A Prefeitura de Juiz de Fora recorreu, pela primeira vez desde a criação da política de subsídio ao transporte coletivo, em 2021, a recursos de operação de crédito para bancar o pagamento às empresas de ônibus que operam o sistema no município.
De acordo com dados do Portal da Transparência da Prefeitura, um repasse de R$ 3,478 milhões, realizado em 7 de maio de 2026, teve como descrição da fonte dos recursos justamente “operação de crédito”. A utilização desse tipo de recurso representa uma mudança na forma de financiamento do transporte coletivo, que, até então, era apresentada pela administração como custeada com recursos do Tesouro municipal.
A política de subsídio foi instituída durante o primeiro mandato da prefeita Margarida Salomão (PT), em junho de 2021. Em 2025, ao discutir a possibilidade de implantação da tarifa zero na cidade, a prefeita afirmou que o sistema custava aproximadamente R$ 30 milhões por mês. Na estimativa apresentada por Margarida, cerca de R$ 20 milhões eram arrecadados com as tarifas pagas pelos passageiros, enquanto aproximadamente R$ 10 milhões correspondiam à parcela bancada pelo município.
Naquele momento, segundo a explicação da prefeita, os R$ 10 milhões mensais de subsídio tinham como origem recursos do Tesouro municipal.
Menos dinheiro para o transporte
A utilização de recursos de operação de crédito ocorre justamente em um ano em que a Prefeitura reduziu os repasses destinados ao transporte coletivo.
Dados do Portal da Transparência mostram que, entre janeiro e junho de 2026, foram transferidos aproximadamente R$ 60 milhões às empresas operadoras do sistema. No mesmo período de 2025, os desembolsos haviam chegado a R$ 77 milhões, uma redução de cerca de 22% no primeiro semestre.
Ao mesmo tempo, o sistema passou a carregar durante todo o primeiro semestre de 2026 os efeitos financeiros do Passe Livre Estudantil. Em 2025, a gratuidade para estudantes só começou a vigorar em maio, o que fez com que seu impacto sobre as contas do sistema fosse praticamente inexistente nos primeiros quatro meses daquele ano.
Em 2026, portanto, as empresas operadoras enfrentaram durante todo o primeiro semestre os custos relacionados à gratuidade estudantil, enquanto receberam um volume menor de recursos públicos.
Arrecadação abaixo da previsão
A redução dos repasses ocorre em meio a um cenário de frustração de receitas municipais. Dados encaminhados pela própria Prefeitura ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) mostram que o município arrecadou R$ 218,7 milhões a menos do que o previsto entre janeiro e abril de 2026.
Pelo relatório de metas bimestrais de arrecadação, a administração municipal projetava uma receita de R$ 1,62 bilhão até o final de abril. O valor efetivamente arrecadado foi de aproximadamente R$ 1,40 bilhão, equivalente a 86,5% da previsão.
A diferença aumentou no segundo bimestre. Entre março e abril, a arrecadação ficou R$ 142,5 milhões abaixo da meta, atingindo apenas 82,2% do valor projetado. Nos dois primeiros meses do ano, a diferença havia sido de R$ 76,2 milhões.
A Prefeitura não informou oficialmente que a redução dos subsídios do transporte tenha sido provocada pela queda na arrecadação. Os dados, porém, mostram que o volume de recursos destinado ao sistema diminuiu justamente em um período de maior pressão sobre o financiamento do transporte.
Prorrogação aumenta pressão
A questão financeira ganhou ainda mais importância após a Prefeitura anunciar, em 1º de setembro, a prorrogação por 12 meses do contrato com o Consórcio Via JF, responsável pela operação do transporte coletivo.
A concessão original, de dez anos, havia chegado ao fim em 31 de agosto. A extensão foi adotada diante da suspensão da nova licitação, que recebeu críticas do TCE-MG em relação ao estudo técnico utilizado para estruturar a futura concessão.
O estudo foi contratado pela Prefeitura junto à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) por aproximadamente R$ 970 mil.
Enquanto o município trabalha na reformulação do projeto, o Via JF, liderado pela empresa Ansal, permanece responsável pelo serviço.
O problema é que a prorrogação também exige que a Prefeitura assegure recursos para o pagamento dos subsídios previstos para os últimos meses de 2026.
Custo maior que a previsão inicial
A própria estimativa apresentada por Margarida Salomão em 2025 apontava para um subsídio de aproximadamente R$ 10 milhões por mês. Fontes ligadas à concessionária avaliam que, atualmente, considerando o congelamento da tarifa, o valor necessário para manter o sistema estaria próximo de R$ 15 milhões mensais.
Até agosto, a Prefeitura havia destinado aproximadamente R$ 72,3 milhões à Gestão do Transporte Coletivo. O valor representa uma média inferior a R$ 10 milhões por mês, mas já supera em mais de três vezes a dotação originalmente prevista para todo o programa na Lei Orçamentária Anual de 2026. A previsão inicial era de apenas R$ 19,3 milhões para todo o exercício.
Orçamento original ficou para trás
A execução orçamentária mostra que a dotação inicial foi rapidamente consumida e que os pagamentos realizados ao longo do ano dependeram também de alterações e remanejamentos orçamentários.
Entre janeiro e agosto, os maiores repasses ocorreram em janeiro e fevereiro, com R$ 15 milhões em cada mês. Em março, foram pagos outros R$ 10 milhões. Abril registrou R$ 5,8 milhões e maio concentrou R$ 14,2 milhões. Em julho, foram destinados R$ 5 milhões, enquanto agosto teve outros R$ 12,3 milhões.
Ao todo, os pagamentos chegaram a aproximadamente R$ 72,3 milhões, contra uma previsão inicial de R$ 19,3 milhões para todo o ano.
E a conta ainda não terminou. Com o contrato prorrogado, a Prefeitura precisa garantir recursos para os pagamentos de setembro, outubro, novembro e dezembro. É nesse ponto que o financiamento do sistema se transforma em um dos principais desafios orçamentários do município.

