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Contexto

O que a pandemia tem a ver com o sucesso do governador Romeu Zema nas pesquisas

Em recente visita a Juiz de Fora, o governador Romeu Zema participou de caminhada de conscientização pelo uso de máscaras (Foto: Gil Leonardi/Agência Minas)

A pouco mais de um ano para o início da campanha eleitoral de 2022, o governador Romeu Zema (Novo) lidera todas as simulações de disputa pela reeleição. No mais recente levantamento, realizado pelo DataTempo/Cp2 e divulgado pelo jornal O TEMPO na terça-feira (27), sua vantagem para o segundo colocado, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), é de 27,4%.

Sem nunca ter tido uma base mínima na Assembleia e só recentemente ter conseguido normalizar o pagamento dos salários do funcionalismo público estadual, a forma como o estado tratou a pandemia de Covid-19, bem como as implicações sociais e administrativas dela decorrentes, explicam, em boa medida, o sucesso do governador nas pesquisas.

“A boa avaliação do governador [Romeu] Zema, que foi detectada por mais de uma pesquisa, tem uma direta relação com a situação criada pela pandemia”, explica o cientista político da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Raul Magalhães. Para ele, o primeiro acerto do governador desencadeado pela crise de saúde mundial foi a reconfiguração da postura de Minas com o Governo federal.

O alinhamento inicial com a gestão do presidente Jair Bolsonaro, que marcou o início da gestão do Novo em Minas, é posto de lado. “Zema abandona isso e assume uma postura, vamos dizer assim, correta na gestão da pandemia, na distribuição de vacinas. Dessa forma, ele acabou tendo um protagonismo no estado, na política pública que interessava ao momento”, continua o cientista político.

De fato, a forma como o estado tem feito o enfrentamento da pandemia se tornou um ativo para Zema. Quem concorda com a avaliação é o também cientista político da UFJF e colunista de O Pharol, Fernando Perlatto, que vislumbra um cenário mais favorável no caso do arrefecimento da Covid-19. “Caso seja [a pandemia] controlada efetivamente, a agenda de 2022 muda, e o governador consegue trazer um discurso mais forte de enfrentamento.”

Perlatto, entretanto, não fala em rompimento de Zema como o Governo federal, mas em uma bem-sucedida estratégia de equilíbrio. “O governador conseguiu manter uma posição dúbia em relação ao Bolsonaro e ao bolsonarismo. Em algumas declarações, demonstra certo apoio, em outras, já assume postura um pouco diferenciada, como na condução da pandemia, inclusive fazendo algumas críticas ao presidente.”

Do ponto de vista político, avalia o cientista político, o governador se equilibra “para manter o apoio dos setores mais refratários à esquerda ou mesmo a figuras como Kalil e, de outra parte, tenta dialogar com setores críticos ao Bolsonaro”. Ele considera que, no final das contas, “o equilíbrio envolvendo Bolsonaro e o bolsonarismo parece ter sido uma boa solução para Zema”.

Reconhecer gravidade da pandemia ajudou mandatários

Não só no Brasil, mas em escala mundial, os mandatários com disposição para reconhecer a gravidade da pandemia acabaram tendo seus governos bem-avaliados. A análise é do sociólogo da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Diogo Tourino. Inclusive os gestores com problemas de governabilidade acabaram se reabilitando após adotarem respostas minimamente razoáveis no enfrentamento da pandemia.

“Gestor que estava muito mal avaliado e que, com a chegada da pandemia, não se omitiu, mas adotou uma política minimamente razoável que destoa, por exemplo, do comportamento negacionista, passivo e omisso do presidente da República, acabou tendo reconhecimento.” Para ele, o comportamento da turma do “eu vou fazer o quê?” ou “não tem nada para fazer” afetou negativamente a popularidade.

Por outro lado, governadores e prefeitos com posturas minimamente razoáveis acabaram recompensados. “Acho que esse é um dado que indica que a resposta à pandemia criou uma chance para que políticos dos executivos com posturas minimamente razoáveis conseguissem recuperar suas popularidades apenas não se omitindo e enfrentando o problema.”

Covid-19 forçou pausa no jogo político

A pandemia e seu enfrentamento podem ter elevado a popularidade de alguns políticos e derrubado a de outros. A maioria, no entanto, acabou afetada pela pausa forçada no jogo político desde março de 2020. Nesse período, questões que no transcurso natural implicariam algum desgaste para os governantes ou demandariam enfrentamentos mais duros acabaram sendo pausadas pela pandemia.

“Também por causa da pandemia, os possíveis adversários do governador [Romeu Zema] ficaram muito sem ação. O único que talvez tenha tido alguma ação foi exatamente o prefeito de Belo Horizonte [Alexandre Kalil], que aparece à frente nas pesquisas na região metropolitana de Belo Horizonte”, observa Raul Magalhães, da UFJF. O jogo político em que os agentes podem parecer e aparecer de alguma forma relevantes ficou prejudicado.

