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Conjuntura

Patrus Ananias critica ‘vazio muito ruim’ no PT quanto à sucessão em Minas

Patrus sobre favoritismo de Lula: 'Não vamos encontrar uma avenida limpinha ao nosso dispor' (Foto: Billy Boss/Câmara dos Deputados)

O deputado federal Patrus Ananias (PT) é um crítico contumaz do Auxílio Brasil, criado no governo de Jair Bolsonaro (PL) para substituir o Bolsa Família, que ele ajudou a implementar enquanto ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo Lula.

Em entrevista exclusiva a O Pharol, ele aponta o fato de o novo programa social acabar com a integração com outras políticas públicas do governo federal como seu principal problema. “Nos eventos internacionais que eu participava sobre questões sociais, os representantes de todos os outros países se referiam ao Fome Zero e ao Bolsa Família em português, exatamente pelo êxito deles”, relembra.

E acrescenta: “Aí vem o Auxílio Brasil desmontando todas as políticas sociais, utilizando recursos dos precatórios, por um prazo determinado e sem integração com outras políticas que estão sendo literalmente desmontadas, como é o caso da segurança alimentar e da assistência social.”

Próximo do ex-presidente Lula, Patrus Ananias chegou a ser especulado como possível candidato do PT ao governo de Minas, mas afirma que será candidato à reeleição. Ele reconhece que o ex-presidente está bem colocado nas pesquisas, mas evita o clima de “já ganhou” que tomou conta de parte da esquerda. “Nós vamos ter muito trabalho.”

Nesse contexto, o deputado criticou a forma como o PT de Minas vem conduzindo as discussões sucessórias no estado: “Vejo um vazio muito ruim”. Também nessa conversa com O Pharol, por cerca de quarenta minutos, ele falou sobre a necessidade de derrotar o atual governador Romeu Zema, do aumento do desemprego no Brasil e da possibilidade de aliança do PT com o ex-tucano Geraldo Alckmin.

Deputado, nos últimos meses, o senhor tem sido um crítico muito contumaz do Auxílio Brasil, programa do governo Bolsonaro que substituiu o Bolsa Família no fim do ano passado. Quais as implicações do Auxílio Brasil?

Primeiro porque eu não vejo nenhum motivo para destruir ou desmontar um programa altamente exitoso como o programa Bolsa Família. Eu lembro sempre que uma das grandes alegrias que eu tive é que nos eventos internacionais que eu participava sobre questões sociais e políticas públicas os representantes de todos os outros países se referiam ao Fome Zero e ao Bolsa Família em português, exatamente pelo êxito deles.

Eu defendo a integração das políticas públicas. Nós integramos de imediato o Bolsa Família com as políticas públicas de assistência social. Me lembro bem que assim que entrou em vigor a lei que instituiu o Bolsa Família, nós integramos o Bolsa Família com o PET (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil). Depois houve a integração do Bolsa Família com os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) onde trabalham psicólogos e assistentes sociais nas comunidades mais empobrecidas.

De outro lado buscamos a integração do Bolsa Família com as políticas públicas de segurança alimentar através da implantação dos restaurantes populares como fizemos aí em Juiz de Fora, as cozinhas comunitárias, os bancos de alimentos.

O Bolsa Família tinha as condicionalidades relacionadas com educação e com a saúde. Nós começamos também a trabalhar isso do lado positivo. Dessa forma, ao mesmo tempo que obrigava as crianças a terem os cuidados com a saúde e a frequentar as escolas, começamos também a falar abertamente com as famílias beneficiadas que elas tinham então o direito de reivindicar do Estado que estivesse ao seu alcance equipamentos como postos de saúde, hospitais e também escolas que possibilitasse efetivamente o cumprimento das condicionalidades.

O Bolsa Família era uma política sem data limite. Aí vem o Auxílio Brasil desmontando todas as políticas sociais, utilizando recursos dos precatórios, por um prazo determinado e sem integração com outras políticas que estão sendo literalmente desmontadas, como é o caso da segurança alimentar e da assistência social. Por isso a nossa crítica vigorosa ao Auxílio Brasil.

