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Polytheama

Por dentro do Hospital Colônia de Barbacena

Série original de ficção "Colônia", criada e dirigida por André Ristum, mostra a tragédia que ocorreu no hospital psiquiátrico fundado em Barbacena em 1903 (Foto: Divulgação)

Uma nova e bem fundamentada obra baseada no livro “Holocausto brasileiro”, da jornalista e escritora juiz-forana Daniela Arbex, está disponível na GloboPlay. Em dez episódios, a série original de ficção “Colônia”, criada e dirigida por André Ristum, mostra a tragédia que ocorreu no hospital psiquiátrico fundado em Barbacena em 1903, onde cerca de 60 mil pessoas foram mortas vítimas de maus tratos. Segundo historiadores, 70% dos internos não sofriam de doença mental, em sua maioria eram negros, pobres, mulheres grávidas, homossexuais, prostitutas e pessoas sem documento. Os indesejáveis para a sociedade da época.

“Fico muito feliz que esta história venha a ser contada em diferentes plataformas, de diversas formas, para incontáveis públicos. É importante para que mais pessoas tenham acesso ao que aconteceu em nossa história. Muitos não conheciam esta passagem tão dramática do tratamento psiquiátrico no Brasil”, comenta Daniela.

Esta passagem macabra da história manicomial brasileira só veio à tona graças à investigação da jornalista que, em 2011, manchetou o jornal “Tribuna de Minas” com uma matéria sobre a instituição que aprisionou, torturou e exterminou milhares de pacientes psiquiátricos e também pessoas saudáveis, mas “inconvenientes”, durante décadas.

O fio condutor foi o contato, 50 anos depois, com as fotos feitas dentro do hospital em 1961, pelo fotógrafo Luiz Alfredo, que trabalhava para a revista “O Cruzeiro”. O livro “Holocausto brasileiro” saiu em 2013 e já está na 22ª edição, com 400 mil cópias vendidas, no Brasil e em Portugal.

A minissérie conta com a participação da atriz juiz-forana Andréia Horta (Foto: Divulgação)

“Houve muitos relatos de adultos de que quando crianças eram ameaçadas para serem enviadas e internadas caso cometessem algum ‘erro’, como castigo, principalmente em Minas Gerais. Pessoas que cresceram assombradas, como é o caso da minha biografada Isabel Salomão de Campos (médium e líder espiritual da Casa do Caminho). Quando ela ouvia coisas que ninguém compreendia, parava de contar por medo.Isto em 1938, aos 14 anos. Ela percebeu que corria risco. Era um medo real presente nas famílias”, acrescenta a escritora.

“As personagens desta série são fictícias. Os fatos aconteceram realmente.” O alerta, no início de cada episódio (de até 30 minutos, cada), dá o tom do que o espectador vai assistir.  O principal desses hospitais, o Colônia tinha capacidade para 200 pessoas, mas chegou a abrigar cinco mil internos que estavam sujeitos a frio, falta de higiene, abandono e castigos físicos, incluindo tratamentos de choque.

“Nunca tinha ouvido falar na dimensão da tragédia”, diz André Ristum, que também assina o roteiro com Marco Dutra e Rita Gloria Curvo. “Fui até Barbacena, conheci o hospital psiquiátrico, que não se chama mais Colônia. O lado desumano é o mais impactante, a psiquiatria aceitava este tipo de reclusão compulsória, e hoje a gente acha um absurdo. Na época, tratamento de choque era tratamento.”

Filmada em P&B e com grande elenco, a série foi feita em seis semanas em meados de 2019, a maioria numa locação no bairro Ipiranga, em São Paulo, um ex-convento abandonado, de certa maneira deteriorado, o que, para Ristum, foi ótimo.

“Foi preciso uma direção de arte muito competente para fazer as paredes falarem. Em Barbacena, conheci internos da época que ainda residem lá, mas que agora podem entrar e sair. A direção da instituição me disse que preferiria que não fosse lá, pelo fato de que uma revisitação de um passado tão doloroso não faria bem para aquelas pessoas”, conta o diretor.

Atuam na série (a também juiz-forana) Andréia Horta, Eduardo Moscovis, Augusto Madeira, Naruna Costa, Christian Malheiros e Marat Descartes.

Anos 1980 e o início da luta antimanicomial no Brasil

Foi só a partir da década de 1980, com a luta antimanicomial no Brasil, que a situação começou a mudar. Para a psicóloga Maria Eduarda Todorof, foi a partir da reforma na Itália com o psiquiatra Franco Basaglia que a discussão começou de fato a ampliar a partir com a redemocratização.

