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A morte e a morte do Instituto Granbery

Em 1996, ainda estudante do Instituto Granbery da Igreja Metodista, preparando-me para o vestibular que faria dois anos depois, fui apresentado ao universo literário de Jorge Amado, em seu fabuloso “A morte e a morte de Quincas Berro D´Água”.

Nosso imortal e imortalizado escritor ensinara-me, pelo olhar sensível e talento educacional da professora Margareth Mucci, que é possível morrer várias vezes em vida até a derradeira – ou não tão derradeira assim – morte física.

Mais dramático do que a finitude humana, porém, é uma instituição secular ter seu fim. O encerramento das atividades do Instituto Granbery não deixa de ser também uma espécie de morte e não deixa, inclusive, de representar uma possível morte em vida para quem seja um “granberyense da história sagrada”.

É trágico pensar que isso possa levar à perda de registros que estão na memória da cidade ou que, só ainda não estão, porque existe uma riqueza a ser descoberta em documentos e fotos que podem estar em caixas e gavetas da instituição, cuja história se liga à de Juiz de Fora.

Recapitulemos o que já sabemos.

A criação do Granbery, em 1889, foi um fato marcante para Juiz de Fora, quando a cidade crescia e se consolidava como a maior de Minas Gerais e a sexta do país, condição conquistada afirmada em meados da primeira década do século XXI.

Os metodistas chegaram à cidade se aproveitando dum ambiente ilustrado, republicano e liberal, pois, embora Juiz de Fora não deixasse de ser religiosa, numa época em que isso implicava seguir o catolicismo, juiz-foranos e juiz-foranas se distanciavam das práticas rígidas do credo, assim como abraçaram rapidamente a República em 1889.

Segundo Pedro Nava, isso gerava um comportamento de ‘ser de muito Deus e pouco padre, muito céu e pouca igreja, muita prece e pouca missa’, algo que posso eu dizer sobre a educação que tive no Granbery, algo que hoje me soa deísta, próprio dos chamados “Pais Fundadores dos Estados Unidos da América”.

O caldo cultural da cidade foi enriquecido pelo ethos metodista, em geral, e pela filosofia que os reitores e os professores no Granbery, em particular, impingiam nos seus alunos e na sociedade, como um todo.

Os fatos relevantes que ocorreram dentro do Granbery, graças a granberyenses, avolumam-se no curso de sua história.

Há quem credite, por exemplo, ter sido realizada a primeira partida de futebol no Brasil nas antigas dependências do colégio.

Também é sabido que, em 1911, foi criada a primeira faculdade de Direito da cidade, justamente no Granbery, oferecendo à população de Juiz de Fora, com mais de 100 mil habitantes, a possibilidade de colar grau num curso de excelência, com “lentes”, professores de renome nacional, como o jurista e à época já imortal da Academia Brasileira de Letras, Silvio Romero.

Sonho infelizmente interrompido pela polêmica “Reforma Carlos Maximiliano”.

Na década de 20, uma geração de intelectuais e apreciadores da literatura foi forjada nos seios dos Grêmios Literários “Castro Alves”, “Sylvio Romero” e “Coelho Netto”, a ponto de o escritor e imortal da ABL, Coelho Netto, ter vindo à cidade participar de atividades no Granbery.

Em 1927, fundou-se um grupo escoteiro no colégio.

Durante a grande enchente de 1940, conta-se a participação exemplar do reitor de então, Mister Moore, cuidando das pessoas mais vulneráveis e relegadas socialmente.

Aliás, o Granbery sempre teve atrelado a si grandes educadores, tais como seus ex-reitores Irineu Guimarães e Vittorio Bergo, figuras humanas e intelectualmente respeitadas, ambos maçons de duas das mais antigas Lojas Maçônicas da cidade e do Estado, Fidelidade Mineira e Caridade e Firmeza.

Este mesmo Irineu, assumida e reconhecidamente comunista, foi vereador e antes esteve cotado para vir candidato a prefeito de Juiz de Fora pelo Partido Comunista, em 1947, como nos informa Wilson de Lima Bastos em seu livro “Na Trilha da Esperança”.

Parte da trajetória educacional dele também está retratada no livro “Irineu Guimarães: a prática socialista de um educador cristão”, de autoria de outro ex-reitor da instituição, professor Arsênio Firmino Novaes Netto.

Ah! Muito antes desses fatos e dessas pessoas, Belmiro Braga, nosso grande poeta, admirado por Drummond e outros tantos, foi inspetor educacional do colégio.

Não podemos esquecer, é claro, dos ex-alunos notáveis que lá estudaram: homens públicos como o ex-presidente Itamar Franco e os ex-Ministros do Supremo Tribunal Federal Antônio Martins Vilas Boas e Victor Nunes Leal; escritores como Affonso Romano de Sant´Anna e Augusto Frederico Schmidt; juristas do quilate dos professores Theotonio Negrão e Paulo Medina; esportistas como o incrível Evaristo de Macedo.

O fim do Granbery gera, assim, uma angustiante questão: o que será feito de seu rico acervo histórico? Essa resposta precisa ser respondida para que outras, próprias do universo da pesquisa histórica e memorialista, continuem a ser feitas.

Quem mesmo estudou no Granbery? Quem mais por lá educou? Quais outros fatos relevantes ocorreram em suas dependências?