Contexto

É só um desenho, Maurício. E sabe onde isso vai parar? Num mundo mais diverso e melhor

(Intervenção sobre foto: Camila Matheus)

 “Hoje em dia o certo é errado e o errado é certo… Não se depender de mim. Se tem que escolher um lado eu fico do lado que eu acho certo! Fico com minhas crenças, valores e ideias”. Esse foi parte do texto de uma postagem feita pelo jogador de vôlei Mauricio Souza, que teve grande repercussão nesta semana. A que ele se refere? A um personagem de história em quadrinhos (o filho de Clark Kent), que se assume bissexual. O Super-Homem do século XXI é bi, e isso parece ser um problema para o ex-jogador da seleção brasileira de vôlei (digo ex, porque não acredito mais em sua escalação após o quarto lugar do time comandado por Renan Dal Zotto nas Olimpíadas de Tóquio e uma necessidade real de renovação das caras – e das ideias – que compõem a equipe brasileira).

Mauricio Souza, para quem não se lembra, é fiel apoiador do presidente Jair Bolsonaro. Ele e Wallace de Souza, durante a campanha para as eleições de 2018, chegaram a posar para uma foto fazendo o número 17 com as mãos. Desde então, ambos ganharam a antipatia de uma parcela da torcida brasileira. Wallace ainda se mantém um tanto discreto em seus posicionamentos preconceituosos e políticos, mas Mauricio parece não se importar em expor-se nas redes sociais. O jogador compartilhou uma série de críticas em relação ao movimento LGBTQIA+, como o uso do chamado pronome neutro, de banheiros conforme a identidade de gênero, além de criticar a orientação sexual do novo Super-Homem.

E quem entrou na briga foi o jovem Douglas Souza, companheiro de Maurício na seleção brasileira. Ambos trocaram farpas nas redes sociais (sem citarem-se diretamente). Douglas comemorou a imagem que mostra o jovem Homem de Aço beijando outro rapaz, enquanto Maurício se mostrou indignado com a seguinte frase: “Ah, é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar”, ganhando o apoio de outros jogadores, como Wallace de Souza, que comentou o post com a palavra “misericórdia”.

As farpas continuaram a ser trocadas, e Douglas, sem citar o nome de Mauricio, alfinetou: “Engraçado que eu não ‘virei heterossexual’ vendo os super-heróis homens beijando mulheres. Se uma imagem como essa te preocupa, sinto muito, mas eu tenho uma novidade para sua heterossexualidade frágil (risos). Vai ter beijo, sim. Obrigado, DC, por pensar em representar todos nós e não só uma parte.” Ao que Mauricio respondeu: “Para cima de mim, não. Aqui é frágil igual esticador de canto de cerca!”.

É um tanto quanto impressionante que os ídolos do esporte assumam posicionamentos preconceituosos relacionados a questões de gênero e sexualidade disfarçados de liberdade de expressão em pleno ano de 2021. Não diria assustador pois está bem difícil se assustar com qualquer coisa no Brasil de Jair Bolsonaro. Apesar de achar que não devemos normalizar atitudes que incentivem a homofobia, a transfobia, o racismo, o fascismo, me parece que nos acostumamos a ouvir de ídolos do esporte discursos retrógrados e equivocados. Recentemente, por exemplo, a oposta da seleção de vôlei feminino, Tandara Caixeta, declarou que não concorda (até hoje!) com a decisão da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) de aceitar Tiffany Abreu na Superliga Feminina, principal campeonato nacional da modalidade.

Tiffany é, desde 2015, atacada constantemente por atletas e dirigentes de times brasileiros. Atleta trans, primeira a disputar oficialmente os jogos da Superliga, no início de 2017, recebeu a permissão da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) para competir em ligas femininas. Foi quando defendeu o Golem Palmi, time da segunda divisão do campeonato italiano. Após a experiência no exterior, a atleta recebeu uma proposta e aceitou defender o Vôlei Bauru, time do interior do estado de São Paulo. A liberação para atuar na Superliga veio dois dias antes de sua estreia oficial, no dia 10 de dezembro de 2017, após todos os exames realizados pela comissão médica da CBV.

O debate sobre a transexualidade no esporte começou em 2015, quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) autorizou transexuais no esporte, estabelecendo algumas condições para isso. Vale lembrar que, em 2003, a organização já havia se manifestado em relação à importância da autonomia da identidade de gênero na sociedade. Devido a uma atualização nas regras para a inscrição de atletas, prévia aos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, o COI deixou de exigir a cirurgia de redesignação sexual e passou a cobrar um ano de tratamento hormonal, em vez de dois anos. Para competir atualmente, a atleta que passar pela mudança de sexo, deve manter o nível de testosterona abaixo de 10nmol/L.

