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Marx invertido: Estado de sítio

'Estado de sítio' no Forum da Cultura em 1980, com montagem do Grupo Divulgação (Foto: Grupo Divulgação)

O movimento de levar um livro para votar em 2018 deveria ser mantido. Perguntar o livro (filme, disco…) preferido de uma pessoa mostra muito da personalidade. Levar um livro para votar já é um bom exemplo, o conteúdo é outro. Estado de sítio, de Albert Camus, traz uma discussão boa.

O título mostra um presságio, o autor uma certa indiferença, que é como muitos tratam seu existencialismo, que vai além do “tanto faz” para uma declaração de amor, sem mencionar a mãe morta, porque de morte falaremos na última frase deste texto. Falemos do presságio e da contestação política que ele apresenta.

Antes de Estado de sítio, que é uma peça de teatro, Albert Camus escreveu um romance chamado A peste. Numa cidade litorânea (o mar é sempre uma escapatória histórica, ou o caminho para a chegada de outras pestes, como os indígenas brasileiros podem relatar), a peste chega como um incômodo, se torna um problema e acaba em pandemia.

O livro é contado do ponto de vista de um médico, profissão que vai de endeusada a polêmica nos últimos meses de Brasil, e quem traz um bom texto sobre o assunto é o Raí, jogador de um raro grupo entre brasileiros capaz de chutar, marcar, orientar, falar bem e escrever, entre os quais podemos incluir o irmão falecido do craque mencionado (ícone na recém-eleita prefeita de Santiago, no Chile), Juninho Pernambucano, Casagrande e Chico Buarque (este um tanto fominha em campo, como relataram espectadores comunistas).

Ilustração: trajes dos médicos no combate à peste

Jean-Louis Barrault, homem de teatro, convidou Camus para uma adaptação do livro para teatro. Um livro atinge leitores, uma peça atinge público: uma boa história precisa ser contada e recontada, para chegar a mais gente. Camus recusou, porque Barrault estava envolvido com o pensamento de Antonin Artaud e queria fazer da peça um drama.

O tempo, grande remédio, trouxe ânimo à discussão quando Barrault aceitou transformar a adaptação em uma farsa. Camus topou e das conversas nasceu o texto de Estado de sítio, publicado em 1948, quando encenado. Um fracasso.

Crítica e público detestaram, questionaram, reclamaram e a farsa tinha tudo para não se repetir. Mas estamos em 2021 e ela está novamente em cartaz.

Esteve em cena antes, no Forum da Cultura em 1980, com montagem do Grupo Divulgação, e no fatídico 2018, com direção de Gabriel Villela: dois alertas em tempos simbólicos sobre onde a democracia poderia nos levar. E em 2021 ela segue encenada.

No teatro não, porque artistas são conscientes dos cuidados com o outro e não estão dispostos a contaminar ninguém. Artistas de teatro querem falar para o público que chora, ri e abraça, não para o que conecta. Estamos falando de outra versão do texto, a que sai nos jornais.

Em 2018 (aos que têm memória, remetam a 2016), a crônica de uma morte foi anunciada. Naquele momento, uma só, a do país. Outras quase 500 mil (dos dados oficiais) ainda não estavam no horizonte deste país com saída para o mar, pelo menos naquele momento.

Em dezembro de 2019 um vírus apareceu na China. Expressões como globalização, comunidade internacional, aldeia global pareciam pertencer a um mundo teórico, porque “o vírus é chinês” e, como convém às normas de imigração, precisa de cadastro, passaporte e visto para cruzar fronteiras. Era algo como pensar na necessidade da camisinha na hora H e ignorar quando ela chega. Como dizer foda-se na hora do… vírus.

 Quase um ano e meio depois, estamos aí, os que estão.

Muitos países com saída para o mar encontraram soluções, e não foi na água. Outros, não fincaram o pé no chão da ciência e perderam público. No palco, sob o spot principal de luz, com todas as chances de se dar bem e agora com a certeza de errar o texto, está o Brasil. Vamos ao protagonista de Estado de sítio.

A peste chegou. Um pouco a cada dia, desacreditando pessoas por conta de discursos políticos interessados em alguns, matando muitos, porque um, se o um for seu próximo, é muito. Se um for humano, é muito.

Entre personagens e vozes, a peça de Camus é conduzida pelo medo. O medo do cometa que passa e dizem que vai trazer a dor, o medo do governo que promete resolver o que o cometa trouxer, o medo do outro, que fala a favor do cometa e contra o cometa. A peça começa com vozes diante do cometa e traz uma troca que tem mais de 70 anos, mas não parece:

UMA VOZ: Hoje em dia ninguém acredita mais em sinais, seu piolhento! Somos inteligentes demais para acreditar nisto.

UMA VOZ: Sim, e é assim que a gente quebra a cara. A gente é burro feito porco; e porco se sangra a faca.

(Desconheço se agrupamento de porcos pode ser chamado de gado e o tempo da escrita deste texto não me permite pesquisar; faça-o quem ler.)

Vozes deram o alerta, mas outras atenderam ao chamado do porco ou do burro e deixaram as fronteiras abertas. A peste chegou. Um pouco a cada dia, desacreditando pessoas por conta de discursos políticos interessados em alguns, matando muitos, porque um, se o um for seu próximo, é muito. Se um for humano, é muito. Relações pessoais de lado, vamos pensar no negacionismo científico, ao que recorremos ao Olavo de Carvalho do texto de Camus, que, sem falar palavrões,  faz uma linda previsão a uma mulher e recebe seu dinheiro e a pergunta.

MULHER: Obrigada. Mas tem certeza do que me disse, não tem?

O ASTRÓLOGO: Sempre, minha pequena, sempre! No entanto, atenção! Naturalmente, nada aconteceu nesta manhã. Mas “o que não aconteceu” pode atrapalhar o meu horóscopo. Eu não posso me responsabilizar pelo que “não aconteceu”.

Se formos apelar (“apelou, perdeu”, dizem as conversas juvenis) para a Filosofia, tudo tem um contraponto, a cada ser tem um não-ser. Todo indivíduo pode se responsabilizar pelo ato ou evadir-se do não-ato. Que lindo, que poético, que religioso. Pelo menos se religioso fosse o governante federal, minimamente leitor da Bíblia (sobretudo do livro do Filho que perdoa, mais do que do Pai que pune), ou conhecedor da fala do Cura, ainda na primeira parte da peça:

O CURA: Digam o mal que cometeram ou que pensaram em cometer. Senão o veneno do pecado haverá de sufocá-los e levá-los ao inferno, como os tentáculos invisíveis da peste… Da minha parte, acuso-me de não ter sido suficientemente caridoso.

No entanto, a governança nega mesmo a negociação que se poderia fazer com a Peste, quando Diego, na terceira parte, pede para morrer no lugar da amada. Como assim!? Morrer no lugar do outro? Prefiro andar de moto. Negociar com a Peste não faz parte do diálogo.

Negociar com a peste era ficar em casa e ela não quis que ficássemos. Negociar com a peste era tomar cuidado com o outro e não tomamos. Negociar com a peste era evitar mortes que não evitamos.

A peste era outra. Marx errou. A história que foi contada como farsa, por Albert Camus e Jean-Louis Barrault, agora é tragédia. Uma tragédia de quase meio milhão de mortos.

Se você não entendeu isso em 2018 e precisou da pandemia para ensinar, siga lendo, do bom jornalismo ao teatro e à literatura.

Se ainda não entendeu e está lendo este texto, o vírus tem menos senso crítico que você.