O Brasil enfrenta uma taxa de desemprego elevada e a fome voltou. Na avaliação do senhor, o que deve ser feito para mudar esse cenário?

Eu considero importante nós sabermos o porquê que isso está acontecendo. Por que a fome voltou no Brasil com tanta intensidade? Famílias inteiras morando nas ruas, desemprego, subemprego, o achatamento dos salários. Por que isso está acontecendo? Não é vontade de Deus. Não é destino dado.

A conclusão que eu chego é que o golpe que afastou a (ex-presidente) Dilma tinha razões econômicas. Por trás do golpe estavam interesses econômicos que queriam retomar os seus privilégios no país.

O país fez uma opção pelo capital, pelo dinheiro e pelo mercado. Estado mínimo para os pobres e Estado máximo para atender os interesses dos poderosos como nós estamos vendo no Brasil com as privatizações e etc. Então essa é a primeira questão.

O que fazer diante disso? A pergunta é fundamental. Não há possibilidade de justiça, ao meu ver, fora do Estado. É o Estado que implementa as políticas públicas. Eu considero que para nós retomarmos rigorosas políticas de inclusão, de justiça social, de compromisso com a vida, que deve ser o valor fundamental, nós precisamos virar a página e derrotar em Minas o desgoverno Zema e, no plano nacional, o bolsonarismo, além de confrontarmos também o neoliberalismo para construirmos efetivamente um projeto nacional.

O senhor teve o nome lembrado nos últimos meses como um potencial candidato do PT ao governo de Minas. O senhor de fato chegou a considerar essa hipótese em algum momento?

Não. Nesse momento está muito claro pra mim que, em diálogo permanente com as pessoas que me apoiam, com os movimentos sociais, que o caminho é disputar a reeleição. Estou colocando claramente: sou pré-candidato à reeleição para continuar o mandato de deputado federal.

Nós estamos trabalhando para trazermos de volta o presidente Lula e mudarmos também a situação aqui em Minas, mas o Executivo precisa de um Legislativo que corresponda às boas iniciativas, aos mesmos compromissos.

Eu estou vendo em Brasília, por exemplo, que o Legislativo vem dando total suporte aos desmandos do governo Bolsonaro. Esse desmonte das políticas públicas, as privatizações, tudo isso tem tido um grande apoio no Congresso.

Está muito claro para mim que para nós fazermos essas mudanças que eu estou colocando aqui, como derrotar o bolsonarismo, retomar de maneira vigorosa a democracia, a questão dos direitos fundamentais, derrotarmos o neoliberalismo, retomarmos as políticas públicas, nós precisamos do poder Legislativo em todos os níveis comprometidos com essas mudanças.

Qual é a posição do PT hoje na disputa para o governo de Minas? O partido aguarda uma definição do do PSD, que tem o presidente do Senado, o mineiro Rodrigo Pacheco, como pré-candidato à presidência, para definir se vai ter candidato próprio ou se irá apoiar o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD)?

Eu faço uma crítica respeitosa, mas faço, ao meu partido aqui em Minas. Com todo respeito, mas eu tenho que colocar isso. São 42 anos de militância no PT e mais tempo ainda de militância social.

Eu vejo um vazio muito ruim no fato de o PT não estar, aqui em Minas, realmente discutindo a questão sucessória. Discutindo conteúdos, discutindo Minas Gerais. Quer dizer, nós não fizemos ainda, a direção estadual do partido não fez, nenhum evento, nenhum seminário, nada, para discutir Minas Gerais.

Minas é um estado fundamental no Brasil. Em uma conversa recente que tive com o presidente Lula, ele me dizia isso: Minas é o Estado politicamente mais importante do Brasil. Pela nossa localização geográfica, Minas é a cara do Brasil. Nós falamos com todas as regiões do país.

Para você discutir uma aliança, no caso uma possível aliança com o prefeito Kalil, ela tem que ser baseada também em algumas questões programáticas.

Nesse contexto, está muito claro também para nós do PT que a prioridade é o Brasil. Portanto, a nossa prioridade é a eleição nacional com a pré-candidatura da nossa liderança maior que fez um esplêndido governo, eu tenho muito orgulho de ter participado junto com ele, que é o (ex) presidente Lula.

