Onze professores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) estão entre os signatários do “Manifesto pelo pluralismo e pela liberdade acadêmica”, documento lançado no início do mês por docentes e pesquisadores de diferentes regiões do país em defesa da neutralidade institucional, da liberdade de cátedra e do direito ao dissenso dentro das universidades brasileiras.
O texto surgiu após um encontro realizado em abril no centro Maria Antonia, da Universidade de São Paulo, reunindo professores e pesquisadores preocupados com o avanço da autocensura, da intolerância ideológica e do cerceamento ao debate acadêmico nas instituições de ensino superior. Nas primeiras 24 horas após a divulgação, o manifesto já havia reunido 350 assinaturas de docentes ligados a 94 instituições de ensino de 24 estados brasileiros. Até a publicação dessa reportagem já eram 1.222 assinaturas.
Entre os signatários estão 11 docentes da UFJF, que aderiram ao movimento em meio ao debate nacional sobre liberdade acadêmica e pluralidade de pensamento no ambiente universitário.
O documento aponta que as universidades brasileiras atravessam uma crise de reputação e de confiança pública. Dados citados no manifesto mostram que 59% dos brasileiros confiam pouco ou não confiam nas universidades públicas, segundo levantamento da More in Common. A pesquisa também aponta que 54% acreditam que essas instituições promovem mais ideologia do que ensino de qualidade.
Outro dado destacado é de uma pesquisa do Instituto Sivis, segundo a qual 48% dos estudantes do ensino superior afirmam já ter se autocensurado em sala de aula por receio de represálias de colegas ou professores.
Os autores do manifesto argumentam que o ambiente universitário vem se tornando cada vez menos tolerante ao contraditório. O texto reúne exemplos recentes de episódios considerados incompatíveis com a liberdade acadêmica.
Um dos casos citados ocorreu em 2023, na Faculdade de Direito da USP, quando estudantes organizaram um abaixo-assinado para tentar impedir o retorno da professora e então deputada estadual Janaina Paschoal às atividades docentes. Os alunos alegaram que sua atuação política seria incompatível com os valores democráticos da instituição.
Outro episódio mencionado aconteceu em 2025, quando um seminário realizado na USP sobre mulheres em situação de vulnerabilidade foi interrompido após protestos de movimentos sociais e diretórios estudantis. Segundo o manifesto, participantes foram intimidados e materiais destruídos durante a manifestação.
Também é lembrado o caso da Universidade Federal do Paraná, onde palestrantes foram hostilizados e impedidos de realizar uma conferência sobre o Supremo Tribunal Federal, além de episódios envolvendo agressões físicas a professores em universidades públicas.
Os organizadores afirmam que pesquisadores da área de Sociologia da Universidade Federal Fluminense identificaram mais de uma centena de ocorrências semelhantes nos últimos anos, envolvendo cancelamentos de eventos, perseguições ideológicas, listas de boicote, intimidações e tentativas de silenciamento de docentes e estudantes.
No manifesto, os professores defendem três pilares principais para reformar a cultura institucional das universidades: neutralidade institucional, pluralismo de perspectivas e proteção ao dissenso.
Segundo o documento, as universidades não devem adotar posições oficiais sobre temas políticos ou ideológicos controversos, devendo garantir espaço para diferentes correntes de pensamento. O texto também defende que perspectivas liberais, conservadoras e progressistas coexistam no ensino e na pesquisa, evitando ambientes intelectualmente homogêneos.
Os signatários afirmam ainda que protestos legítimos não podem se transformar em mecanismos de veto ao debate acadêmico. Para o grupo, cabe às administrações universitárias proteger docentes, estudantes e convidados contra intimidações, garantindo liberdade de expressão e segurança institucional.
O manifesto sustenta que a universidade perde sua função quando deixa de ser espaço de confronto livre de ideias e passa a operar sob lógica de hostilidade ao dissenso. “Sem pluralismo e dissenso, o conhecimento se torna dogmático, autorreferencial e incapaz de explicar a realidade”, afirma o texto.
O movimento também alerta que, caso as universidades não promovam mudanças internas capazes de recuperar a confiança pública, haverá maior pressão externa por reformas políticas e administrativas nas instituições de ensino superior.

