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Brasil e Portugal 200 anos depois…

Em 7 de setembro de 1822 um príncipe português concedia a independência do Brasil. Bem ao modo lusitano: a praguejar nas margens do riacho Ipiranga e considerando o pai um nabo do ca#$&@+. Portugal apresenta algumas versões e o Brasil outras, mas, de resto, já lá vão 200 anos de história que o tempo e a distância trataram de consolidar a independência e criar outros tipos de vínculos entre os dois países.

Hoje, com os dois países a viver uma democracia plena as relações institucionais são muito mais fortes que no passado recente. Cada um viveu um período de ditadura diferente e as ideologias contribuíam para o afastamento. Ora, em Portugal até a Coca-Cola era “proibida”, o país era fechado sobre si mesmo e congelado em um passado de sonho; enquanto o regime militar brasileiro buscava a modernização e um lugar ao lado das principais potências econômicas: não havia tempo a gastar com países periféricos como Portugal.

A democratização e as reestruturações geopolíticas na formação de blocos econômicos alteraram a forma pela qual os dois países se olhavam. Mais do que uma história em comum havia a possibilidade de parceria, na qual cada país é a porta de entrada para o outro em seu respetivo continente. É óbvio que o processo não é linear e vários desencontros vêm acontecendo nesta caminhada.

“No futebol és um traço
De união Brasil-Portugal”

Lamartine Babo (HINO DO CR VASCO DA GAMA)

Um dos grandes problemas atuais na relação Brasil/Portugal está na tomada de decisões acontecerem exclusivamente nos corredores e gabinetes palacianos, sem ouvir a sociedade. Os atritos acontecem porque as comunidades têm suas reservas umas em relação às outras, pois uma parte da história e a raiz linguística são as mesmas, mas são dois países completamente diferentes.

Por isso o primeiro grande atrito foi, e ainda é, a reforma ortográfica. Esta foi uma tentativa de unificar uma língua que é usada de forma diferente. Apesar de ser um país mais pequeno, Portugal tem formas modernizadas na base da língua, enquanto o Brasil ainda conserva formas do século XVII e XVIII.

No entanto, o grande choque é cultural. Portugal é um país machista, conservador e dono de uma suave xenofobia (a maior da Europa). O olhar sobre o outro lado do Atlântico é uma espécie de arrogância de potência decadente; a consideração de que o irmão mais novo jamais vai sair da sombra do mais velho. Mas isso não é exclusividade com os brasileiros.

Uma parte da culpa nesta relação de beijos e tapas também cabe ao Brasil que reclama das mazelas serem herança portuguesa, como a corrupção comum aos dois países (cada qual teve seu chefe de Estado preso). Mas, como disse José Saramago em uma entrevista à TV brasileira: o Brasil tem uma carrada de italianos, alemães, japoneses e um monte de outras nacionalidades, e a culpa é do português?

Também aconteceram problemas nos dois últimos grandes movimentos de imigração. Nos anos 1980/1990 um grande fluxo de brasileiros veio a Portugal. Eram na sua maioria o refugo da imigração para os Estados Unidos e acreditavam que o modo de vida europeu seria igual. A maioria sem formação profissional e um grande número de prostitutas. Daí o conceito de brasileiro para o português comum era o churrasqueiro e a prostituta (sobre as mulheres a ideia prevalece ainda hoje).

Para quem ainda se lembra o caso dos dentistas foi apenas a ponta do iceberg.

O segundo fluxo migratório do Brasil para Portugal está a acontecer. Entretanto são pessoas que vêm para as universidades ou com formação profissional. O conflito acontece agora na disputa do mercado de trabalho e, obviamente, o sotaque funciona como critério.

Apesar desta relação um tanto sombria, no Portugal profundo o Brasil é um país amigo, os brasileiros são bem vindos e os portugueses estão abertos a uma boa convivência e troca de experiências. Uma aldeia portuguesa é como estar na roça em Minas Gerais: um vinho produzido no quintal, um prato típico e uma conversa à mesa (com a lareira acesa se for no inverno).

Longe dos discursos oficiais o relacionamento entre Brasil e Portugal passa obrigatoriamente pela sociedade. Não há espaço para a ideia piegas de países irmãos: Portugal não fala por si, faz parte da União Europeia e tem que encontrar sua identidade Europeia; O Brasil tem que assumir seu papel de liderança na América Latina.

Já fomos um único país e hoje somos primos, com traços culturais comuns e uma língua em comum.