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Macunaímas

Paulo José em cena de 'Macunaíma' (1969), adaptação de Joaquim Pedro de Andrade da rapsódia de Mário de Andrade (Foto: Condor Filmes)

O Macunaíma de Mário de Andrade, como se sabe, “era preto retinto e filho do medo da noite”, mas por um feitiço ficou branco – e racista. Não tinha nenhum caráter, muita preguiça e mais tarde abraçou o patriotismo. Por conveniência. É impagável a cena (no filme, de Joaquim Pedro de Andrade – não me lembro da passagem no livro) de Macunaíma (vivido de forma assombrosa por Paulo José) se vestir com um terno verde e amarelo para pleitear verbas federais.

Os bolsonaristas, como se sabe, surgiram oficialmente em 2018, embora, muita gente suspeite, eles existam desde sempre – estavam apenas adormecidos, à espera de algum líder fascista que os guiasse. Também são, em grande maioria, “patriotas”. Não é por acaso que a camisa da seleção de futebol, de preferência a do Neymar, é o uniforme oficial. E que Luciano Hang, o protótipo do bolsonarismo, se vista de verde e amarelo e se transforme numa caricatura ambulante (parecido demais também com Zé Carioca, o personagem malandro de Walt Disney, cuja pátria tem como símbolo a Estátua da Liberdade, o ícone que adorna as lojas do empresário).  

Luciano Hang é Macunaíma. Tem caráter duvidoso, só pensa em vantagens financeiras, adora dinheiro público, sonega impostos, adula poderosos, propaga fake news, tem ligações com o “gabinete do ódio”, mente com a maior tranquilidade, patrocina uma equipe de futebol que protagonizou recentemente cenas racistas e não se importa que a própria mãe se submeta a experimentos não científicos.

Na obra de Mário de Andrade não há espaço físico delimitado. Macunaíma e seus irmãos Maanape e Jiguê vão das margens do Rio Uraricoera no Amazonas ao Tietê de São Paulo, e ao fugir de Ceiuci, o herói faz a cavalo o trajeto Manaus-Argentina. 

Os bolsonaristas também não têm limites. Vão das características macunaímicas ao universo orwelliano, passando por Goebbels, embora a grande maioria não tenha a mínima ideia de quem seja George Orwell – do ministro da propaganda nazista conhecem bem, estudam e gostam.

Porém, a confusão mental é tão grande que tudo parece instintivo e vindo do subconsciente, em vários estágios. Quando Eduardo Bolsonaro batiza a filha de Geórgia (até a menina nascer o estado norte-americano onde os republicanos sempre venciam as eleições) está sendo apenas ridículo, mas quando os integrantes da tropa de choque bolsonarista na CPI da Covid (notadamente os patéticos Luiz Carlos Heinze e Marcos Rogério) distorcem a verdade estão “apenas” praticando a novilingua do livro mais famoso de Orwell, das “verdades paralelas” ou dos “fatos alternativos”. Quando Flávio Bolsonaro diz que a população brasileira está sendo vacinada graças aos esforços do Governo Federal está sendo apenas cínico, mas quando o presidente genocida diz que é preciso armar a população para ter liberdade está repetindo os lemas do partido citado em “1984”, classificados como duplipensar: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”.

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