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As mulheres caboclas da caatinga pela lente do moço cineasta juiz-forano

Dona Linda conta sua história em "Resto de mundo" (Foto: Divulgação)

Dona Maninha, uma senhora de cabelos grisalhos trançados e pele morena castigada pelo tempo, surge na tela expressando exaustão, dizendo que não sabe onde o mundo vai parar: “Tá apanhando sem sentir”. Ao longo da narrativa, ela discorre sobre sua vida e, num determinado momento, sobe o tom, chegando num lugar ao qual somente pessoas dotadas de sabedoria popular têm a chave de acesso: “Tanto sangue derramado na terra”.

Nos primeiros minutos do episódio de estreia da série documental “Resto de mundo”, um spoiler sobre o enredo desenvolvido pelo cineasta e psicólogo juiz-forano Diego Zanotti: tramas de poder, amor e traição. O cenário é o Sertão Nordestino moderno. Rodada na Chapada Diamantina, na Bahia (dez cidades), a produção estreou no catálogo do Globoplay, com a história de sete mulheres empreendedoras de artes e ofícios, contada em sete episódios de 30 minutos cada.

“Foi por pura intuição. Ali eu percebi o berço das mestras da sabedoria tradicional, sobretudo curandeiras, parteiras, mulheres das rezas. Decidi ir sem saber, sem roteiro e pesquisa. Para encontrar à medida que eu andava”, conta Zanotti, que passou os três primeiros meses de 2020 filmando. Tudo surgiu desses encontros, a ideia do que ele denomina “cinema do invisível.”

Do encontro com simpáticas senhoras do interior da caatinga baiana, o cineasta captou narrativas impactantes e muito fortes, todas maravilhosas, algumas aparentemente já previam a pandemia em escala global, antes mesmo de ela começar. “As profetisas da Caatinga”, na definição do autor.

“Naquele momento, as intensidades sociais, políticas e ambientais pareciam aumentar a sensação de colapso global.”

Dona Maninha é a primeira delas, diretamente do Quilombo Remanso, onde nasceu e foi criada, às voltas com os mitos tradicionais e ritos de cultos ao sagrado.

“Cê sabe o que é espírito? O espírito não é morto. A gente não vê, mas sente”, ela diz, antes de explicar o que é o Jarê: candomblé dos caboclos da Caatinga. Simboliza não apenas uma soma orgânica de diferentes culturas existente apenas nas Lavras Diamantinas, mas uma trincheira de resistência.

Dona Maninha é uma das moradoras da região onde se vive sob o método chamado “sistema de morada”, muito comum no Nordeste, que substituiu o “sistema escravagista”. Nesse tipo de sistema, o “proprietário” concede um espaço de moradia para a família, com direito de pequenas roças e, como contrapartida, os novos moradores dão sua força de trabalho não remunerada ao dono da terra.

Cuidado, escuta e observação

Diego Zanotti partiu em busca dos donos legítimos da terra e dá de cara com a sabedoria de personagens da vida real. “O que são os encantados? Caboclo, espírito que ninguém vê. Sente”, lhe explica Dona Maninha.  E é sobre isso e muito mais. Territórios, respeito e afetos.

“Um mergulho poético e profundo nas lições da ancestralidade popular brasileira sobre o destino do mundo, registrado a partir de um novo modelo de fazer cinema que busca filmar o que normalmente não se vê”, acrescenta o cineasta.

A abertura poeirenta, seca e árida, porém de céu azul anil. A equipe contou com a ajuda de pessoas do território. Drama, tragédia e virada: tudo o que exige uma temporada completa. Um personagem à parte, a trilha vai de Elza Soares e Dona Lia de Itamaracá.  Para abrir um vinho e maratonar.

A série também está em exibição no Canal Futura às sextas-feiras, às 23h, com reprise aos sábados, às 16h. Para saber mais do projeto: Cinema Invisível e Globoplay.

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