Tandara Caixeta, acusada de dopping nas Olimpíadas de Tóquio e banida dos jogos por conta deste fato, atualmente se encontra afastada de sua equipe, o Osasco Voleibol Clube, aguardando decisão judicial para voltar às quadras. Enquanto isso, vem sendo substituída por ninguém mais, ninguém menos que Tiffany, que foi um dos destaques no Campeonato Paulista de Vôlei e contribuiu de forma bastante consistente para o Osasco se tornar campeão de um dos torneios regionais mais tradicionais do país. O que chama atenção, nesse caso, é a necessidade de Tandara posicionar-se contra uma decisão que reverbera internacionalmente e que tem enorme relevância para a inclusão de pessoas trans no universo esportivo, tão carregado de preconceitos e de personagens como Mauricio Souza ou Bernardo Rezende, o Bernardinho, que, durante uma partida entre as equipes Sesi Vôlei Bauru e Sesc RJ, em 2019, se irritou com a atuação de Tiffany em quadra e a chamou de “homem”. Posteriormente, o técnico veio a público se desculpar, porém tal atitude só demonstra o incômodo que a presença de uma atleta trans causa no mundo do vôlei.

Quando o COI ou a CBV ou qualquer outra instituição se posiciona a favor das políticas de inclusão de atletas trans em quaisquer modalidades, a importância disso se dá justamente pela inserção desses e dessas profissionais no mercado de trabalho, tema atual e necessário nas discussões em torno de transgenereidade. Tandara Caixeta diz respeitar a história de vida de Tiffany e suas lutas individuais enquanto jogadora, mas discorda de sua inclusão nos campeonatos femininos de vôlei. O que Tandara parece não entender é que Tiffany foi inserida no mercado de trabalho, é que a presença de uma atleta trans em um dos campeonatos de voleibol mais importantes do mundo é uma forma de manifestação a favor da diversidade, é uma maneira de lutar contra a transfobia e atitudes preconceituosas como as do central Maurício Souza. E não cabe à Tandara aprovar ou desaprovar a decisão de órgãos nacionais e internacionais. Porque essa decisão não lhe diz respeito, apesar da jogadora insistir em dizer que há muitas jovens (mulheres cis) batalhando espaço nos times profissionais para atletas trans chegarem e tomarem seus lugares, como se isso fosse uma rotina.

Haveria a possibilidade de criar um campeonato brasileiro de vôlei somente disputado por atletas trans? Sim, mas não na magnitude de uma Superliga. Possivelmente, tal disputa sequer receberia verba suficiente e a atenção dos patrocinadores. E, mais uma vez, pessoas trans estariam à margem da sociedade e, neste caso, possivelmente abandonariam o esporte pela falta de perspectiva profissional. É nisso que Tandara precisa pensar. A presença de Tiffany na Superliga é de uma importância sem precedentes pois coloca uma mulher trans no centro da roda, no centro da discussão que tem uma amplitude que vai muito além das quadras e placares. É sobre sociedade, sobre direitos e democratização dos espaços.

Quando Douglas Souza se torna um dos principais personagens da seleção brasileira de voleibol, durante as Olimpíadas de Tóquio, estamos falando de democratização da instituição esporte. Douglas ganhou enorme popularidade com vídeos e postagens feitas em suas redes sociais ao longo de sua estadia na capital japonesa. Hoje, o ponteiro-passador, que já tem uma medalha de ouro olímpica no peito, tem mais de três milhões de seguidores no Instagram, mais de 258 mil no Twitter e cerca de 38 mil inscritos em sua página no Facebook. E é um porta-voz na luta contra o preconceito dentro e fora de quadra. Com apenas 26 anos e uma carreira consistente, com títulos em campeonatos nacionais e mundiais com a seleção, Douglas só contribui para a necessidade de debater a democracia no esporte. Ferrenho crítico ao governo de Jair Bolsonaro, é voz dissonante, assim como a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg, no posicionamento contra a atual gestão (ou ingestão, talvez indigestão) presidencial, que só nos “presenteia” com discursos de ódio e preconceito e que ganha apoio de personagens como Mauricio Souza e Wallace.

Quando um(a) atleta levanta sua voz contra o preconceito, ele está usando sua posição de ídolo (ou do que o antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin chamaria de olimpiano, esses verdadeiros deuses que o Olimpo da mídia elege como ídolos) para influenciar outras pessoas. E conseguem influenciar! Quando a jogadora brasileira Carol Gattaz, eleita melhor central nas Olimpíadas 2021, posta em seu Instagram um posicionamento clarificado contra a “liberdade de expressão” de Mauricio Souza ser homofóbico, e outras jogadoras como Gabi Guimarães e Fabi Alvim, todas assumidamente lésbicas, apoiam Gattaz, estão dizendo à sociedade: “Está na lei, garantido pela constituição. Já toleramos desrespeito, gracinhas e preconceitos disfarçados de opinião por muito tempo. CHEGA!”.

