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‘O Rio de Janeiro que eu retrato não é o Rio turístico, de cartão-postal, das praias, da Zona Sul’

Luiz Antonio Simas é autor de 20 livros, entre eles o mais recente 'Umbanda: uma história do Brasil' (Foto: Ana Branco/O Globo)

Numa edição histórica da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), Luiz Antonio Simas falou sobre os subúrbios e refletiu sobre a relação íntima das escolas de samba com a formação e consolidação de territórios. “As escolas colocam esses lugares no mapa. Dão visibilidade para quem está de fora. E quem está dentro se sente sujeito da sua própria história”, disse à época.

Passados alguns anos, o escritor e historiador continua como porta-voz das ruas do Rio e sua relevância na formação da cultura, mas também jogando luz sobre localidades que fogem do lugar-comum ou cartão-postal famoso, como trouxe no livro “Arruaças: uma Filosofia Popular Brasileira” (Bazar do Tempo), escrito em parceria com Luiz Rufino e Rafael Haddock-Lobo. A obra reúne 40 ensaios curtos e crônicas, sobre as sabedorias das ruas, assunto que o mestre em História Social pela UFRJ traz também em seu mais recente trabalho – “Umbanda: uma história do Brasil” (Civilização Brasileira) -, com as várias umbandas que atravessaram nossa história, nas quais se manifesta a diversidade do povo brasileiro.

“O Rio que eu retrato não é o Rio turístico, de cartão-postal, das praias, da Zona Sul. O meu Rio, que deveria ser mais mostrado aos turistas, é o da Igreja da Penha, do Morro da Conceição e Pedra do Sal, do coreto de Quintino, da ponte dos Jesuítas em Santa Cruz, da arquitetura dos clubes portugueses da Tijuca, das rodas de samba da Zona Norte. Por aí vai…”, diz Simas, presenteando O Pharol com seis programas pela capital fluminense neste mês de março, quando a cidade comemora seus 457 anos.

Igreja da Penha

Igreja da Penha, na Zona Norte do Rio, celebra 367 anos em 2022 (Foto: Divulgação)

A Basílica Santuário de Nossa Senhora da Penha de França, popularmente conhecida como Igreja da Penha, na Zona Norte do Rio, celebra 367 anos em 2022. Famoso pela tradicional escadaria com 382 degraus, o templo surgiu, segundo relatos históricos, no momento em que o dono do Quinto da Sesmaria, capitão Baltazar, em 1635, subiu até o ponto mais alto do penhasco – onde atualmente está a igreja – para olhar suas terras. Ao se deparar com uma cobra, ele pronunciou a famosa jaculatória ‘Valei-me, Nossa Senhora’, e, imediatamente, apareceu um lagarto predador de serpentes. Diante desse fato, construiu uma pequena capela onde pôs uma imagem de Nossa Senhora. Para atender os romeiros, o Santuário da Penha conta com a comodidade de bebedouros, lanchonete e diversos banheiros, além de outras instalações, entre elas a Sala dos Milagres, o Museu da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Penha de França e uma exposição de quadros. O acesso também pode ser feito por bondinho. Largo da Penha 19, Penha.

Morro da Conceição (com a Pedra do sal)

Samba na Pedra do Sal (Foto: Michela Bevilacqua)

A origem de seu nome deve-se a uma pequena capela em homenagem à Nossa Senhora da Conceição, construída no topo do morro, em 1590, por uma devota. Hoje, guarda atrações como Jardim Suspenso do Valongo, criado no governo Pereira Passos como uma réplica de parques franceses do século XIX; Pedra do Sal, local faz parte da região conhecida historicamente por “Pequena África”, que se estendia do entorno da Praça Mauá até a Cidade Nova e onde nasceu o samba urbano carioca; Cemitério dos Pretos Novos, considerado o maior cemitério de escravos das Américas e hoje funciona como centro cultural; Fortaleza da Conceição, construída no século XVIII e tombada em 1938 pelo Iphan.

No pé do Morro, a Igreja de São Francisco da Prainha tem como vizinho um largo que homenageia o mesmo santo (São Francisco de Assis) e é cercado por bares como Angu do Gomes e Casa Porto, além de palco para eventos como Acarajazz. Bem na esquina com a Rua São Francisco da Prainha, fica o Armazém Zero4, que na razão social é Armazém Bar São Francisco e onde a boa são os petiscos, o balcão em U e o décor que faz jus à história da família: paredes de pedra, azulejaria portuguesa e uma imagem de São Francisco de Assis.

