Publicidade
Colunas

Gerações perdidas

Messi não merecia que seu primeiro título com a camisa argentina fosse em uma competição infame ( Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

É consenso que a vida é curta. Expectativa essa aflorada pela Peste, que, à espreita, pode levar qualquer um, parente ou amigo, do nada. Mas, em situações excepcionais, tem-se a sensação que é longa, a vida, quando se convive com alguém (os pais, exemplo maior) por relativamente pouco tempo e as lembranças deixam tudo com aspecto de eterno. E mesmo nas vidas curtas há chances de se reerguer mais à frente, consertar erros do passado cometidos há décadas. 

No esporte, mais especificamente no futebol, não há espaço para dúvidas metafísicas. Uma geração tem, a rigor, muito pouco tempo para se consagrar – caso contrário passa ao largo da História, sem ter atingido as glórias que procura e persegue. Algumas gerações não conseguem a glória maior por circunstâncias (a Argentina de Di Stéfano, Labruna e Loustau estava no auge na década de 40, século passado, quando as Copas foram interrompidas pela Guerra); outras por força do destino (os italianos do Torino, pentacampeões nacionais, eram favoritos para ganhar a Copa de 50, mas morreram, todos, um ano antes, no choque do avião com a Basílica de Superga). 

Algumas gerações de esportistas perdem, mas perpetuam derrotas tão espetaculares que suplantam na mitologia os vencedores – casos da Hungria em 1954 e da Holanda, vinte anos depois. 

E quem tem mais de 50 anos de idade sabe exatamente o que aconteceu em 5 de julho de 1982, no Estádio Sarriá de Barcelona. Uma geração inteira de gênios do futebol brasileiro perdeu a partida para a Itália, uma seleção que vinha esfacelada, tropeçando na competição, mas que tinha Paolo Rossi (um “bandido”, excluído do futebol por quase dois anos por participar de uma máfia de manipulação de resultados).

Não foi justo, e uma segunda chance estava sendo preparada para quatro anos mais tarde, na Copa de 1986. Telê Santana cismou que levaria para o México praticamente o mesmo time de 1982, com exceção do goleiro Valdir Peres, do zagueiro Luisinho e do centroavante Serginho. Mas, quase tudo deu errado: Éder foi cortado por indisciplina; Leandro se solidarizou com Renato Gaúcho e desistiu da Copa; Cerezo foi excluído por contusão; Oscar e Falcão perderam a posição de titulares (para Júlio César e Elzo, respectivamente); Júnior teve que ser deslocado da lateral-esquerda para o meio de campo e Zico foi sem condições físicas ideais.  

Zico representou todas as dores daquela seleção, principalmente porque perdeu o pênalti contra a França em 1986. Mas, seu calvário na seleção havia começado oito anos antes, na Argentina, Copa de 1978. Na partida inaugural, contra a Suécia, ele marcou um gol no último minuto, porém, o árbitro anulou. Seria o gol que mudaria a competição, a sorte brasileira e a de Zico. Mas, empate consumado, e outro empate no jogo seguinte (contra a Espanha) foram demais e ele perdeu a vaga no time titular.

Na França, a geração de Platini, Trésor e Giresse teve três chances. Em 1978 deu muito azar e em 1982 e 1986 parou nas semifinais, nas duas vezes contra a Alemanha – primeiro depois de estar em vantagem, por dois gols, até aos 11 minutos da prorrogação; e a segunda por conta de uma falha incrível do goleiro Bats (o mesmo que pegou o pênalti de Zico). Depois disso os franceses nem apareceram nas copas de 90 e 94 e ressurgiram para ganhar a Taça em 1998 com a geração de Zidane (descendente de argelinos) e recentemente com um time praticamente formado só com descendentes das colônias africanas ou filhos de refugiados.

Lionel Messi ganhou, no sábado, a Copa América, mas na verdade perdeu: ele não merecia que seu primeiro título com a camisa argentina fosse em uma competição infame, que ninguém viu e só disputada para servir às loucuras do genocida-golpista-prevaricador.

A Inglaterra perdeu, no domingo, a Eurocopa, mantendo a sina de não ganhar nada desde 1966. Nesse período, as decepções mais trágicas não foram da turma de Beckham, Gerard e Owen e sim a da geração das décadas de 70/80, cujo símbolo maior era Kevin Keegan. Eleito melhor jogador europeu em 1978 e 1979, ele não conseguiu levar a Inglaterra à Copa de 78, mas estava pronto para brilhar em 1982. Porém, se apresentou para a competição com estranhas e persistentes dores nas costas, ficou fora dos quatro primeiros jogos (três vitórias e um empate) e entrou, no desespero, na quinta partida, aos 19 minutos do segundo tempo. A Inglaterra precisava vencer a Espanha e o jogo estava 0 a 0 quando uma bola foi alçada na área. Keegan tinha fama de bom cabeceador e subiu mais que os zagueiros. Só que a bola bateu em seu ombro e tomou o rumo errado. “Senti-me um miserável”, disse ele após o jogo, referindo-se ao lance que certamente o assombra desde então. 


No sábado, pelo Campeonato Mineiro da Segunda Divisão, o Tupi jogou como time pequeno, como se o empate fosse o máximo que conseguiria em Muriaé, e perdeu do Nacional (1 a 2).

Também no sábado, pelo mesmo torneio, o Tupynambás venceu o Ipatinga, fora de casa, por 1 a 0.