Se os jornalistas, ao nascerem, fossem anunciados por um anjo torto, o Ailton dispensaria o querubim que vive nas sombras. Não havia nada no céu ou na terra capaz de desviá-lo de sua sina de repórter. A profecia de que da Galileia não surge profeta se cumpriu. Para o galileu do Rio Doce, importavam apenas as histórias, os caminhos percorridos e as saudades.
Sim, todos nós, homens e mulheres da imprensa, gente que escreve sobre tudo sem entender de nada, escrevemos sobre a areia do tempo. Somos luz de vela. Corremos atrás do olhar fugaz de um leitor cada vez mais desinteressado. Um clique, um comentário ou um like compensam horas e, às vezes, dias de trabalho.
O jornalista é um contador de histórias que acontecem. Estamos fadados a relatar os fatos, secando o estilo e afastando a imaginação, como mandam os manuais. O problema é que tipos como Ailton e Wendell Guiducci carregam o mal incurável da poesia. A campanha do Tupi na Segunda Divisão do Mineiro virou a “Saga dos Carijós”.
Fora das redações, as limitações são outras, mas igualmente terríveis. Ora nos espaços de poder e glamour, ora nas ruas e praças, o repórter carrega apenas um velho paletó surrado para transitar de um ambiente a outro. Conversa com celebridades, estadistas e ídolos com a intimidade de um compadre. Mas, à noite, ao voltar para casa a pé, como fazia Ailton, aquele mundo se desfaz.
Sobram dias e semanas depois que o salário acaba. O cinema é o da promoção de quarta-feira, e os livros são aqueles da prateleira do sebo. O ingresso para ver o Tupi, embora necessário, era um luxo. Quando o resultado não vinha — e quase nunca vinha —, o desalento era ainda maior. “Precisamos de uma cerveja, companheiro.” É verdade! Desconfie dos jornalistas abstêmios. Esses não têm vida interior, não têm sentimentos.
São essas e outras limitações que impõem aos jornalistas o dever da resistência. É assim que a gente se cria. E, nessa seara, ninguém resistiu mais do que Ailton. Aliás, poucas empreitadas foram tão obstinadas quanto as dele. Enquanto houve uma banca aberta, ele comprou jornal de papel. Para escrever, seguiu com sua Hamilton até depois de Bill Gates entrar na lista da Forbes. Redes sociais são coisa para se desinventar.
Nada, no entanto, se compara à sua contagiante paixão pelo Tupi. Nossa última conversa, na verdade, foi uma reprimenda. Estávamos num grupo para discutir futebol e nada falávamos do Carijó. “Companheiro, quanta discussão inócua, sem sentido. Lá não se discute nada interessante.” Tentei trazer para a roda outra de suas paixões: o cinema. “Viu Tigre de Papel, do James Gray?” Ao que respondeu: “Isso é para outra conversa.”
Mas essa conversa não vai existir. Ailton nos deixou nesta sexta-feira, de madrugada. O pouco que resta do Tupi perde seu maior cronista. Todos nós, jornalistas das redes sociais e dos remanescentes jornais de papel, amanhecemos menores. Parece que o Ailton representava o elo com um jornalismo capa e espada que um dia nos levou a todos às redações; um elo que agora se rompe.
É, companheiro, o dia será longo. Vou precisar de uma cerveja!