Coretos de quintino

Os coretos de quintino foram construídos na cidade e arredores por negociantes locais (Foto: Divulgação)

Tipo de construção octogonal, com pedras expostas e escada cercada por gradil em ferro fundido, e cobertura com chapas de alumínio, os coretos de quintino foram construídos na cidade e arredores por negociantes locais. No Rio, o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural tombou alguns em razão da sua importância cultural, entre eles o da Praça de São Roque, na Ilha de Paquetá; onde ocorre a festa do padroeiro; o do Campo de São Cristóvão, em São Cristóvão, o maior do Rio, de 1906; e do Campo de Marte, em Realengo, além de muitos outros.

Ponte dos Jesuítas em Santa Cruz

A “Ponte dos Jesuítas” foi construída em 1752 a fim de regularizar o curso do Rio Guandu (Foto: Divulgação)

Remanescente do Brasil Colônia, a Ponte do Guandu, hoje mais conhecida como “Ponte dos Jesuítas”, foi construída em 1752 a fim de regularizar o curso do Rio Guandu, desviando parte de suas águas por um canal artificial para o Rio Itaguaí. Está situada na Estrada do Curtume, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio. Uma das mais simbólicas obras da engenharia brasileira, foi tombada pelo Iphan em 1938. Construída pelos padres jesuítas, em cantaria e alvenaria, sua base apresenta uma estrutura de arcos de raios desiguais revestidos internamente com pedra. Há também um pequeno bloco em mármore lioz com inscrições em latim alusivo à sua inauguração, incrustado no frontão de granito localizado em um dos guarda-corpos, de feição barroca. Em detalhe, traços de escavações arqueológicas. No seu entorno, segundo projeto de expansão executado pela Subsecretaria de Patrimônio Cultural juntamente com o Instituto Pereira Passos, está o Parque dos Jesuítas, que contempla a continuação das pesquisas arqueológicas, além de mirantes e o Museu dos Jesuítas.

Arquitetura dos clubes portugueses da Tijuca

Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, clube localizado na Rua Haddock Lobo (Foto: Divulgação)

A Tijuca, bairro famoso da Zona Norte do Rio, guarda rastros da colônia portuguesa por todos os lados. Só no trecho entre a Rua São Francisco Xavier e a Avenida Paulo de Frontin, há oito clubes fundados por imigrantes lusitanos, todos da primeira década do século XX. Um deles é a Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, clube localizado na Rua Haddock Lobo (número 195), onde há festas com grupos folclóricos formados por adultos e crianças e danças típicas. O bairro surgiu em 1565, quando a região foi ocupada pelos padres jesuítas, que se instalaram em fazendas dedicadas ao cultivo da cana-de-açúcar.

Rodas de samba da Zona Norte

Samba do Trabalhador, comandado pelo compositor Moacyr Luz no Renascença Clube (Foto: Divulgação)

Não tem nada mais carioca e, principalmente, suburbano do que roda de samba. Tradição que se mantém viva e vacinada contra a modernidade de novos gêneros, reunindo gerações de bambas há mais de cem anos. Algumas das mais tradicionais e famosas ficam na Zona Norte, do Andaraí a Oswaldo Cruz. Para ir não só neste mês março, tem roda até abril, quando vão acontecer os desfiles das escolas de samba. Entre as mais festejadas estão o Samba do Trabalhador, comandado pelo compositor Moacyr Luz há mais de 15 anos no Renascença Clube; a Roda do Cacique de Ramos, que atrai turistas do mundo todo há mais de duas décadas; a Roda do Grupo Samba de Enredo, há mais de cinco anos no Tijuca Tênis Clube, sempre recebendo integrantes da velha guarda de alguma geração; o Pagode da Tia Gessi, há quase meio século no Cachambi; e o Samba na Serrinha, idealizado em 2014 por João da Serrinha, sempre no último domingo do mês, para duas mil pessoas na Casa do Jongo, Madureira. Na ala das mais novas, a Roda da Feira Suburbana de Irajá, Vaz Lobo e Vicente de Carvalho, realizada sempre no último sábado do mês.