A vida dos outros

Marilson Roseno: o homem que colocou Juiz de Fora no escândalo do Banco Master

Como numa espécie de tradição, quando há um escândalo na política ou na economia nacional, mais cedo ou mais tarde Juiz de Fora acaba aparecendo como protagonista ou coadjuvante. No caso do Banco Master, apontado nas investigações como responsável por uma das maiores fraudes financeiras já registradas no país, não foi diferente.

O ex-escrivão da Polícia Federal Marilson Roseno da Silva, aposentado desde agosto de 2022, é apontado pelas investigações como um dos principais operadores do núcleo de inteligência e coerção ligado ao banqueiro Daniel Bueno Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, o grupo seria responsável pelo monitoramento e pela intimidação de pessoas consideradas adversárias do banqueiro.

O nome de Marilson nas investigações trouxe uma ligação direta com Juiz de Fora. O ex-servidor foi lotado na Delegacia da Polícia Federal em Juiz de Fora, unidade que aparece nos autos em uma investigação sobre um acesso indevido ao ePol, sistema de uso restrito da corporação.

Segundo informações reveladas pelos autos da investigação, foi a partir dessa unidade que ocorreu, em 15 de setembro de 2025, um acesso irregular ao sistema. A PF atribui a Marilson o comando da invasão e aponta que ele teria utilizado a experiência e os contatos adquiridos durante a carreira para obter informações de interesse do grupo.

A atuação atribuída ao ex-escrivão, porém, teria ido muito além do acesso aos sistemas da Polícia Federal. Marilson é apontado como integrante da chamada “A Turma”, estrutura descrita pelos investigadores como uma espécie de braço de inteligência e intimidação de Vorcaro.

O grupo teria como função levantar informações sobre pessoas consideradas inimigas do banqueiro, monitorar alvos e realizar diligências para descobrir dados pessoais, endereços e outros elementos que pudessem ser utilizados contra adversários.

O “espião” de Vorcaro

De acordo com a investigação, Marilson ocupava uma posição estratégica nesse núcleo. Sua experiência como policial federal teria sido utilizada para acessar sistemas públicos e buscar informações consideradas relevantes para a organização.

A estrutura investigada teria acesso não apenas a bases de dados brasileiras, mas também a sistemas internacionais, com referências ao FBI e à Interpol. Para manter a operação em funcionamento, os investigadores estimam que o grupo movimentava cerca de R$ 400 mil por mês.

Nos autos, Marilson aparece como um dos principais operadores do núcleo de coerção, atuando em conjunto com outros integrantes e sob coordenação operacional de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Felipe Mourão” ou “Sicário”.

Entre as atividades atribuídas a ele estão a identificação de pessoas de interesse do grupo, a realização de diligências informais, a localização de indivíduos e a coleta de informações consideradas estratégicas.

Da Polícia Federal à prisão

Marilson se aposentou da Polícia Federal em 15 de agosto de 2022. Anos depois, passou a ser investigado por sua suposta participação no esquema ligado ao Banco Master.

A decisão judicial que trata da investigação colocou o ex-policial ao lado de nomes como Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e Luiz Phillipi Mourão entre os investigados atingidos por medidas cautelares. Ele acabou preso em março de 2026, durante uma das fases da Operação Compliance Zero.

A investigação apura uma série de possíveis crimes, entre eles lavagem de dinheiro, corrupção, ameaça, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.

Aposentadoria também está em risco

Além da investigação criminal, Marilson passou a enfrentar problemas em outra frente. A Controladoria-Geral da União (CGU) pediu ao Supremo Tribunal Federal, em ofício de 7 de maio de 2026, acesso a provas relacionadas ao caso para avaliar a possibilidade de cassação da aposentadoria do ex-servidor.

O órgão solicitou informações bancárias e dados de comunicações, incluindo mensagens de WhatsApp, que possam ajudar a esclarecer se houve recebimento de vantagens indevidas ou outras irregularidades.

A eventual cassação depende, entre outros pontos, da comprovação de que as condutas atribuídas a Marilson ocorreram quando ele ainda estava na ativa. Pela legislação, a aposentadoria pode ser cassada quando o servidor comete, durante o exercício do cargo, uma falta que poderia resultar em demissão.

Defesa não comenta

À imprensa, a defesa de Marilson Roseno informou que não pretende se manifestar publicamente e que fará sua defesa exclusivamente nos autos do processo e perante as autoridades competentes. A defesa de Daniel Vorcaro também optou por não se manifestar.