Conjuntura

Gastos com a dívida pública em Juiz de Fora crescem 480% em quatro anos

O município de Juiz de Fora aumentou significativamente os gastos com a dívida pública entre 2020 e 2024. Levantamento feito por O Pharol, com base em dados do Anuário Multi Cidades – Finanças dos Municípios do Brasil, uma parceria entre a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) e a Aequus Consultoria, revela que as despesas com os serviços da dívida saltaram 480% no período. Considerando os dez maiores municípios de Minas Gerais, o percentual de crescimento da dívida de Juiz de Fora é o segundo maior.

Na comparação com os demais grandes municípios mineiros, Juiz de Fora fica atrás apenas de Ribeirão das Neves, que registrou a maior alta proporcional no período, com crescimento superior a 600% nos gastos com a dívida pública. Ainda assim, o desempenho juiz-forano chama atenção tanto pelo percentual quanto pelo salto em valores absolutos: as despesas passaram de pouco mais de R$ 9,1 milhões em 2020 para R$ 53,3 milhões em 2024, indicando uma mudança significativa no peso da dívida dentro do orçamento municipal.

O cenário observado em Juiz de Fora acompanha uma tendência verificada em parte dos municípios de médio e grande porte de Minas Gerais, que apresentaram aumentos expressivos nos gastos com juros, encargos e amortizações da dívida ao longo dos últimos quatro anos. Contagem e Uberlândia, por exemplo, também registraram crescimentos superiores a 300%, enquanto Ribeirão das Neves lidera o ranking, com uma expansão considerada explosiva. Entre os principais fatores que ajudam a explicar esse movimento estão o aumento das taxas de juros na economia brasileira e a intensificação do uso de operações de crédito para financiar investimentos públicos, especialmente após 2022.

Esse contexto afetou os municípios de maneira distinta, a depender do porte e do perfil do endividamento. Cidades médias e grandes, onde a contratação de empréstimos e financiamentos é mais frequente, sentiram diretamente o impacto do encarecimento do crédito. Ao mesmo tempo, as elevadas taxas de juros também pressionaram as dívidas previdenciárias corrigidas pela taxa Selic, atingindo de forma significativa os municípios de menor porte. Ainda assim, mesmo em um ambiente de juros elevados, um número expressivo de novas operações de crédito continuou sendo contratado, o que contribuiu para manter os gastos com juros e amortizações em níveis elevados.

Por outro lado, o comportamento não é homogêneo entre os maiores municípios do estado. Belo Horizonte, apesar de concentrar o maior volume absoluto de gastos com a dívida pública — mais de R$ 837 milhões em 2024 — apresentou crescimento percentual bem menor, de 74%. O dado sugere uma estrutura de endividamento mais consolidada e maior capacidade de planejamento financeiro, diluindo o impacto do aumento dos encargos sobre um orçamento mais robusto. Há também exemplos de controle e até de redução dessas despesas, como Betim e Montes Claros, que registraram quedas expressivas nos gastos com a dívida no período analisado.

Para a economista Tânia Villela, diretora da Aequus Consultoria Econômica e Sistemas, responsável pela elaboração do Anuário Multi Cidades em parceria com a Frente Nacional de Prefeitos (FNP), o endividamento municipal é, em muitos casos, um instrumento necessário para viabilizar o desenvolvimento local. “Os municípios precisam realizar investimentos que, em muitos casos, exigem volumes de recursos superiores à capacidade imediata do orçamento, e as cidades nem sempre contam com aportes diretos suficientes dos governos estadual ou federal”, afirma.

Ela destaca ainda que, em 2023 e 2024, houve crescimento significativo das receitas provenientes de operações de crédito no conjunto dos municípios brasileiros. Apesar do aumento da importância dos empréstimos, as arrecadações próprias cresceram em ritmo ainda mais acelerado, mantendo-se como a principal fonte de financiamento dos investimentos municipais. Enquanto persistirem o uso intensivo de operações de crédito e os níveis elevados das taxas de juros, a expectativa é de que os gastos com juros e amortizações continuem pressionando os orçamentos municipais nos próximos anos. Esse cenário reforça o debate sobre sustentabilidade fiscal e planejamento de longo prazo em Juiz de Fora.

Ranking de crescimento dos gastos com a dívida pública (2020–2024)

1º – Ribeirão das Neves

  • Crescimento: 612,48%

  • 2020: R$ 6.230.320,00

  • 2024: R$ 44.389.580,57

  • Aumento absoluto: R$ 38.159.260,57

2º – Juiz de Fora

  • Crescimento: 480,85%

  • 2020: R$ 9.176.530,00

  • 2024: R$ 53.301.850,86

  • Aumento absoluto: R$ 44.125.320,86

3º – Contagem

  • Crescimento: 332,97%

  • 2020: R$ 31.963.350,00

  • 2024: R$ 138.391.326,90

  • Aumento absoluto: R$ 106.427.976,90

4º – Uberlândia

  • Crescimento: 326,46%

  • 2020: R$ 35.437.880,00

  • 2024: R$ 151.129.592,68

  • Aumento absoluto: R$ 115.691.712,68

5º – Belo Horizonte

  • Crescimento: 74,34%

  • 2020: R$ 480.480.520,00

  • 2024: R$ 837.683.406,74

  • Aumento absoluto: R$ 357.202.886,74

6º – Uberaba

  • Crescimento: 25,02%

  • 2020: R$ 72.382.210,00

  • 2024: R$ 90.488.704,55

  • Aumento absoluto: R$ 18.106.494,55

7º – Governador Valadares

  • Crescimento: 19,48%

  • 2020: R$ 26.006.770,00

  • 2024: R$ 31.072.332,19

  • Aumento absoluto: R$ 5.065.562,19

8º – Divinópolis

  • Crescimento: 14,36%

  • 2020: R$ 15.760.180,00

  • 2024: R$ 18.022.777,40

  • Aumento absoluto: R$ 2.262.597,40

9º – Montes Claros

  • Crescimento: -41,60%

  • 2020: R$ 14.786.320,00

  • 2024: R$ 8.634.733,99

  • Variação absoluta: -R$ 6.151.586,01

10º – Betim

  • Crescimento: -72,20%

  • 2020: R$ 75.747.130,00

  • 2024: R$ 21.056.374,85

  • Variação absoluta: -R$ 54.690.755,15