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Miss Brasil Gay realiza edição especial on-line : “é preciso manter os sonhos vivos”

Miss Brasil Gay
Sem concurso de beleza, versão on-line terá rodas de conversa, exibição de filmes, vídeos, participação especial de uma madrinha supercelebridade (segredo guardado a sete chaves pela organização) (Foto: Divulgação)

“É preciso evitar um hiato grande entre as edições, manter os sonhos vivos”, diz o diretor artístico do Miss Brasil Gay, André Pavam. Cancelado em 2020 devido à pandemia de Covid-19, o evento será realizado neste ano de 18 a 22 de agosto como um especial junto à Rainbow Fest, sem o concurso de misses, mas com programação on-line variada (ver quadro abaixo). O evento também terá homenagens a Marco Trajano, um dos fundadores do Movimento Gay de Minas (MGM), morto neste ano em decorrência da Covid-19. Todas as atrações serão exibidas pelo canal oficial do Miss Brasil Gay no Youtube.

“É completamente inviável fazer o concurso em si, mas é muito importante que as candidatas que queiram concorrer vejam que estamos mantendo, on-line, a história do concurso e sua mobilização, ainda mais neste ano, em que chegamos a 40 edições do evento. Entre 2013 e 2017, quando houve um longo hiato, a cultura de eventos pela internet não era tão difundida, hoje podemos manter a chama do Miss Gay acesa por meio da tecnologia”, avalia Pavam, destacando que o especial foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc e que o público pode esperar o mesmo glamour que vem sendo marca da disputa de misses ao longo dos anos.

André Pavam
“Foi uma promessa que fiz (ao Chiquinho) de não descaracterizar o evento, de acompanhar as transformações do tempo sem deixar que ele perdesse a essência.” (Foto: Divulgação)

 “Quando o Chiquinho (Mota, idealizador do Miss Gay e intérprete da lendária Mademoiselle Debret Le Blanc) me passou o cajado (risos), foi uma promessa que fiz a ele, de não descaracterizar o evento, de acompanhar as transformações do tempo sem deixar que ele perdesse a essência.”

Para Michel Brucce, coordenador do Miss Brasil Gay e diretor do Movimento Gay de Minas (MGM), a realização do especial on-line contempla tanto o público quanto artistas, que sofreram diretamente o impacto das restrições da pandemia. “Como fomos contemplados com a Lei Aldir Blanc, todo mundo será remunerado, então possibilitamos um alento para um setor que sofreu muito com a Covid-19. Além disso, estamos num processo de militância, de inclusão de todas as letras da sigla LGBTQIA+ na programação”.

Em coro com Brucce, Sheila Veríssimo, miss coroada em 2013 e que manteve o reinado até a retomada do evento em 2017, destaca a grandiosidade do Miss Brasil Gay e ressalta seu DNA político. “Acho muito importante reafirmar a luta contra preconceito e discriminação, promovendo nossa arte e nossa cultura, principalmente nesse momento político que estamos enfrentando hoje. Isso é a essência do concurso, que nasceu na ditadura militar, em 1977, como um ato extremamente político. Nossa existência por si só é um ato político”, pontua a artista, apresentadora do evento pela segunda vez ao lado da drag queen Ikaro Kadoshi.

“Acho muito importante reafirmar a luta contra preconceito e discriminação, promovendo nossa arte e nossa cultura, principalmente nesse momento político que estamos enfrentando hoje. Isso é a essência do concurso, que nasceu na ditadura militar, em 1977, como um ato extremamente político. Nossa existência por si só é um ato político.” 

A versão on-line do Especial Miss Gay Rainbow Fest terá rodas de conversa, exibição de filmes, vídeos, participação especial de uma madrinha supercelebridade (segredo guardado a sete chaves pela organização) e performances.

Oswaldo Braga, Michel Brucce e Marcos Trajano
O evento também terá homenagens a Marco Trajano (de boné), um dos fundadores do Movimento Gay de Minas (MGM), morto neste ano em decorrência da Covid-19, ao lado de Oswaldo Braga e Michel Brucce. (Foto: Divulgação)

Apelo aos públicos mais jovens, turismo de eventos e perspectivas para presencial

As apresentações das misses eleitas em edições passadas estão entre os destaques da programação e foram gravadas em alto estilo, na Blue Space, consagrada casa de shows LGBTQIA+ em São Paulo (SP). Os shows integram a atração “Cabeças Coroadas”.

“É uma forma de honrar o legado do concurso e os shows são o must do evento. Está tudo de altíssimo padrão, tanto a estrutura quanto as misses, que estão lindas, talentosíssimas, ícones do universo LGBTQIA+”, adianta André Pavam, responsável pela direção artística. “Foi muito divertido rememorar grandes músicas trazendo mensagens. Quem assistir à minha performance vai entender, através da letra da música, o que eu quis dizer para esse momento tão difícil”, revela Sheila Veríssimo.

Segundo Michel Brucce, o evento on-line também será um impulso para consolidar o evento do ano que vem, que já tem show da drag queen e rapper Gloria Groove confirmado. Além disso, será mais um passo na dobradinha de Rainbow Fest, do MGM, e  Miss Brasil Gay.

“Fomos percebendo uma necessidade de renovação do público do Miss Brasil Gay, para que as gerações mais jovens pudessem se encantar com ele, até porque foi o que aconteceu comigo. Fui pela primeira vez em 2017 e fiquei fascinado. Em 2018, trouxe as festas que eu já produzia para o evento e foi um sucesso, que culminou com a edição de 2019, com show da Pabllo (Vittar).  A aproximação com a Rainbow tem um potencial grande de trazer resultados mais satisfatórios, trazer o turista para a cidade, movimentar o setor hoteleiro, de alimentação e vários outros. Temos um produto de grande valia para as causas sociais, para o turismo, o entretenimento e vários segmentos, e as perspectivas para a retomada do presencial, quando acontecer, são de resultados cada vez melhores”.

 Sheila Veríssimo.
Eu diria para as candidatas que temos que persistir, insistir e nunca desistir dos nossos sonhos. Foi o que aconteceu comigo”, diz Sheila Veríssimo.

Outro ponto destacado por Michel é a acessibilidade, premissa que vem sendo priorizada desde a retomada com iniciativas como ingressos a preço popular. “Procuramos trazer isso para o on-line, em que todas as palestras terão intéprete de libras. A ideia é que o evento seja para todo mundo mesmo e que as adaptações que estamos fazendo se reflitam também nesta versão. Somos uma comunidade que foi por muito tempo excluída, então nosso foco na inclusão é total.”

A previsão é de que em 2022, o concurso que eleja a nova Miss Brasil Gay possa ser realizado presencialmente e que Antonia Gutierrez, coroada em 2019, passe o cetro cravejado de brilhantes. Algumas etapas estaduais já têm as vencedoras dos concursos regionais que disputarão a coroa.

“Eu diria para as candidatas que temos que persistir, insistir e nunca desistir dos nossos sonhos. Foi o que aconteceu comigo”, diz Sheila Veríssimo.

Confira abaixo a programação completa:

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