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Teatro é vento, Ventania

Grupo Divulgação estreia “A Menina Ventania” e celebra 50 anos de peças infantis da companhia (Foto: Divulgação)

Meu pai é o Senhor dos Ventos

Minha mãe a Ventania.

Com esses versos, em ritmo de forró, o Filho do Vento (Ventinho, para os íntimos) se apresentava aos espectadores de O menino dos caracóis, peça infantil do Grupo Divulgação levada ao palco do Forum da Cultura em 2003. Para evitar qualquer dúvida, do Menino ou da plateia, ele corria pelo teatro até o alto da escadaria de espectadores, parava na porta da cabine de som e luz e voltava voando para o palco.

A criançada se divertia (menos no dia em que a casa estava tão cheia que todos os degraus da escada da plateia, geralmente ocupados, estavam abarrotados, fazendo com que o Ventinho corresse ali embaixo mesmo e usasse as escadinhas para voltar ao tablado). O personagem, inspirado no livro O menino de caracóis na cabeça, do Edimilson de Almeida Pereira, voltou anos depois, em A viagem do Trem Bão, dessa vez interpretado pelo Pedro Moysés.

Vinte anos depois da primeira aparição da família em cena, chegou a vez da mãe, a Ventania, mas quando ainda jovem: A menina Ventania está em cartaz no mesmo teatro, no Forum da Cultura, como parte da programação da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. O Pedro Moysés que foi Ventinho se tornou Rei e o ator da outra aparição do Filho do Vento, também autor deste texto, estava espectador naquele sábado, 12 de agosto.

O espetáculo começou estranho, sem aquele impacto costumeiro de uma luz que mostra o palco. Somente uma penumbra azulada, focada no centro, na boca de cena, era ocupada por um ou mais personagens. A luz, no modo cobertor curto, incomodava. Quando a Rainha passava a carraspana em duas outras personagens, precisava se revezar para ocupar a cena, porque cabia uma inteira e somente as pernas ou a cabeça de outra. E eram três. Estranho.

E a luz se apagou.

Naquele instante tudo parecia estar explicado: era hora de acender toda a luz e a Menina Ventania entraria em cena. Eureka! Ela salvaria tudo, do reino ao espetáculo! Que sacada! Que diretor! Quando a Rainha, interpretada pela Márcia Falabella, fez Oh! tudo parecia confirmado.

E a luz se fez. Na plateia!

Isso! Melhor ainda! Tal qual o filho, a Menina Ventania percorreria a plateia, ventaria degraus abaixo e subiria no palco!

A porta da cabine se abriu e de dentro não saiu a menina, mas o diretor da peça, José Luiz Ribeiro. Pediu desculpas pelo equipamento de luz que tinha se apagado e consultou o público: suspender o espetáculo ou prosseguir com um Led? O público queria a magia, mesmo que a tecnologia não estivesse à altura. E deu sorte. Logo em seguida a luz acendeu e, depois confessou o diretor (que também ocupava a iluminotécnica), precisou improvisar porque alguns canais estavam queimados no rack.

O mesmo rack que iluminou o Filho do Vento 20 anos antes.

O mesmo rack que iluminou a Márcia Falabella numa brilhante e premiada atuação em Botanágua, espetáculo que o Grupo Divulgação apresentou na primeira Campanha de Popularização, em 2002.

Juntos estão os mesmos assentos da plateia (alguns rasgados, outros lascados nas costas, muitos rangendo nas dobradiças), o mesmo palco (não com o mesmo volume, os cupins já levaram boa parte) e os mesmos spots (alguns dos quais iluminaram A morta, de Oswald de Andrada, na inauguração do Forum da Cultura, em 1972).

Quase tudo o que há de novo naquele espaço usado para se fazer teatro quem comprou foi o Grupo Divulgação. Que, faz algum tempo, numa política cultural da UFJF alinhada às propostas do governo federal de Jair Bolsonaro e da Minas Gerais de Romeu Zema, não pode cobrar pelos cursos que ministra e nem os ingressos para os espetáculos.

Como comprar material para figurino, maquiagem, cenografia? Como aprimorar a iluminação? O que esperar de um espaço que, em gestão anterior, interditou o palco para fazer um muro de arrimo por conta de uma rachadura que devia datar do último movimento das placas tecntônicas em Juiz de Fora e não trocou a estrutura elétrica de um imóvel tombado?

Teatro requer política cultural e o Grupo Divulgação trabalha com isso ao oferecer espetáculos para escolas públicas com o projeto Escola de Espectador, ao ministrar cursos para adolescentes e para a terceira idade e ao cobrar, sim, pelos cursos e pelos espetáculos. Alguém tem que investir no teatro, se não o poder público, os espectadores. Quando nenhum deles pode pagar para que um grupo de mais de 50 anos de trabalho siga atuando, fica a dúvida se é omissão ou boicote. Em ambos, como fundamenta Walter Benjamin, há um toque de fascismo.