“Um novo modelo de atenção psicossocial é instituído com a Lei 10.216/2001 que define a Política Nacional de Saúde Mental no SUS. A partir dessa lei, é fomentada então a criação de uma rede que possibilite uma maior interação entre os serviços de atenção à saúde mental que substitua os hospitais psiquiátricos,  a fim de combater os modelos manicomiais e asilares de assistência. Mas tivemos vários retrocessos a partir do governo Temer”, explica Maria Eduarda, que trabalha em um dispositivo de saúde mental no no Centro de Convivência e Cultura da Niterói e pesquisa o assunto para a monografia de conclusão do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O Hospital Colônia que emerge desta adaptação mais recente ainda causa surpresa e choque em razão da dimensão da tragédia, para muitos, um assunto desconhecido. Ainda assim, dizem estudiosos, as revelações sobre o lado mais sombrio desta história ressaltam ainda mais sua transformação moral e seu heroísmo.

O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena foi inaugurado em 1903 como primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais e atuava na assistência aos “alienados” (Foto: Acervo Público Mineiro)

“A internação, hoje em dia, só acontece com aceitação da pessoa, ou então compulsoriamente, desde com autorização judicial, mas de forma excepcional, muitas vezes em caso de pacientes com dependência química ou transtorno mental”, pondera a psicóloga Marília Xavier. “A Lei 10.216/2001, proposta pelo então deputado federal Paulo Delgado, também conhecida como Lei Paulo Delgado, está completando 20 anos, e deve ser muito comemorada. Ela garante direitos aos portadores de transtornos mentais no Brasil. Um marco importantíssimo depois de 32 anos de luta até virar lei federal.”

De volta à série, há relatos de mulheres em Minas que, quando pequenas, eram conduzidas por freiras de colégios internos a “excursões” para conhecer os “hospícios” de Barbacena. A ideia era mostrar aos alunos o sofrimento. Estigma, normalização da internação ou mea-culpa católica?

“O P&B vem daí. Quando comecei a desenvolver e a pensar na história, só me vinham à cabeça imagens em preto e branco. Não conseguia enxergar esta história em cores, mas monotemática como a vida destas pessoas, sem grande emoção, brilho ou luz”, justifica André Ristum.

Pano de fundo da série “Colônia”, pessoas de diversas partes do Brasil eram colocadas em vagões de carga nos trens para serem internadas no manicômio. Na trama, vemos uma moça jovem que se recusa a casar com o homem que seu pai, um poderoso fazendeiro, arranja, sendo colocada à força num trem lotado e sujo. Era assim que as vítimas de vários estados do país chegavam a Barbacena. Qualquer semelhança com o genocídio envolvendo os judeus na Segunda Guerra não é mera coincidência.

“Tinha receio de ser criticada por comparar com o que houve com os judeus, mas o modus operandi era muito parecido, da mesma forma como os judeus eram enviados aos campos de concentração, onde a dignidade e os nomes eram confiscados. Eles usavam uniformes e tinham a cabeça raspada. O número de judeus mortos nem se compara obviamente, mas o que houve em Barbacena foi também um genocídio. Estas pessoas eram mandadas para lá para morrer. Antes, trabalhavam sem remuneração, eram cobaias”, compara Daniela Arbex, impactada também pela constatação do uso dos hospitais psiquiátricos pela ditadura militar.

Conhecida no século passado como “Cidade dos Loucos”, Barbacena abrigou um conjunto de instituições psiquiátricas que promoveram o que se condicionou, pela apuração de Daniela Arbex, chamar de holocausto. Um testemunho do massacre que se promovia no Colônia.


Daniela Arbex: de jornalista a escritora de notícias

Daniela Arbex, que entrevistou dezenas de sobreviventes e usou os arquivos disponíveis na época para escrever “Holocausto brasileiro”, diz que achou bonito ver o cineasta André Ristum somar a sensibilidade dele para criar novos personagens na série “Colônia”, todos dentro do arquétipo encontrado em seu livro, mas ganhando outras formas.

Daniela Arbex: 100% dedicada à literatura (Foto: Divulgação)

“Me emocionou muito também a interpretação dos atores, um timaço de nomes que abraçaram o projeto e perceberam que não era apenas um papel, mas que seriam instrumento de uma causa. A prestação de um serviço”, elogia.

No período em que se debruçou sobre o tema e o hospital, ela ficou mais impressionada com o fato de que todos os dias alguém a procurava dizendo que tinha um parente internado lá, em busca de informações. Ali ela constatou como esta história atravessou a vida de milhões de brasileiros.

“Até hoje tem pessoas sendo descobertas, o que mostra a dimensão desta tragédia.”

Daniela conta que tem muita coisa acontecendo além do “Holocausto brasileiro”, outros livros seus vêm sendo adaptados para a TV. “Estou 100% dedicada à literatura.”

Enquanto jornalistas, a gente quer ser lido, e a literatura apresentou, de fato, o trabalho da juiz-forana para o país.

“Com orgulho, sem vaidade, muito feliz de ver que meus livros atravessaram a fronteira do jornalismo para atingir outras categorias, como médicos, advogados.  Eu quero escrever para todo mundo, e tenho contrato até 2024 para dois livros. Um vamos publicar agora em 2022 e outro mais para frente. Mas ainda é surpresa.”