Contexto

Panelaço: de quem foi a ideia de fazer da panela uma ferramenta política?

Os panelaços são registrados pela primeira vez na na França em 1830 e ganham identidade na América Latina no século XX (Foto: Roberto Parizotti/FotosPublicas)

O presidente Jair Bolsonaro foi alvo de panelaços em diversas regiões de Juiz de Fora na noite da última quarta-feira (2), durante pronunciamento em rede nacional de TV. A forma como o governo federal comporta-se frente à pandemia de Covid-19 é o principal motivo dos protestos. Quatro dias antes, no sábado, centenas de pessoas já haviam tomado as principais ruas da cidade em manifestações contrárias ao presidente.

Os panelaços vêm sendo uma constante, não só em Juiz de Fora, mas na maioria das grandes cidades do país, a cada novo pronunciamento de Bolsonaro, desde 2019 com a crise das queimadas na Amazônia. Essa forma de manifestação praticamente inclusa no imaginário político brasileiro é vista pelo mundo com um símbolo latino-americano, tendo registro do seu uso nos mais variados governos do continente, da esquerda à direita.

Mas, afinal, de quem foi a ideia de fazer da panela uma ferramenta política? Conforme documentado pelo historiador Emmanuel Fureix, professor de história contemporânea e especialista em história das culturas políticas do século XIX, esse tipo de protesto foi visto pela primeira vez na França em 1830. Naquela época, quando os republicanos que se opunham à monarquia Luís Filipe I usavam utensílios de cozinha para fazer barulho em sinal de protesto, era chamado de charivari.

Charivari é registrado desde a Idade Média para mostrar reprovação a casamentos desencontrados ou denunciar conduta chocante. Os alvos eram saudados por um ritual de humilhação composto por um concerto estrondoso de panelas em particular, que às vezes terminava em multa ou reconciliação. (Charivari em caricatura de J.J. Grandville – Paris 1831)

Esse método de resistência mais tarde alcançou outras partes do mundo. Durante a guerra de independência da Argélia, no início dos anos de 1960, um protesto ficou conhecido como “a noite das panelas”. Os protestos mais populares dessa natureza, no entanto, aconteceram no Chile em 1971. A Marcha das Panelas Vazias é apontada como o primeiro grande panelaço na América Latina. Na ocasião, mulheres de direita saíram às ruas de Santiago para protestar contra a escassez de alimentos e a crise econômica durante o governo de Salvador Allende.

Na década seguinte, os chilenos voltaram às panelas como ferramenta política, desta feita contra a ditadura de Augusto Pinochet, alçado ao poder após o golpe militar de 1973 que derrubou Allende.  Com medo da repressão policial nas ruas, o protesto aconteceu nas janelas das casas. Mais recentemente, os chilenos fizeram novos panelaços durante as manifestações de 2019 contra o presidente Sebastián Piñera.

Na Argentina, os panelaços são comuns desde o fim da ditadura militar em 1983. Os mais emblemáticos ocorreram em dezembro de 2001, quando o país enfrentava uma aguda crise econômica com o governo Fernando de la Rúa. Na ocasião, estava em pauta o confisco bancário que ficou conhecido como “corralito”. Na noite de 19 de dezembro, milhares de argentinos se reuniram em frente à Casa Rosada batendo panelas pela renúncia do ministro da Fazenda, Domingo Cavallo. Tanto ele quanto de la Rúa renunciaram dias depois.

Na Venezuela, os panelaços aconteceram no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, quando cidadãos protestavam contra as reformas econômicas do então presidente Carlos Andrés Péres. Manifestações desse tipo foram recorrentes durante todo o governo de Hugo Chávez, que, em 2012, saiu nas ruas dançando ao som das panelas, menosprezando o movimento. Em 2019, os manifestantes também expressaram suas insatisfações contra Nicolás Maduro.

No Uruguai, existem registros de panelaços durante o período de ditadura militar (1982-1984) e, em 2002, um panelaço contra o presidente Jorge Battle.

Panelaços remontam à redemocratização

Há registro de panelaço no Brasil na campanha pelas Diretas Já. Em 24 de abril de 1984, o som do bater nas panelas foi ouvido nas principais cidades do país como protesto pela retomada das eleições diretas ao cargo de presidente da República.

Em 8 de março de 2015, um domingo, durante o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff por ocasião do Dia Internacional da Mulher, um primeiro panelaço alcançou a esquerda. Gritos de “Fora, Dilma” e “Fora, PT” se juntaram ao barulho das panelas nas sacadas e janelas dos prédios. Essa forma de protesto ficaria comum durante aparições e entrevistas de Dilma na televisão até sua destituição em agosto de 2016.

Bolsonaro foi brindado com um panelaço em 2019, quando na TV anunciou medidas para tentar conter os incêndios ocorridos na Amazônia. Na ocasião, o presidente defendeu que a série de queimadas na floresta amazônica não pode servir de pretexto para sanções internacionais contra o Brasil. Como medida, assinou um decreto autorizando o emprego das Forças Armadas na Amazônia para conter os incêndios florestais.

No sábado, dia 29, quatro antes do panelaço, protestos tomaram as ruas de Juiz de Fora (Foto: O Pharol)

Já na última quarta-feira (2), o panelaço alcançou mais uma vez um pronunciamento envolvendo o enfrentamento à pandemia de Covid-19. No mesmo dia em que o governador de São Paulo e presidenciável João Doria (PSDB) anunciara vacinação para todos adultos do estado até o final de outubro, Bolsonaro prometeu vacina para todos. Após quase meio milhão de vítimas brasileiras da pandemia, a retórica da gripezinha de março de 2020 foi substituída por “100 milhões de doses de vacinas distribuídas a estados e municípios”.

O presidente, mais uma vez, se valeu de números absolutos, sem mencionar o fato de o país ter apenas 22,2% da população com ao menos uma dose da vacina. Comemorou o acordo assinado entre a Fiocruz e a AstraZeneca, que permitirá a produção nacional do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), necessário para a elaboração do imunizante, mas não mencionou seu apelo recorrente ao “tratamento precoce” com medicamentos sem eficácia contra a covid-19.

Quanto à realização da Copa América no Brasil, criticada pelo momento de crise sanitária, quando a comunidade científica recomenda que sejam evitadas as aglomerações, Bolsonaro disse seguir “o mesmo protocolo da Copa Libertadores e Eliminatórias da Copa do Mundo”. Os tais protocolos não impediram, por exemplo, que River Plate e Grêmio juntos registrassem 50 casos de Covid-19.