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A vida dos outros

A odisseia de Guilherme: como o jogador de futebol de Juiz de Fora conseguiu sair da Ucrânia

Guilherme Smith vai desembarcar no Aeroporto do Galeão na sexta-feira (Foto: Reprodução)

Na próxima sexta-feira (4), às 18h40, Guilherme Smith, de 18 anos, vai desembarcar no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Vai encerrar ali, nos braços do seu pai, Luiz Cláudio Coutinho, sua odisseia.

Exatamente há uma semana, também numa sexta-feira, seria retomado o campeonato ucraniano de futebol. Jogador profissional do Zorya, da cidade de Luhansk, Guilherme havia terminado a pré-temporada na Turquia e retornado para Ucrânia na sexta-feira (21) da semana anterior.

Mas na quinta-feira (24), às 5h (zero hora de Brasília), o presidente da Rússia, Vladimir Putin, autorizou o início da operação de invasão da Ucrânia. Motivo: a ameaça à hegemonia dos russos na região decorrente da aproximação dos ucranianos com o Ocidente.

Como Luhansk, assim como Donetsk, haviam sido reconhecidas por Moscou na segunda-feira (21) como repúblicas separatistas pró-Rússia, os dirigentes do Zorya liberaram seus atletas estrangeiros para deixarem o país imediatamente. Estavam no olho do furacão.

Guilherme e outros jogadores conseguiram um voo saindo na sexta-feira (25). Mas ao longo da quinta-feira (24), enquanto bases militares eram destruídas, tropas avançavam no território ucraniano. A sexta-feira amanheceu com o efetivo russo se aproximando da capital, Kiev, fechando o espaço aéreo.

Sem nenhuma perspectiva de deixar a Ucrânia naquele momento, o grupo fez um apelo ao governo brasileiro pelas redes sociais. O pedido de ajuda ganhou destaque em todos os jornais do país. Mas o Itamaraty limitou-se a recomendar a saída por terra pela fronteira com a Polônia.

Então, entre sábado (26) e domingo (27), o grupo com Guilherme e outros quatro brasileiros, entre eles uma criança de três anos, tentou atravessar a fronteira a pé, após cruzar o país de trem, saindo de Zaporizhzhya com destino a Lviv. Mas em vão.

A última estação do trem com os brasileiros estava ainda distante da fronteira. O grupo então decidiu percorrer o restante do caminho a pé. Para evitar cansaço apenas dos pais da criança, todos se revezaram carregando-a ao longo do percurso.

Enfrentando frio intenso e muito cansaço, eles chegaram à região fronteiriça. “Essa noite foi a mais triste da minha vida, e com certeza a pior. A divisa da Ucrânia com a Polônia não é nada do que falam. Andamos 60 quilômetros para chegarmos lá, quando chegamos fomos tratados como lixo”, escreveu Guilherme em suas redes sociais.

Embora nenhum dos brasileiros tenha se manifestado, imigrantes negros africanos na Ucrânia relataram nas redes sociais que estão sendo alvo de racismo e barrados em trens e ônibus ao tentarem fugir do país. Eles denunciaram que estão sendo enviados para o final da fila.

Com longas filas e milhares de pessoas tentando deixar o país, o grupo de brasileiros foi orientado a voltar e aguardar. Sem forças e meios de transporte, os cinco aguardaram na rua até o dia amanhecer. Ali, acenderam uma fogueira para suportar o frio e esperaram.

Na manhã seguinte, conseguiram carona com um ônibus que havia deixado algumas pessoas na fronteira e retornaram para a Lviv, onde se hospedaram em um hotel indicado pela embaixada brasileira. Uma nevasca impediu nova tentativa horas depois.

Na segunda-feira (28), havia a promessa de que um trem partindo da mesma cidade levaria os brasileiros à Polônia, mas a viagem foi cancelada. No mesmo dia, um ex-jogador de futebol, conseguiu falar com o pai de Guilherme em Juiz de Fora.

Luiz Cláudio Coutinho, que também foi jogador de futebol, foi informado que a ajuda estava próxima. “Nós vamos tirar seu filho de lá. Temos gente nossa lá.” De fato, no final daquela segunda-feira, um brasileiro nunca visto antes, hospedou-se no hotel onde seus compatriotas aguardavam.

Na manhã de terça-feira (1º), Guilherme e os outros quatro integrantes do grupo de brasileiros embarcaram em um van com destino mais uma vez à fronteira com a Polônia. Mas, diferentemente da outra vez, a tal “gente nossa” que haviam prometido ao pai do Guilherme estava lá, e eles conseguiram entrar em território polonês.

Quando o último do grupo atravessou, o motorista da van retornou para Lviv. Havia outros brasileiros à espera de uma chance para sair da zona de guerra. Os resgatados naquele dia sabem apenas que o motorista da van que os salvou atendia pelo nome de Rodolfo.

Já na Polônia, Guilherme foi acolhido por uma família cadastrada para receber brasileiros. Foi levado para casa para conversar com os pais por chamada de vídeo. Por decisão de sua família e dos empresários, ele vai retornar ao Brasil na sexta-feira (4) em voo saindo de Amsterdã, na Holanda.

Enquanto aguarda pelo desembarque do filho, Luiz Cláudio Coutinho, que também morava na Ucrânia, acompanha os desdobramentos da guerra. “Complicado pensar que outros jogadores e parte da comissão técnica estão na guerra para salvar o país deles.”

Ele também agora luta para tentar tirar da Ucrânia um menino de 14 anos, jogador Zorya, sua irmã de 11 anos e a mãe deles. “Essa família de ucranianos nos recebeu muito bem quando fomos para lá. Agora é a nossa vez”. A “gente nossa lá” já foi acionada.

Família de ucranianos que pediu ajuda para vir para o Brasil (Foto: Arquivo pessoal)