando de novo das mesmas coisas.” O alerta do professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Pedro José de Oliveira Machado, foi feito em fevereiro de 2022, após a tragédia em Petrópolis, quando 235 pessoas perderam a vida e quatro mil ficaram desabrigadas ou desalojadas em decorrência das fortes chuvas.
Exatos quatro anos depois, Pedro Machado se diz assustado com sua fala de 2022. “Nossa, eu tomei até um choque aqui ao reler isso. O que a gente está vivendo é, infelizmente, isso que eu havia falado. Infelizmente, eu havia dito isso parcialmente, mas há uma mudança na forma como a chuva, como a pluviometria, está atingindo a cidade. E, obviamente, a cidade é menos preparada para receber esse volume de chuva quando está todo concentrado.”
Na entrevista de 2022 a O Pharol, o professor fez uma longa análise sobre como eventos dessa natureza revelam o paradoxo da moradia no Brasil. “As áreas mais planas são também as mais caras. O que sobra para a população mais pobre geralmente são as áreas de maior declividade, porque são as mais baratas, mais acessíveis. Só que a ocupação dessas áreas com segurança é mais difícil.”
Pedro Machado explicou que, para se ocupar corretamente áreas de grande declividade, os custos são elevados. “É possível ocupar, mas se gasta mais dinheiro para ter segurança. E dinheiro é o que geralmente as pessoas que vão ocupar essas áreas não têm. Esse é o paradoxo. As regiões mais planas, que são aquelas que exigem menor infraestrutura para a obra civil, são as mais caras, e quem é pobre não tem acesso.”
O professor alertou também para outra dimensão que precisa ser discutida: a forma de redução dos danos. “Tem que haver política de ocupação. Tem que haver recursos para essas políticas de ocupação. Tem, sim, que se gastar dinheiro com isso. É preciso gastar dinheiro público para as pessoas não morarem mal. Se não houver, vai-se gastar dinheiro como agora. Vão ter que reconstruir a cidade.”
Na ocasião, ele insistiu que eventos catastróficos precisam ensinar alguma coisa. “O evento em si é sinal de que nós não tomamos providências de gestão que são dolorosas, mas são importantes. O gestor público não pode deixar acontecer a ocupação de todas as áreas. Há áreas de risco para a vida que não devem ser ocupadas, não podem ser ocupadas.”
Ele ponderou, no entanto, não se tratar de uma equação simples. “Temos um país pobre, com uma população pobre que precisa de moradia. São problemas de difícil solução. Mas ou se soluciona previamente ou vamos ter esses eventos catastróficos acontecendo mais vezes e com consequências cada vez mais abrangentes, envolvendo um número maior de pessoas.”
Eventos naturais
A erosão é um processo natural e presente na dinâmica do planeta há milhares de anos, com o desgaste do solo e das rochas, geralmente em áreas mais altas, como efeito da ação dos chamados agentes erosivos, como a água, os ventos e os seres vivos. O problema, explica Pedro Machado, é que o ser humano tem intensificado esses eventos. “O que nós temos feito nas cidades é intensificar não esses eventos em si, mas as consequências deles.”
Ele usa o exemplo das ocupações humanas ao longo das planícies de inundação das bacias hidrográficas. “Se há uma bacia onde ocorrem inundações e não há ninguém morando lá, não há problema. Não será traumático.” Mas o que acontece em Juiz de Fora, por exemplo, é o oposto. “As nossas ocupações de baixo custo ao longo do Rio Paraibuna estão nas planícies de inundação. É óbvio que, quando o rio transborda, vai atingir a planície de inundação. Só que agora essa planície está ocupada.”
Com isso, além do vasto prejuízo com a inundação das casas, que atinge diretamente os moradores, há danos em todo o município. “Todas as nossas principais vias de acesso, em Juiz de Fora, passam por planícies de inundação. Se essas vias ficam alagadas, o trânsito fica interrompido. Isso é uma bola de neve.”
A mesma coisa, segundo o professor, acontece com as ocupações em áreas de grande declividade. “Essas áreas têm um equilíbrio muito tênue entre a pouca quantidade de solo e a pouca vegetação que as recobre. Quando se ocupam essas áreas, o que se faz? Retira-se a vegetação que protege o solo muito pouco espesso, com uma camada já muito pequena de proteção. Então, chega-se diretamente à rocha, e aí é complicado.”