
Juiz de Fora alcançou um novo recorde no número de Microempreendedores Individuais (MEIs), consolidando o empreendedorismo como uma das principais características da economia local. Ao mesmo tempo, os dados reforçam uma realidade que vai além da abertura de pequenos negócios: a crescente dependência do trabalho por conta própria como alternativa de geração de renda.
Levantamento do Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência da Fecomércio MG, com base em informações do Portal do Empreendedor e da Receita Federal, aponta que o município chegou a 59.486 MEIs ativos em junho deste ano. O volume representa cerca de 10,5% da população estimada de Juiz de Fora, o equivalente a um microempreendedor para cada dez moradores.
Mais do que o número absoluto, o indicador que chama a atenção é a densidade empreendedora. Enquanto Minas Gerais registra média de 86,6 MEIs para cada mil habitantes, Juiz de Fora alcança 104,78 por mil habitantes, um índice cerca de 21% superior ao estadual. Entre os municípios mineiros, apenas Belo Horizonte, Uberlândia e Contagem possuem mais microempreendedores em números absolutos.
O perfil dos negócios ajuda a explicar esse cenário. O setor de serviços responde por 60,4% dos registros, seguido pelo comércio, com 18,3%. Juntos, concentram praticamente oito em cada dez MEIs da cidade, evidenciando uma economia fortemente baseada em atividades de menor necessidade de investimento inicial e voltadas ao atendimento direto da população.
Para o economista da Fecomércio MG, Henrique Braga, o desempenho demonstra a vocação empreendedora de Juiz de Fora e reflete o dinamismo econômico da cidade. Segundo ele, a elevada participação do setor de serviços confirma a importância do segmento para a geração de renda e circulação de riqueza no município.
Entretanto, especialistas costumam alertar que o crescimento do número de microempreendedores individuais não deve ser interpretado, isoladamente, como sinônimo de expansão econômica. Em muitos casos, o MEI representa a formalização de trabalhadores autônomos ou profissionais que encontraram no negócio próprio uma alternativa diante das dificuldades de inserção ou permanência no mercado formal de trabalho.
Essa característica é reforçada pelo perfil dos empreendedores locais. A maior concentração está entre pessoas de 31 a 50 anos, faixa etária que reúne mais da metade dos registros. Além disso, embora os estabelecimentos físicos ainda sejam maioria, cresce o número de empreendedores que atuam de forma itinerante ou utilizam a internet como principal canal de vendas, acompanhando a digitalização dos pequenos negócios e a busca por modelos de operação com custos reduzidos.
O próprio estudo da Fecomércio faz um alerta para os desafios que acompanham a expansão do programa. Entre eles estão a elevada inadimplência nas contribuições previdenciárias, a necessidade de ampliar o acesso ao crédito, oferecer capacitação em gestão financeira e estimular a inovação. Sem essas condições, o aumento do número de registros pode não se traduzir em negócios sustentáveis no longo prazo.
Assim, o recorde de quase 60 mil MEIs revela uma economia em que o empreendedorismo ganha cada vez mais espaço. Resta saber quanto desse crescimento decorre da identificação de novas oportunidades de negócios e quanto representa uma resposta às mudanças no mercado de trabalho, que têm levado um número crescente de brasileiros a transformar a própria atividade profissional em empresa.