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Borba Gato e nosso passado/presente de absurdos gloriosos

Obra do escultor Júlio Guerra (1912-2001), que nasceu no bairro, a homenagem ao bandeirante Borba Gato foi inaugurada em 1963, nas comemorações do IV Centenário de Santo Amaro (Foto: Alesp)

Não tenho a menor ideia, obviamente, se, em toda a sua trajetória de vida, o bandeirante paulista Manoel de Borba Gato possa ter imaginado um dia ver erguida estátuas em sua homenagem como grande desbravador, figurando no panteão daqueles homens de grosso trato, responsáveis pela expansão territorial desta colônia lusitana à época das descobertas de ouro e diamantes nos sertões de Minas Gerais.

As fontes históricas apontam que Borba Gato se refugiara nas extensões mineiras do Vale do Rio Doce, foragido das autoridades após cometer o assassinato do fidalgo português D. Rodrigo de Castelo Branco, administrador-geral das Minas em 1682. A descoberta de ouro no Rio das Velhas foi a moeda de troca utilizada para a obtenção de seu perdão em 1698, conquistando em seguida postos de comando político e militar, além de prestígio e riqueza na Vila de Sabará, onde permaneceria até a sua morte em 1718.

Estátuas e bustos erguidos em homenagem a determinados sujeitos históricos devem ser sempre matéria de apreciação, dada a sua dimensão pública. Quando a imagem do bandeirante foi fincada ali, no ano de 1963, na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, em Santo Amaro, na grande São Paulo, qual foi o propósito, a justificativa? Qual o sentido de enaltecer um homem, sentenciado pelo assassinato de um funcionário da Coroa e depois perdoado em troca de informações sobrea descoberta de ouro nas Minas Gerais? Um personagem ligado à escravidão e ao extermínio de povos indígenas explica o porquê de um monumento em seu nome ter sido incendiado em um protesto na atual conjuntura do país?

Toda sociedade, todo Estado-nação são compostos de representações simbólicas e lugares de memórias erigidas historicamente. O poder simbólico, como adverte Pierre Bourdieu, se manifesta a partir do reconhecimento e da cumplicidade daqueles aos quais interessam o potencial de poder evocado por determinada representação e os propósitos aos quais possa servir, como o de forjar uma identidade coletiva. Para além de elementos de força física e econômica, atua como forma, como sistema de um campo imaterial. Cumpre, portanto, uma função social, age como instrumento de integração, de legitimação de uma ordem estabelecida, de caráter universal e consensual no interior de uma determinada comunidade.

A estátua de Borba Gato carrega um conteúdo simbólico, construído historicamente, com um propósito; senão, qual o sentido de estar ali?

A estátua de Borba Gato carrega um conteúdo simbólico, construído historicamente, com um propósito; senão, qual o sentido de estar ali? Emoldura a exaltação de um ideal civilizatório, de dominação, de imposição de uma cultura sobre a outra, construída sobre o espírito desbravador do bandeirante herói, cujo “passado de absurdos gloriosos” deve ser lembrado e fixado no imaginário coletivo, nas estátuas e bustos em praça pública, nas pinturas expostas em museus, em vias de acesso como pontes, viadutos, ruas e avenidas.

Nomes de bandeirantes, políticos e militares cortam as cidades brasileiras em rodovias estaduais e federais. Muitos deles, embora com mais rigor crítico que antes, são exaltados nos livros didáticos de maneira naturalizada nas escolas, sem a escala adequada de problematização dos papéis desempenhados por tais sujeitos históricos em seu tempo. Vale lembrar também, sem entrar no mérito da questão, o papel das produções literárias, jornalísticas, audiovisuais, do teatro, do cinema e da televisão nessa seara.

O caso do incêndio da estátua de Borba Gato suscita ainda outras duas discussões pelo menos, possível de observar: uma, relativa ao lugar de memória, e a outra sobre patrimônio histórico. Quanto à questão em torno do lugar de memória, cuja reflexão não se deve desvincular da própria dimensão histórica do problema, lembrando o historiador Pierre Nora, trata-se de uma condição que se remete a “um momento sempre atual, um elo vivido no eterno presente”. Ou seja, se a história é “reconstrução problemática e incompleta do que não existe mais”, a memória passa por significados e ressignificações ao longo da história. É necessário esse exercício para entendermos o lugar de memória de personagens como Borba Gato, Domingos Jorge Velho, Zumbi, Tiradentes, Princesa Isabel, entre outros.

No campo do patrimônio, cabe destacar a necessidade de um posicionamento crítico sobre os postulados históricos e de representação por detrás dos emblemas patrimoniais, tal como os fatores que levaram a sua elevação a tal categoria. Talvez não seja muito interessante para a revisão de nosso “passado de absurdos gloriosos” condenar a ferro e fogo, literalmente, os monumentos erguidos e expostos em espaços públicos, sem o devido exame. Todavia, estátuas são erguidas e derrubadas em todo mundo de tempos em tempos. Sua ascensão e queda indicam um estado de mudança, de revisão, de contestação a determinada ordem vigente. De vozes que se despertam e não mais querem ser silenciadas.

Investidas contra o patrimônio expressam o estado de espírito de uma sociedade. É possível perceber nesse episódio e em outros recentes um campo ideológico latente, cujas opiniões divergem, e as ações conflitam de acordo com a visão de mundo. As pessoas que aplaudem políticos quebrando uma placa de rua com o nome de Marielle Franco, podem ser as mesmas que agora recriminam com veemência a investida incendiária de manifestantes contra o bandeirante. Aquelas que lamentaram a depredação de uma estátua de Che Guevara na cidade de Paraíba do Sul, e depois sua retirada do local por parte da prefeitura do município fluminense, somam considerável parcela daquelas quase regozijaram frente às imagens de Borba Gato em chamas.

Tempos de polarização política e social têm reflexo direto na esfera pública, e isso merece atenção de todos nós, inclusive na maneira como devemos tratar nossos patrimônios culturais, históricos de cunho material e imaterial. As manifestações públicas nas redes sociais escancaram ainda mais a polêmica. Para uns, Borba Gato merece, sim, o status de um herói, responsável pela grandeza de nosso território, pois representa o marco civilizatório inscrito nas bandeiras e entradas nos tempos coloniais. Para outros, um assassino violento, responsável pela tortura, morte e escravização de indígenas e negros, portanto, merece ser tratado e lembrado como tal. Eis aí uma amostra do tom paradoxal de “nosso passado de absurdos gloriosos”!

* A expressão usada no título e no corpo desta coluna faz parte de um trecho da música Perfeição, da banda Legião Urbana. A composição ironiza o caráter de nossas atitudes, a estupidez humana, nosso pouco caso com as mazelas sociais. Ressalta a hipocrisia de uma sociedade em celebrar suas tragédias e absurdos gloriosos.