Quando a jogadora Ana Carolina Silva, também central da seleção brasileira de vôlei, assume publicamente seu relacionamento com a atleta holandesa Anne Buijs, ela está dizendo: sou lésbica, me assumo perante a sociedade, sou uma grande jogadora e engulam seus preconceitos, porque estou ocupando meu espaço, todos os espaços que me são de direito. Espaços que foram negados em muitas das vezes, visto que, até pouco tempo atrás, muitos profissionais do esporte se mantinham “dentro do armário” para não comprometerem suas relações, por exemplo, com patrocinadores e com a própria seleção brasileira. É notório o caso da ex-jogadora Jacqueline Silva, que, nos anos 80, foi expulsa da seleção por se posicionar contra o esquema de pagamento das jogadoras por parte dos patrocinadores (Jackie Silva entrou em quadra com seu uniforme vestido do avesso como forma de protesto contra as marcas que apoiavam a seleção e não davam direito às mulheres de receberem sua porcentagem por vestirem a camisa verde e amarela). Jackie Silva, lésbica assumida, migrou para o vôlei de praia e, posteriormente foi a primeira mulher brasileira, junto com Sandra Pires, a receber uma medalha de ouro olímpica, nos jogos de Atlanta, em 1996. Fez história dentro e fora de quadra. Cravou seu nome na memória do esporte nacional.

Assim como os patrocinadores do Minas Tênis Clube, time de Maurício, cravaram sua decisão de afastar o jogador da equipe, que tentou defender o direito de Souza de se manifestar em suas redes sociais. Os dois principais financiadores do Minas, a Fiat e a Gerdau, soltaram duras notas cobrando urgentemente a adoração de “medidas cabíveis” contra o atleta. A torcida do Minas também se manifestou dizendo que não apoiará Maurício nas partidas disputadas. Resultado: na tarde dessa terça-feira (26), a diretoria do Minas se reuniu e informou que Maurício será afastado por tempo indeterminado e multado. Enquanto isso, os companheiros de equipe do jogador defendem-no e devem se manifestar em grupo sobre o assunto. No meio da tarde de hoje, quarta-feira (27), Maurício teve seu contrato rescindido.

É claro que qualquer indivíduo tem o direito, enquanto cidadão, de posicionar-se ou não politicamente. Política fazemos o tempo todo, nas relações interpessoais, no esporte, nas artes, na escola, na universidade, na rua, em casa, em ambiente familiar. Tudo é política. Relacionar-se é um ato político (e revolucionário!). Pensar a política, portanto, enquanto instituição que atravessa todos os setores da nossa vida cotidiana é fundamental. Fazemos política o tempo todo e a luta pelos direitos LGBTQIA+ é mais uma forma de levantar discussões relacionadas à política. Políticas de gênero. Políticas de sexualidade. Termos que permeiam os debates da modernidade. Assim como fomentar o debate sobre o racismo nos campos de futebol, o machismo nas narrações esportivas. Tudo isso é política e mudança. Afinal, estamos em 2021, pouco mais de 20 anos depois do início da grande promessa chamada século XXI, tempo da modernidade, do boom tecnológico e da internet, território de exercício da liberdade do ser. Por isso, não cabe mais que figuras públicas destilem seu veneno carregado de preconceito, de homofobia, de transfobia, de LGBTQIAfobia.

O exercício da liberdade está dentro de quadra, fora das quadras, na postura dos atletas enquanto ídolos e cidadãos. Se o objetivo principal de uma Olimpíada é a união entre os povos, e jogadores e jogadoras sentem tanto orgulho de vestirem as camisas de suas seleções para participarem dos Jogos, devem se lembrar que a união entre os povos passa pela democracia, pela liberdade, pelos direitos de ser e estar no mundo. E quando um personagem de história em quadrinho, conhecido por ser o Homem de Aço, o Super-Homem, se assume bissexual, ou gay, esta é uma manifestação em prol da liberdade, da diversidade. Ninguém se torna gay porque assistiu a um personagem homossexual na TV, ou porque leu um gibi. Mas, sim, alguém normaliza a homossexualidade por assistir, por ler, por vivenciar personagens gays e, consequentemente, passa a não corroborar com atitudes preconceituosas. E, sim, alguém pode abandonar seus preconceitos quando ouve de um ídolo palavras que incentivem a ocupação dos espaços por todos e todas: gays, lésbicas, trans, bissexuais, negros, mulheres, pobres, etc etc etc. Afinal, as quadras precisam viver a democracia em sua totalidade, os gibis precisam desenhar a democracia em sua totalidade. Todo e qualquer cidadão, toda e qualquer cidadã merece viver a democracia (inclusive as de gênero e sexualidade) em sua totalidade.

Matéria atualizada às 17h36 do dia 27 de outubro

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