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De biometrias e fogões a lenha

Esqueceu de dar corda no despertador e, quando percebeu estar atrasado, foi direto para a cozinha acender a lenha para passar o café no coador de pano. No rádio de pilha, a notícia entre chiados era de trânsito engarrafado. Teve que discar para a central de táxis e a telefonista o alertou sobre o tempo de espera. Demorou para achar seu cartão de ponto, mas enfim conseguiu entrar na repartição. 

Datilografou na velha Remington praticamente sem ter que usar o pincel do corretivo líquido, enviou alguns documentos via fax, e outros copiou no mimeógrafo – adorava aquele cheiro de álcool que impregnava o ambiente. Depois fez vários telefonemas, com auxílio do robusto catálogo, para conversar com clientes das páginas amarelas. A pilha de papel, no entanto, não diminuía na sua mesa. 

Pegou o gravador de mão e uma fita cassete para deixar alguns lembretes que não estavam na secretária eletrônica. Ainda enviou os filmes de fotografia para revelar e colou alguns recados no arquivo de aço. Com a mesma caneta, aproveitou para atualizar seu caderninho de contatos.

Seria um dia normal da velha rotina não muito distante, não tivesse experimentado por vias tortas um futuro perfeitamente possível para sua profissão. Como um viajante do tempo, teve contato com tecnologias e legislações nunca antes imaginadas, que acabavam com a necessidade de papel, fax, mimeógrafo, telefone fixo ou mesmo coador de pano. 

Ele pôde ver que não precisava mais revelar fotos e, pasmem, sequer lhe era exigida sua presença física na repartição, palavra agora velha para definir seu antigo local de labuta. Por algum tempo viveu num mundo em que não havia mais tantos engarrafamentos e, não obstante à tragédia da pandemia, pôde constatar, por outro lado, novos horizontes que se apresentavam a partir das mudanças em muitos setores de serviços.

Nosso amigo havia experimentado algo cujo nome importado do inglês – home office – significava poder trabalhar de sua própria casa, desde que tivesse acesso a tecnologias então acessíveis, como computadores, smartphones e aplicativos. Viu sua qualidade de vida melhorar, assim como a de seus colegas, e a produtividade de todos aumentar, esteve mais próximo da família, de seus cachorros, e ganhou horas e horas antes desperdiçadas no estressante ir e vir do dia a dia.

Vislumbrou inúmeras possibilidades de melhorias para a sociedade em geral e para o meio ambiente, como uso racional de energia, de água e de equipamentos, trânsito melhor, transporte público sem sobrecarga (quando a coisa era feita nos conformes) e atendimentos remotos que resolviam de fato as demandas. Era a descoberta de um novo mundo. Uma parte considerável dos sobreviventes teve, ao mesmo tempo, o encontro com o futuro. Escritórios físicos foram fechados e encontros e reuniões passaram a ser virtuais. Surgia um período renascentista para inúmeras atividades. 

No entanto, para nosso colaborador, de real mesmo ficaram apenas o pesadelo e as sequelas da tragédia pandêmica. O resto era sonho, ou melhor, utopia. Agora acordado pelo toque do celular, prepara a cápsula de café expresso, chama o uber pelo aplicativo, troca mensagens pelo whatsapp, comprova sua presença eletronicamente e cumpre as horas em sua ilha de trabalho, fazendo inloco tudo o que poderia ser feito de sua casa ou de qualquer lugar do planeta. Sente-se, porém, de volta à velha máquina de escrever, ao fax e à fita cassete.

O fantástico domínio das super tecnologias cada vez mais expandido não conseguiu vencer, nesta Terra de Vera Cruz, o terraplanismo de muitos setores de produção que seriam viáveis ao trabalho remoto. Tal negacionismo que convoca de volta ao seu posto nosso dedicado funcionário não passa do reflexo fidedigno do pensamento tacanho de gestores públicos, de uma elite de coronéis do atraso da iniciativa privada, e de legisladores que não conseguem enxergar a realidade pela qual serão um dia engolidos. 

Enquanto isso, no ônibus lotado a caminho de sua unidade, na tela de seu smartphone, notícias estampam empresas de todo o mundo, principalmente nas áreas de tecnologia e comunicação, adotando o trabalho remoto, com foco em metas e resultados e não nas horas em que seus funcionários devam estar fisicamente presentes em um local fixo tendo que responder chamadas por biometrias como alunos de quinta série. Na esteira da nova revolução, escritórios de profissionais liberais, como advogados, engenheiros ou consultores de todas as áreas também passam por esta guinada nos negócios, mostra outro hiperlink. 

Mas nosso viajante do tempo desembarca para sua rotina empoeirada. A tal qualidade de vida não faz mais parte do seu cotidiano. Ele sequer ousa pensar na experiência, pois é apontado como um privilegiado num país de miseráveis, com o dever de olhar sempre para baixo e se comparar apenas com quem está em situação pior. Romper a fronteira, desbravar possibilidades e ajudar na construção de soluções melhores para si e para outros grupos de trabalhadores está fora de cogitação. A outra manchete informa o novo preço do botijão de gás e ele já pensa em reativar o fogão a lenha. 

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