Então é claro que os nossos acertos estaduais devem estar mediados por essa prioridade. Pessoalmente, como militante histórico do PT e deputado federal, eu manifestei o meu apoio à pré-candidatura do prefeito de Teófilo Otoni, Daniel Sucupira (PT), um jovem que vem fazendo um belo trabalho lá. Foi vereador, militante de movimentos sociais. Eu o conheço há muitos anos. Não como candidatura definitiva, mas, claro, sempre aberto à possibilidade de nós construirmos alianças.

Recentemente, o senhor esteve com o ex-presidente Lula. Ele lidera as pesquisas e muita gente especula que ele pode ganhar no primeiro turno. O senhor acredita nisso e essa é uma possibilidade comentada no entorno do ex-presidente?

A minha relação com o Lula que antecede ao Partido dos Trabalhadores. Eu o conheci quando ele era líder sindical e eu advogado trabalhista e depois nos encontramos no processo de construção do Partido dos Trabalhadores.

Eu estive com ele em São Paulo há uns dois meses e conversamos. Coloquei para ele o quadro de Minas, com toda a franqueza que eu falei aqui, e também falamos do cenário nacional. Nós vamos trabalhar muito para derrotar o bolsonarismo e o neoliberalismo e trazer de volta a maior liderança popular da história do Brasil que realizou um governo que mexeu fundo com o nosso país e melhorou a vida de milhões de brasileiros e brasileiras.

Eu gosto muito de futebol, assim como o presidente Lula. Nenhum time deve entrar em campo como já ganhou. Da mesma forma, eu acho que na eleição a gente tem que ter muita humildade. Tem que ter consciência das nossas possibilidades, que são grandes, realmente, mas nós vamos ter que trabalhar muito.

Tem duas questões objetivas que precisam ser enfrentadas. Primeiro, nós temos que reconhecer que a direita ganhou espaço. As forças conservadoras, por conta da propaganda e dos grandes setores dos meios de comunicação, ganharam espaço. E com isso esse ideário neoliberal, do Estado mínimo, também. Então nós temos que ter consciência e fazer uma disputa ideológica clara democrática, respeitosa, mas firme com relação a isso.

E tem um outro problema sério que é o bolsonarismo. É mais grave ainda. Me preocupa um pouco que seja uma campanha que resvale perigosamente na questão das fake news e, mais grave ainda, que resvale na violência.

O Lula de fato é uma liderança histórica com muita ressonância no país, mas nós não vamos encontrar uma avenida limpinha ao nosso dispor. Temos que estar preparados também para enfrentar as dificuldades e os desafios.

Nesse sentido das dificuldades, o ex-presidente Lula tem tentado fazer o maior número de alianças possíveis e chegar fortalecido na campanha. Uma delas é o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que pelo que se noticia será o vice. Qual a avaliação do senhor sobre essa chapa? Há resistência no PT?

Eu confio muito, depois de tantos anos de convivência, na liderança do presidente Lula, nos compromissos dele com a democracia, com os pobres, com os trabalhadores, com a classe média assalariada e com os pequenos e médios empresários, com o projeto nacional brasileiro.

E lembro também que quando o Lula colocou o nome do nosso saudoso José Alencar como vice-presidente, saudoso mesmo, eu gostava muito dele, também teve muita reação. E o José Alencar se comportou de uma maneira esplêndida. Foi um grande vice, que contribuiu muito e foi muito leal ao presidente Lula.

Neste momento, o primeiro e mais urgente desafio, como eu falei, é derrotar essas forças da violência e da intolerância, mas também sem perder de vista o nosso olhar para a construção de um país que supere o capitalismo selvagem.

Então eu vejo com tranquilidade esse diálogo com o Alckmin e com outras forças políticas. Mas dou também a minha contribuição nesse processo, procurando aprofundar, junto com outros companheiros do PT, a relação com os movimentos sociais, com a juventude e com outros partidos que somam conosco.

Não pode esquecer da base. É isso?

De jeito nenhum. O momento político é muito desafiador, então temos que nos movimentar em vários sentidos para derrotar o bolsonarismo e criarmos condições para darmos um passo à frente no processo de desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental.