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A explosão dos consensos e um país no olho do furacão

Ao longo dos últimos anos temos vivido como se estivéssemos permanentemente no olho de um furacão. Desde as manifestações que tomaram as ruas do Brasil em junho de 2013, assistimos a um encadeamento frenético dos acontecimentos, e a lógica da instabilidade tem sido aquela a guiar o compasso da política no país.

Não se trata de dizer que, até aquele momento, o Brasil era um país regido pela calmaria. Mas, é possível afirmar que após o fim da ditadura e o longo processo de redemocratização, que resultou na elaboração da Constituição de 1988, certa estabilidade – mesmo em períodos marcados por acontecimentos turbulentos, a exemplo do impeachment de Collor, em 1992 – assegurava um mínimo de previsibilidade ao sistema político. Essa estabilidade advinha principalmente de alguns consensos que, sob a égide da Carta de 1988, foram se consolidando e, gradativamente, se sedimentando entre as diferentes forças políticas e sociais.

Ainda que disputas existissem – sobretudo entre os dois eixos partidários, PT e PSDB, que hegemonizaram a política nacional entre 1994 e 2014 –, os embates se davam em torno de questões que não colocavam em xeque aqueles consensos traçados no pós-1988. Petistas e tucanos travavam disputas acirradas, mas em torno de temas legítimos em quaisquer sociedades democráticas, a exemplo de se teríamos mais ou menos Estado para regulamentar a economia e quais seriam as características das políticas sociais. Esses conflitos, porém, sempre ocorriam dentro do enquadramento dos consensos que abarcavam as ideias de democracia, de direitos humanos, de respeito à ciência e de preservação ao meio ambiente.

A partir de junho de 2013, contudo, abriu-se um novo ciclo político no país. Por um lado, as manifestações que tomaram as ruas possibilitaram a crítica aos limites daquela estrutura política regida pela hegemonia PT-PSDB, proporcionando um terreno mais propício para a emergência de novos sujeitos políticos, trazendo para a esfera pública agendas que renovaram um sistema demasiadamente fechado em si mesmo. Por outro lado, aqueles protestos – e os que se seguiram em 2015 e 2016 – abriram caminhos para a emergência de forças que traziam consigo o desejo de explodir alguns dos consensos que haviam sido construídos a partir da Constituição de 1988.

Não que essas forças já não existissem na sociedade. Um país com a história do Brasil, marcado por “passados sensíveis” como a escravidão e a ditadura, que não foram devidamente enfrentados, deixa continuidades profundas em instituições e em comportamentos autoritários e preconceituosos que não se apagam com a redemocratização. Porém, ao longo das últimas décadas, sob a lógica dos consensos construídos em 1988, aqueles que defendiam discursos como, por exemplo, o elogio à ditadura de 1964, o ataque às minorias, a deslegitimação da ciência e a defesa da destruição do meio-ambiente, permaneciam constrangidos para defenderem mais abertamente essas ideias na esfera pública. Nos últimos anos, entretanto, esses sentimentos, antes difusos, foram encontrando cada vez mais canais e atores capazes demobilizá-los e de organizá-los politicamente.

Valendo-se sobretudo das possibilidades abertas pelas redes sociais, esses grupos foram gradualmente se expandindo, a ponto de suas ideias contra a democracia, os direitos humanos, a ciência e o meio-ambiente, não terem sido um problema para que seus principais porta-vozes vencessem eleições e chegassem não apenas ao governo federal e ao Congresso Nacional, mas aos executivos e aos legislativos estaduais e municipais de todo o país. Importa registrar, inclusive, que forças que contribuíram para a construção dos consensos pós-1988 preferiram, em nome de interesses eleitorais, silenciarem frente aos avanços desses grupos, mesmo que já restassem evidentes seus objetivos de explodirem os enquadramentos básicos legados pela Constituição de 1988.

Neste contexto de avanço da pandemia, quando atravessamos um dos momentos mais difíceis da história do país – com milhares de mortos, desemprego em alta, aumento da miséria e da fome –, nos vemos diante do desafio não apenas de enfrentar o coronavírus e suas consequências econômicas e sociais, mas também de ter que proteger e reconstruir, em meio ao caos, os consensos forjados no pós-1988.

Não será tarefa fácil. Mas, apesar dos obstáculos, alguns sinais – a exemplo dos diálogos entre partidos da oposição – indicam que, apesar das turbulências, em algum futuro, que se espera seja próximo, será possível começar a vislumbrar uma saída do olho do furacão.

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Aproveito esta primeira coluna para saudar o lançamento do Jornal O Pharol, desejando longa vida a esta publicação.