Ao manter também no segundo mandato um governo fechado no núcleo petista oriundo da UFJF, dividindo o leme basicamente com as secretárias Cidinha Louzada e Fernanda Finotti, a prefeita Margarida Salomão (PT) não imaginava enfrentar uma catástrofe da magnitude provocada pelas chuvas de fevereiro em Juiz de Fora.
“Estamos enfrentando algo novo, como foi a pandemia”, argumentou Cidinha Louzada ao pedir paciência diante da demora na resposta à tragédia. Em 2020, o prefeito Antônio Almas ainda não havia completado dois anos à frente do Executivo quando um homem recém-chegado de Nova Iorque foi internado com suspeita de Covid-19. Era 13 de março.
Politicamente fragilizado — Bruno Siqueira, Marcus Pestana e Rodrigo Mattos haviam fracassado nas eleições de 2018 —, Almas reagiu criando um comitê com representantes de todos os poderes, entidades de classe e universidades. Ao longo da crise, abriu mão da reeleição e deixou falar mais alto sua formação médica nos constantes embates entre economia e saúde.
Quando deixou o governo, em dezembro de 2020, com a vacina já no horizonte, Juiz de Fora registrava uma das menores taxas de óbitos por habitante por Covid-19 entre as grandes cidades do país. Nas ruas, no entanto, falou mais alto a economia. A economia, como alertava James Carville.
Ao lembrar da pandemia, Cidinha Louzada remete ao risco das ruas e, claro, ao risco econômico. Foram essas preocupações que as três timoneiras de Juiz de Fora levaram ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, em visita à cidade. A elas se juntaram a deputada federal Ana Pimentel (PT) e a pré-candidata ao Senado Marília Campos (PT), prefeita de Contagem.
O argumento repassado ao presidente Lula é direto: os estragos das chuvas em Juiz de Fora podem corroer o patrimônio eleitoral lulista na Zona da Mata, decisivo em 2022. Desde que tomou posse, em janeiro de 2021, Margarida vai e volta em promessas sobre drenagem e contenção de encostas, da zona norte à zona sul. Mas agora sabe que narrativas não bastam. São necessárias respostas.
A romaria de figurões do governo federal a Juiz de Fora alimenta expectativas, mas a indefinição sobre novos aportes de recursos é o que mais assombra o 9º andar da Prefeitura. Sem uma sinalização clara da Esplanada dos Ministérios, o custo da reconstrução segue subavaliado — e recursos de programas anteriores à tragédia entram na contabilidade como se fossem novidade.
Para alento de Margarida, Cidinha e Fernanda, ao menos a interlocução com Brasília existe. O mesmo não se pode dizer, há algum tempo, do Governo de Minas e, mais recentemente, da Câmara Municipal. No primeiro caso, o distanciamento do Palácio Tiradentes tem efeitos limitados e até reforça o alinhamento com o Planalto.
O problema real está na Câmara. Por lá, Fernanda Finotti e Cidinha Louzada — nessa ordem — deixaram de ser interlocutoras há tempos. Em condições normais, isso pouco mudava. Depois do rastro de destruição deixado pelas chuvas, a correlação de forças mudou.
Vereadoras e vereadores estão nas ruas. São cobrados por tudo e não têm resposta para nada.
O vídeo do presidente da Câmara, vereador Zé Márcio (PV), entrando no gabinete da prefeita acompanhado de moradores da Avenida Olegário Maciel em busca de respostas é sintomático. São esses vereadores, pressionados nas ruas e sem ter o que dizer, que na próxima segunda-feira (16) retomam as sessões ordinárias no Palácio Barbosa Lima. Lá terão a tribuna — e, talvez, a oportunidade de romper a apatia e a soberba que, há cinco anos e 71 dias, enclausuram o governo no núcleo petista da UFJF, longe das encostas e do leito do Paraibuna.

