Contexto

Sem superar os estragos das chuvas, outra tragédia se avizinha: a licitação do transporte público

Ao anunciar sua desistência de concorrer a uma cadeira na Assembleia de Minas, a secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular, Cidinha Louzada (PT), antecipou, ainda que tardiamente, a necessidade de repensar a ocupação do solo em Juiz de Fora. Tardia por se tornar prioridade apenas no início do sexto ano da atual gestão. Tardia por ser imposta por uma tragédia sem precedentes, com 65 mortos e dezenas de desabrigados. Tardia, por fim, porque ocorre quando a maior licitação da história do município — fator determinante em termos de planejamento territorial — já está em curso.

Diante desse quadro, a advertência que se impõe não é apenas técnica, mas também política. A licitação do transporte público coletivo, com a abertura dos envelopes realizada nesta quinta-feira (26), avançou sem enfrentar o descompasso entre mobilidade e território, o que pode levar o município a uma nova crise e, desta vez, contratual e estrutural, ao consolidar um modelo incapaz de responder às próprias contradições urbanas que ajudou a produzir. A tragédia recente expôs, de forma brutal, o custo de ignorar o planejamento do solo; insistir no mesmo erro, agora no campo da mobilidade, é optar por institucionalizar a precariedade.

A fala de Cidinha Louzada, ainda que tardia, revela uma inflexão que deveria anteceder — e não suceder — decisões estruturantes como essa. O transporte coletivo não é apenas um serviço: é um instrumento de ordenamento urbano, de redução de desigualdades e de prevenção de riscos. Planejá-lo sem considerar a expansão periférica, a vulnerabilidade socioambiental e os novos padrões de deslocamento é abrir mão de sua função mais estratégica. Chama atenção, ainda, que um processo dessa magnitude tenha contado com o aval técnico de instituições como a UFJF, sem que essas lacunas estruturais fossem devidamente enfrentadas.

Mais do que uma licitação, o que está em jogo é um modelo de cidade. Um modelo que, da forma como foi conduzido, tende a reforçar distâncias, aprofundar desigualdades e ampliar custos públicos. Não fossem os arranjos improvisados e a condução marcada por decisões pouco dialogadas, que são traços recorrentes da atual gestão, o processo poderia contribuir para reequilibrar o território e tornar Juiz de Fora mais integrada, eficiente e resiliente. Ao homologar o resultado de um modelo concentrador, próximo de um monopólio recém-instituído, o município caminha, infelizmente, na direção oposta.

Como tem sido recorrente nos últimos anos, houve pouco espaço para o diálogo. As alterações promovidas no edital serviram, sobretudo, para flexibilizar exigências, como o adiamento da renovação da frota e da obrigatoriedade de ar-condicionado. Não houve o mesmo empenho em rever premissas, incorporar diagnósticos atualizados e, principalmente, recolocar o planejamento urbano no centro da discussão. Sem isso, a cidade corre o risco de sair de uma tragédia anunciada para outra silenciosa — menos visível, porém igualmente estruturante: a de um sistema de transporte que nasce ultrapassado no exato momento em que começa a operar.

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