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Quando a estação ferroviária se torna palco para os “Seres da Ribalta”

(Fotos: Brenda Torres)

O que é um cabaré? A palavra vem do francês cabaret e denomina uma modalidade de teatro que conta com música, dança, recitação e drama. Também pode incluir apresentações de humoristas, ilusionistas, mímicos e outras formas de manifestações artísticas. No imaginário popular, com todas as referências cinematográficas apresentadas aos espectadores ao longo dos anos, filmes como o de 1972 dirigido por Bob Fosse e estrelado por Liza Minelli e o próprio “Moulin Rouge – Amor em Vermelho”, de Baz Luhrmann, lançado em 2001, lembram ao público que o cabaré é o espaço onde todas as manifestações artísticas são bem vindas.

Os cenários, em geral, são: um bar, um cassino, um restaurante, uma boate. No entanto, em Juiz de Fora, um cabaré foi transportado para o Museu Ferroviário e para o prédio onde, hoje, habita a Sociedade Antônio Parreiras, duas construções que integram o complexo da antiga Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Central do Brasil em Juiz de Fora. A construção de 1902 recebeu músicos, atores, palhaços e bailarina para as filmagens do segundo episódio de “Cabaret dos Seres da Ribalta”, projeto roteirizado e dirigido por Rodrigo Mangal e que está em exibição no YouTube desde o dia 23 de outubro.

Em primeiro lugar, o espectador poderá das boas risadas com a Palhaça Magrella (Deborah Lisboa), o Palhaço Afrânio (Revelino Mattos) e o Palhaço Senhor M (Marcos Marinho), em um curta metragem que remete aos primórdios do humor em cinema mudo. Em seguida, há apresentação da canção “O Luar”, de José Amaro, músico nascido em Juiz de Fora e que, em 2021, completou 100 anos de vida. A cantora Sil Andrade é quem empresta a voz e o violão para esta gravação, feita também em uma das salas do Museu, de onde, através de uma das janelas da construção, segundo Rodrigo Mangal, é possível ver a passagem do trem.

Todas as cenas são conectadas através do trem, tão presente no cenário escolhido e na trilha sonora do “Cabaret dos Seres da Ribalta”. A terceira cena exibida se trata de um clássico trecho de um monólogo de Charles Chaplin interpretado pelo ator Marcus Amaral no relógio da Estação Ferroviária. Segue-se cena do ator e diretor Alexandre Gutierrez com teatro de bonecas baseada em “Dom Quixote”.

Em seguida, a dança contemporânea da bailarina Christine Sílmor se materializa na tela a partir de suas memórias de infância das mulheres de sua família evocadas pelo prédio sede do Museu Ferroviário. E, por fim, o espectador pode apreciar a canção “Fragmentos”, de Driano Barboza, criada em forma de pedido de namoro à cantora Sil Andrade. Neste novo cabaré, a música é interpretada pela própria Sil e pelo ator Marcus Amaral.

De acordo com Rodrigo Mangal, todas as cenas são conectadas pelo trabalho do artista plástico Ramón Brandão. “A conexão entre as diferentes linguagens é feita pelas ilustrações do artista, trazendo as artes plásticas como novidade para este segundo episódio, o que deu mais coesão para o projeto”, comenta. Mangal ainda destaca o tema deste cabaré como “a memória afetiva dos trens” e, por isso, todo o projeto foi filmado na Estação Ferroviária juiz-forana.

Movimento Artístico Evolucionário

O “Cabaret dos Seres da Ribalta” apresenta sua segunda edição nas redes sociais do MARE (Movimento Artístico Evolucionário) -, que surgiu da união de artistas de várias áreas, residentes em Juiz de Fora, durante a pandemia. A apropriação da linguagem cinematográfica, inclusive, é uma forma de chegar até o público em tempos de pandemia, durante os quais os espaços culturais mantiveram-se fechados por um longo período. Assim, o uso das plataformas digitais, favorecido pela internet, possibilitou ao coletivo de artistas continuar oferecendo arte ao público e se mantendo ativo na produção. “No contexto da pandemia, a tecnologia propiciou união e busca de soluções. Sozinho, num contexto tão adverso, seria impossível as pessoas sozinhas lutarem. Conseguíamos, através da tecnologia, fazer reuniões, debater e ter a oportunidade de conhecer pessoas”, ressalta Mangal.

Rodrigo ainda conta que a primeira edição do “Cabaret dos Seres da Ribalta” foi produzida sem nenhum recurso oriundo de editais. Ele e um grupo de artistas e amigos se reuniram para formatarem a primeira edição do projeto, que foi gravada no Cine-Theatro Central. Já o segundo episódio recebeu recursos do Edital Janelas Abertas, promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em 2020, e também contou com o apoio financeiro de parceiros do roteirista e diretor e com recursos de uma campanha de financiamento coletivo online, organizada e divulgada pelo próprio coletivo de artistas que participam do “Cabaret dos Seres da Ribalta”.  

 A esperança agora, segundo Mangal, é que o cabaré possa contar com mais três edições, devidamente inscritas no edital Murilão, do Programa Cultural Murilo Mendes, promovido pela Prefeitura de Juiz de Fora através da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa).

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