Publicidade
Coronavírus

Mulher só consegue se vacinar após trocar máscara com crítica a Bolsonaro

Vanessa Rosa foi informada de que com essa máscara não poderia ser vacinada (Foto: Arquivo pessoal)

“É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. Essa talvez tenha sido uma das primeiras lições ouvidas pela bacharel em Direito Vanessa Rosa no curso pelo qual se formou este ano, pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Antes disso, no entanto, ela já trazia uma grande bagagem de estudos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), que aprendeu durante o curso de Farmácia, sua primeira formação, há 10 anos.

Mas na última quarta-feira, 21, ela se viu privada de se manifestar contra o atual Governo e a favor do SUS. Ao receber a primeira dose da imunização contra a Covid-19, no Círculo Militar, no Centro de Juiz de Fora, Vanessa foi impedida de ser vacinada usando a máscara que havia confeccionado no dia anterior especialmente para a ocasião. “Cheguei ao Círculo Militar por volta das 15h, com uma máscara branca por cima, pois estava com medo de represálias até o momento da vacinação.” Quando chegou sua vez na fila, pediu para a pessoa de trás fotografar e avisou à agente de saúde que estava com uma máscara por baixo e iria tirar a de cima. Para sua surpresa, a profissional de saúde negou vaciná-la ao ver o que estava escrito.

“Ela falou: não posso te vacinar assim. Tentei argumentar que estamos em uma democracia, que é meu direito de cidadã. Mas ela, visivelmente constrangida, explicou que mais cedo havia ocorrido um fato no Círculo Militar e sua coordenadora havia proibido a vacinação com manifestações políticas. E perguntou se eu queria conversar com a coordenadora.” Naquele momento, Vanessa diz que se sentiu intimidada e incomodada com o grande volume de pessoas na fila e recolocou a N95 branca por cima e assim foi vacinada. “Era uma fila grande e eu não queria causar tumulto naquele momento. Mas quando voltei para o carro, fiquei muito revoltada com aquilo que havia acontecido e fiz a foto com a minha máscara e com o cartão de vacinação e postei.”

Assim que publicou, um amigo entrou em contato com a vereadora Laiz Perrut, que a acionou e disse que faria contato com uma pessoa da Secretaria de Saúde. “Uma pessoa me ligou imediatamente e adiantou que aquela não era uma ordem da Prefeitura. E que faria uma reunião extraordinária para orientar as pessoas em relação ao que havia acontecido. Ele explicou que mais cedo uma sócia do Círculo Militar viu uma manifestação e reclamou com a equipe de vacinação. Disse que como a coordenadora estava em horário de almoço, houve uma falha na comunicação e me orientou a registrar o episódio na Ouvidoria de Saúde do município.”

Em contato com O Pharol, Laiz Perrut informou que conversou com Vanessa e com a equipe da Secretaria de Saúde que trabalha no Círculo Militar. Segundo ela, várias pessoas que tomaram vacina no local no dia seguinte ao episódio levaram cartazes para se manifestarem não sendo registrado nenhum contratempo.

Como profissional de saúde, Vanessa diz que entende ser necessário acatar decisões superiores nessas situações. “A agente de saúde não tomou aquela decisão sozinha e vi que estava constrangida em me repreender. Ela só obedeceu o que ordenaram. Mas me senti humilhada, fui repreendida na frente de dezenas de pessoas. Não pude exercer meu papel de cidadã e me manifestar de forma silenciosa. Eu não estava ali gritando ou causando aglomeração. Mas muitos na fila se sentiram incomodados e chateados de ver uma atitude tão repressora e ditatorial bem em Juiz de Fora. Sei que não é uma orientação que viria da Prefeitura. Mas queria expor o que sinto e mostrar minha indignação diante do que temos visto em nosso país. E também queria exaltar o SUS, valorizando o que temos no Brasil.”

Desde o início da vacinação no município, há seis meses, é possível observar um desfile de máscaras e camisas com as mais diversas manifestações. Blusas estampadas com jacarés, mensagens de exaltação ao SUS e contra o atual Governo estiveram presentes em postos de saúde, UPAs e quadras de esportes no município. O contrário também foi visto, embora em menor escala. Gritos durante a aplicação das doses, máscaras com dizeres e até fantasias da cabeça aos pés passavam mensagens e simbolizavam esperança em um momento em que muitos não tiveram a oportunidade de sobreviver.

Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora informou que sempre buscou, em sua campanha de imunização “ser o mais aberta e diversa possível, buscando atender às peculiaridades de cada público e, através das UBSs, levar as vacinas para perto das pessoas. Cerca de 70% da população elegível do município recebeu ao menos uma dose, sendo que a imensa maioria das pessoas o fez sem ter problemas algum”.

No entanto, negou que o impedimento tenha partido da equipe de imunização da Secretaria de Saúde. “Lamentamos o ocorrido com a cidadã e informamos que a reclamação pelo uso da máscara com a mensagem política não partiu de trabalhadores da vacinação, mas sim de uma sócia do Círculo Militar. Reforçamos que a SS orienta todos os envolvidos na imunização sobre o direito democrático da livre manifestação e trabalhamos para que ele seja sempre garantido. A própria secretária de Saúde, Ana Pimentel, se manifestou com camisa e cartazes a favor do SUS na ocasião de sua vacinação, por faixa etária.”

“No Círculo Militar, bem como em todos os outros mais de 50 postos de vacinação utilizados ao longo deste ano, os profissionais foram orientados a respeitar todas as manifestações em um momento tão importante para as pessoas”, informa a Secretaria de Saúde.

(Matéria atualizada no dia 22/07/2021 às 10h03)