“O desastre não é apenas natural; ele é produzido pela forma como ocupamos o território.” A frase, em tom de alerta, foi dita em fevereiro de 2025 durante um evento na Câmara Municipal de Juiz de Fora que discutia os desafios e impactos dos desastres naturais no município. Sua autora é a arquiteta Vyrna Jácomo, ex-secretária de Obras de Petrópolis, que falou sobre a tragédia das chuvas de 2022 no município fluminense e seus desdobramentos.
O que ela não poderia imaginar é que, exatamente um ano depois, Juiz de Fora viveria o seu próprio desastre. Se o alerta feito por ela e pela diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, Regina Alvalá, que também participou do evento, não ecoou a tempo, que ao menos a experiência do pós-tragédia agora sirva de aprendizado.
Na ocasião, Vyrna Jácomo relatou as dificuldades enfrentadas por Petrópolis após os desastres provocados por chuvas intensas e apontou caminhos que, segundo ela, poderiam ajudar outras cidades a reduzir riscos e salvar vidas.
Ao relembrar a tragédia que atingiu Petrópolis em 2022 — quando chuvas extremas provocaram mais de 240 mortes —, a arquiteta afirmou que eventos desse tipo não podem ser explicados apenas pela intensidade das precipitações. Para ela, a dimensão das tragédias está diretamente relacionada à forma como as cidades se expandiram ao longo do tempo.
“O crescimento urbano em áreas de encosta, a ocupação irregular e a deficiência histórica na infraestrutura de drenagem criam um ambiente de alta vulnerabilidade”, afirmou.
A ex-secretária também chamou atenção para um problema recorrente na gestão pública brasileira: a dificuldade de financiar ações preventivas. De acordo com ela, os municípios costumam obter recursos com maior facilidade após as tragédias, enquanto projetos voltados à redução de riscos enfrentam mais obstáculos para sair do papel.
“A gente sempre consegue recurso para resposta, mas não para prevenção”, disse, citando como exemplo obras iniciadas após o desastre de 2011 na Região Serrana do Rio de Janeiro que acabaram interrompidas antes de serem concluídas.
Apesar das limitações estruturais, Vyrna destacou que a experiência recente de Petrópolis também trouxe avanços institucionais. Depois do desastre de 2022, a prefeitura reorganizou sua estrutura de resposta a emergências, ampliou o sistema de monitoramento, criou um gabinete de crise permanente e estabeleceu protocolos para a abertura de abrigos e a mobilização das equipes de emergência.
Segundo ela, essas mudanças contribuíram para reduzir significativamente o impacto de novos episódios de chuvas intensas registrados posteriormente. A experiência reforçou, em sua avaliação, que sistemas de alerta e preparação podem fazer diferença decisiva na preservação de vidas.
Outro ponto enfatizado pela arquiteta foi a necessidade de rever prioridades nas políticas de infraestrutura urbana. Para ela, o debate público costuma concentrar atenção em obras de contenção de encostas, enquanto a drenagem urbana — responsável por controlar o escoamento da água da chuva — muitas vezes recebe menos atenção do que deveria. “A drenagem é mais estratégica do que grandes muros de contenção.”
A política habitacional também apareceu como um dos principais desafios para a redução estrutural do risco. Segundo Vyrna Jácomo, muitos municípios não possuem terras públicas suficientes nem programas habitacionais capazes de reassentar famílias que vivem em áreas de alto risco, o que torna difícil enfrentar o problema de forma definitiva.
Ao compartilhar a experiência de Petrópolis, a arquiteta defendeu que cidades com relevo acidentado e ocupação histórica de encostas incorporem a gestão de risco como parte central do planejamento urbano.

