Meio Ambiente

Limitações nos dados prejudicam análise de chuvas em Juiz de Fora

Pesquisadores do Brasil, Holanda, Suécia, Dinamarca, Estados Unidos e Reino Unido avaliaram em que medida a mudança climática induzida pelo ser humano alterou a probabilidade e a intensidade do evento de chuvas que provocou os deslizamentos em Juiz de Fora. O resultado do estudo, divulgado no último dia 12 pela organização World Weather Attribution (WWA), aponta que ainda não há evidência científica conclusiva de que o aquecimento global tenha sido determinante para o episódio de chuvas extremas que atingiu a região, com impacto extremamente severo.

A conclusão indica que os dados disponíveis ainda não permitem estabelecer essa relação de forma robusta para este caso específico. De acordo com o estudo, as séries observacionais apresentam alta variabilidade e resultados divergentes. Enquanto alguns conjuntos de dados não apontam tendência de aumento das chuvas em fevereiro ao longo das últimas décadas, outros sugerem crescimento entre 25% e 60%. Já os modelos climáticos utilizados na análise não identificam mudanças significativas nas condições atuais da região, o que dificulta atribuir o episódio diretamente ao aquecimento global.

Apesar disso, o próprio relatório ressalta que há um “sinal emergente” de intensificação das chuvas com o avanço do aquecimento do planeta. Projeções indicam que eventos semelhantes podem se tornar cerca de 7% mais intensos em cenários futuros, especialmente a partir de 1,5°C de aumento da temperatura global, em linha com avaliações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Embora a influência climática não tenha sido comprovada de forma conclusiva neste episódio, o estudo é enfático ao afirmar que a gravidade da tragédia está diretamente ligada a fatores estruturais locais. Juiz de Fora aparece entre as cidades brasileiras com maior proporção de moradores em áreas de risco, com cerca de 130 mil pessoas vivendo em regiões suscetíveis a deslizamentos e inundações.

O levantamento aponta que o processo histórico de urbanização, marcado pela ocupação de encostas e fundos de vale, muitas vezes sem planejamento adequado, ampliou significativamente a vulnerabilidade da população. Regiões afetadas são citadas como exemplos de áreas onde a combinação de relevo acidentado, infraestrutura precária e drenagem insuficiente potencializa os efeitos de chuvas intensas.

Outro ponto destacado é a limitação dos sistemas de alerta. Apesar de órgãos como o Cemaden e o INMET terem emitido avisos prévios sobre o risco de deslizamentos e enchentes, parte da população não recebeu, não compreendeu ou não conseguiu agir a tempo. Entre os fatores estão dificuldades de comunicação em áreas de relevo complexo, ausência de rotas de evacuação e a permanência prolongada de famílias em zonas de risco por falta de alternativas habitacionais.

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem que a redução de riscos passa menos por debates isolados sobre causas climáticas e mais por ações concretas de adaptação. Entre as medidas recomendadas estão a estabilização de encostas, melhorias na drenagem urbana, reforço estrutural de moradias, ampliação dos sistemas de alerta e investimentos em preparação comunitária.

O relatório também destaca a necessidade de políticas públicas contínuas, com atenção especial à redução das desigualdades sociais, consideradas centrais na concentração de populações em áreas vulneráveis. Embora o aquecimento global possa vir a agravar eventos extremos no futuro, a dimensão da tragédia registrada em Juiz de Fora está diretamente relacionada à exposição ao risco e à fragilidade urbana. São esses fatores que, segundo os pesquisadores, já tornam desastres desse tipo altamente prováveis mesmo na ausência de uma influência climática claramente mensurável.