Contexto

Faltam informações um mês após a tragédia das chuvas

Um mês da tragédia de Juiz de Fora

Já era março quando a prefeita Margarida Salomão reuniu parte da imprensa para tratar da recuperação das áreas atingidas pelas chuvas de fevereiro. Na ocasião, apresentou uma explicação técnica detalhada sobre o volume excepcional de chuva concentrado em poucas horas, responsável pelo encharcamento do solo e pelos deslizamentos de encostas.

O encontro também foi marcado pelo compromisso de transparência. Falou-se em pacto, em reconstrução, em diálogo aberto. Mas o tom da reunião rapidamente revelou outro ambiente. Ao tomar a palavra, uma empresária do setor de comunicação preferiu o elogio irrestrito à cobrança pública. A cena foi emblemática.

Poucos dias depois, morria o filósofo alemão Jürgen Habermas, que formulou o conceito de esfera pública como espaço de debate racional capaz de orientar a opinião pública e pressionar governos. Para ele, o jornalismo não é acessório, mas condição da própria democracia. Sem mediação qualificada entre poder e sociedade, o debate público se deteriora.

E é exatamente isso que se vê.

A comunicação digital não apenas encurtou caminhos, mas atropelou mediações. Políticos e governos passaram a falar diretamente ao público, sem questionamentos, sem contraditório, sem filtro. O que poderia ampliar o acesso à informação acabou, na prática, substituindo o debate por versões prontas, embaladas por algoritmos e orientadas pelo impacto emocional. A verdade factual perde espaço para a narrativa mais eficiente.

Nesse cenário, a gestão pública vira palco. Explicar políticas dá lugar a performar decisões. A complexidade da administração é reduzida a slogans. Quem define primeiro a narrativa delimita o que pode ou não ser discutido. E o cidadão é empurrado para um papel de expectador passivo, devendo aplaudir ou rejeitar, mas quase nunca deliberar com base em informações completas.

Em Juiz de Fora, isso ficou evidente. Em poucos dias, a cidade recebeu presidente, governador, ministros, deputados e secretários. Anúncios foram feitos em série. Promessas circularam nas redes sociais. Coletivas de imprensa ocorreram, muitas delas sem espaço para perguntas. Trinta dias depois, o saldo é constrangedor: faltam respostas básicas.

Quem tem direito aos R$ 200 mil do programa Casa Assistida? O benefício contempla inquilinos ou proprietários? O que acontece com famílias que ultrapassam o teto de renda? O auxílio de R$ 7.300 será pago em quais condições? O Pix de R$ 800 vale apenas para quem estava no CadÚnico antes da tragédia? A isenção do IPTU saiu do papel?

Não são dúvidas sofisticadas. São perguntas elementares de quem perdeu casa, renda e rotina.

E a lista continua. Haverá contenção de encostas em áreas privadas? Quando todas as crianças voltarão às aulas? Os recursos existentes para drenagem são suficientes? Quanto há de dinheiro público novo até agora? Qual o impacto econômico real da tragédia? O transporte público será normalizado? Onde está, afinal, a Defesa Civil?

Sobre a causa das chuvas, não há controvérsia. Os dados foram amplamente divulgados. A cidade inteira conhece alguém atingido. A dimensão da tragédia é evidente. O problema já não é diagnóstico, mas comunicação. Falta informação clara, acessível e verificável. Falta organização das respostas. Falta, sobretudo, disposição para o escrutínio público.

O que deveria ser exceção virou regra, com autoridades anunciam muito e explicam pouco. A imprensa, seja por conveniência, alinhamento ou fragilidade, não pode abdicar de seu papel mais básico que é perguntar, confrontar e esclarecer.

É aqui que a lição de Habermas se impõe com força. Sem uma esfera pública ativa, informada e mediada por jornalismo independente, a democracia se esvazia. O debate dá lugar ao aplauso, ao afago ou à rejeição automática.

Juiz de Fora não precisa de mais anúncios. Precisa de respostas. E, neste momento, precisa urgentemente de uma imprensa disposta a cobrá-las.