Por isso, o cientista político chama a atenção para as circunstâncias de momento das pesquisas. “Quero sublinhar que a gente ainda não tem razões para acreditar que o cenário detectado agora não vai ser alterado quando tivermos chegado ao período de campanha.”

Diogo Tourino, da UFV, concorda que a disputa está longe de ser definida tão prematuramente. “O Kalil, por exemplo, aparece pouco ainda e isso talvez se deva ao fato de que ele até então centrou sua trajetória política em Belo Horizonte. Lá ele é muito bem avaliado. O processo de rodar o estado, de tentar fazer com que seu nome seja conhecido em mais lugares, ainda não foi iniciado de forma veemente. Da mesma forma, há nomes que podem crescer.”

Ainda é cedo para falar em eleitorado ‘zemista’

Habituado às análises de pesquisas, o jornalista Rômulo Veiga, especialista em comunicação eleitoral, considera o bom desempenho do governador Romeu Zema nas pesquisas como fruto do comportamento eleitoral pró-governo “muito comum em Minas” e no nível de desconhecimento dos seus opositores. “Não é necessariamente um capital político real do governador. Estar com o voto é diferente de ter o voto.”

Para ele, diferentemente do cenário nacional, em que “é nítido que Lula tem 30% de eleitores em qualquer disputa” e, da mesma forma, Bolsonaro conquistou seus 20% nos últimos anos, em Minas ainda não há essa delimitação. “Roubar eleitores deles (Lula e Bolsonaro) é muito difícil. São conexões emotivas fortes de pessoas que se sentem representadas por esses candidatos, e, portanto, dispensam, em certa medida, motivações racionais.”

O caso de Zema, segundo Rômulo, é diferente. “Ele tem perfil discreto e defende uma pauta muito distante da compreensão política do eleitor de base. Hoje, os votos estão com Zema por ser o atual governante, o que lhe confere um recall político. Faz uma administração discreta, que, se não mostra grandes êxitos, se mantém distante de grandes polêmicas.”

Os dados das pesquisas, nesse contexto, indicam que a inércia favorece o atual Governo. Para o jornalista, se nada romper “a paisagem natural da eleição” no estado, o governador deve se reeleger. Por outro lado, como ponderou Diogo Tourino, o prefeito de Belo Horizonte começa a ensaiar um processo de interiorização do seu nome por Minas. Isso pode se tornar um complicador para a reeleição de Zema.

Assim como Fernando Perlatto, Rômulo não vê uma dissociação completa de Zema com o bolsonarismo, o que pode favorecer a aproximação entre Kalil e Lula. “Nessa conta, é preciso entender o cenário nacional também. Bolsonaro tem um piso alto de 20% de votos, mas também um teto muito baixo, com rejeição acima de 60%. Lula tem piso mais alto e rejeição um pouco menor, perto dos 50%.”

Para ele, Kalil é um personagem imprevisível e, em oposição ao governador, opinativo e com personalidade muito mais magnética. “Se conseguir o apoio do [ex-presidente] Lula, sendo carismático como é, pode entrar forte nos eleitores de baixa renda. A pesquisa ainda aponta que 27% dos votos estão em aberto, indo para indecisos e brancos, e outros candidatos menos expressivos.”

Eleições de 2018 foram atípicas e não devem se repetir

Quando se trata de análises de disputas eleitorais, Diogo Tourino, da UFV, alega ser necessário fazer uma ressalva. “É sempre bom lembrar que 2018 foi uma espécie de eleição atípica no cenário das eleições brasileiras.” Para ele, não foi o presidente Jair Bolsonaro um candidato atípico, mas o processo eleitoral em si.

“O discurso do antissistema, do outsider, contra a política prevaleceu. Bolsonaro não é um fenômeno isolado. Vem com ele uma série de outsiders. [Romeu] Zema é um deles, Wilson Witzel [ex-governador do Rio] era outro. O sucesso ou insucesso deles à frente dos seus mandatos variou muito, mas é bom lembrar personagens que foram forjados no momento atípico da história eleitoral brasileira”, explica o sociólogo.

Ele adverte, no entanto, que o mesmo momento atípico necessariamente não vai se repetir em 2022. “As eleições municipais já deram provas disso. Essas eleições, em síntese, foram marcadas por um retorno da classe política sob vários aspectos. Os candidatos que estavam envergonhados já conseguiram botar a cara para fora. Nada indica que vai se configurar a mesma atipicidade de 2018, que favoreceu personagens com o discurso do eu não sou político, caso do Zema.”