Enquanto aguarda a água do Rio Paraibuna baixar para conseguir acessar novamente a parte inferior de sua casa, Júlia Mourão Ruela, de 84 anos, enfrenta dias de apreensão no Bairro Industrial, em Juiz de Fora. Desde terça-feira (24), as chuvas que atingem a Zona da Mata elevaram o nível de rios e córregos, provocando inundações e deslizamentos de encostas na cidade.
Moradora do mesmo bairro durante boa parte da vida, Dona Júlia afirma já ter convivido com temporais em praticamente todos os verões, mas diz estar assustada com “a quantidade de água deste ano”. A situação a faz reviver o drama enfrentado pela filha, Edimeia Julia Ruela de Oliveira, de 59 anos, durante as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024.
Edimeia vive em Rio Pardo, município a cerca de 145 quilômetros de Porto Alegre. Na ocasião, a casa onde morava foi tomada pelas águas dos rios Pardo e Jacuí. Com poucas peças de roupa e documentos, ela, o marido e os dois filhos buscaram abrigo em uma igreja. Posteriormente, com ajuda de familiares mineiros, iniciaram a reconstrução da vida.
Agora, é a vez de a família em Minas enfrentar a força da água. Raul Mourão, filho mais novo de Dona Júlia, relata que, apesar de estarem abrigados na parte superior da residência, as condições são precárias. “Estamos seguros na parte de cima da casa, mas há muita dificuldade para circular. O sinal de internet e a energia elétrica também são instáveis”.
Segundo ele, a irmã acompanha à distância os desdobramentos da situação em Juiz de Fora. “Chuva, para a nossa família, sempre assusta muito. Virou uma espécie de tragédia recorrente”, lamenta.
Situação em Juiz de Fora e região
O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais entrou, nesta quinta-feira (26), no terceiro dia de buscas por desaparecidos em áreas atingidas por deslizamentos e desabamentos em Juiz de Fora e em Ubá.
Até as 7h30 desta quinta, o balanço oficial aponta: 47 mortos e 13 desaparecidos em Juiz de Fora; 6 mortes e 2 desaparecidos em Ubá; e cerca de 3.500 pessoas entre desabrigadas e desalojadas.
Durante a madrugada, foram registrados 113 milímetros de chuva em Juiz de Fora, com novos desabamentos de residências. De acordo com os bombeiros, até o momento, não há confirmação de novas vítimas em decorrência das ocorrências mais recentes.
Com o temporal da noite de quarta-feira (25), o acumulado de chuva em fevereiro chegou a 733 milímetros no município, volume 4,3 vezes superior à média histórica esperada para o mês.
A Defesa Civil de Juiz de Fora já contabiliza quase 1.300 ocorrências desde segunda-feira (23), envolvendo alagamentos, deslizamentos, rachaduras em imóveis e riscos estruturais. A previsão meteorológica indica possibilidade de chuva pelo menos até sexta-feira (27), mantendo o estado de alerta na cidade e em municípios da Zona da Mata.

