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Que horas ele volta?

Chico Buarque acaba de lançar o livro “Anos de chumbo e outros contos” pela Companhia das Letras (Foto: Bob Wolfenson)

O frenesi ao ver Chico Buarque cantando uma música inédita de Aldir Blanc antes do feriado de 12 de outubro ainda não tinha passado quando vieram as primeiras resenhas e críticas de seu novo livro, “Anos de chumbo e outros contos”, lançado pela Companhia das Letras há alguns dias. Mal (este repórter) tinha chegado ao fim das 168 páginas desta que é a primeira incursão de Chico no terreno dos contos, um susto: o artista de 77 anos passou por uma cirurgia na coluna na última terça-feira (12) e, claro, não quis dar entrevista para ninguém. O Brasil só voltou a respirar tranquilo na noite de quinta (14), quando sua assessoria anunciou: “Ele está ótimo e retorna para casa no fim de semana”. 

Depois de tentar entender o que é estenose do canal vertebral – um estreitamento das vértebras por onde passa a medula – à qual sofre o cantor e compositor, sobram motivos para devorar seu novo livro, no qual ele se vale do papel de narrador, caçoa da fama e cultua Clarice Lispector, com quem manteve uma relação quase familiar. 

Atenção: Xico Buark (como inventou Millôr Fernandes) em excesso pode causar sérios transtornos de desopilação. E a gente quer e precisa disso. Faz tempo que os brasileiros esperavam por uma live, um disco, show, filme… qualquer coisa com a digital Dele. 

“Anos de chumbo e outros contos” reúne oito histórias, sendo a mais emblemática delas, na opinião deste jornalista, “Para Clarice Lispector, com candura”, protagonizada por um jovem poeta que “sabia de cor cada vírgula dos romances e contos” da escritora e, tímido, começa a se encontrar com ela. 

“Se você tem uma ideia para um romance, você sempre pode reduzi-lo a um conto?”, questionou certa vez Chico, em entrevista concedida a Clarice, para a “Manchete”. “Tenho uma inveja: o meu trabalho de música está exposto a um consumo rápido e eu praticamente não tenho o direito de ficar pensando numa ideia por muito tempo”, acrescentou na mesma conversa.

Tal relação de afeto entre eles foi algo que Chico viveu de verdade. Ele, muito jovem, foi algumas vezes à casa da escritora.

Segue um trecho de “Para Clarice Lispector, com candura”: “Levantou-se, andou de lá para cá na penumbra, chamou baixinho seu nome, espiou a cozinha, o corredor, foi até o hall de entrada, e quando abriu a porta para ir embora, uma ventania escancarou a janela da sala e levantou as cortinas. Como que surgida por trás das cortinas, Clarice Lispector o chamou para ver como era bela a sua fatia de mar por entre as paredes de edifícios. No breu da noite, ele não só viu a espuma branca das ondas, como respirou a maresia combinada com o cheiro de banho dos cabelos dela.” 

De volta à entrevista a Clarice Lispector, mais um pouco de Chico sendo ele mesmo:

Clarice Lispector – Qual é a coisa mais importante do mundo?

Chico Buarque – Trabalho e amor.

Clarice Lispector – Qual é a coisa mais importante para você, como indivíduo?

Chico Buarque – A liberdade para trabalhar e amar.

Clarice Lispector – O que é amor?

Chico Buarque – Não sei definir, e você?

Em tempo: Chico Buarque foi submetido a um procedimento chamado artrodese – fixação de uma placa para manter o espaço vertebral necessário à passagem da medula. A cirurgia foi feita pelo ortopedista Luiz Cláudio Schettino. Logo logo, quem sabe, teremos mais notícias do guri.

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