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Holofote

Museus só reabrem com investimentos, e com o Mariano Procópio não será diferente

(Foto: Leonardo Costa)

Aberto à visitação em 1915, ainda como museu particular, o Mariano Procópio só foi oficialmente inaugurado em 23 de junho de 1921. A data foi especialmente escolhida por seu fundador, Alfredo Ferreira Lage, para celebrar o centenário de nascimento de seu pai, o comendador Mariano Procópio Ferreira Lage.

Dois anos e meio depois, em 1º de dezembro de 1923, o jornal O Pharol anunciava a primeira reabertura do Museu Mariano Procópio após algumas reformas. O mesmo jornal noticiaria nova retomada das atividades do espaço em 17 de julho de 1925 após paralisação para outras alterações estruturais.

Após essa reabertura de 1925, na coluna “Ferroadas”, em O Pharol, há um claro apelo à necessidade de investimento ou reposição do investimento feito. “Está reaberto de novo o Museu Mariano Procópio. A Câmara Municipal deve agora fazer donativo ao mesmo das providências que tomou.”

Embora Alfredo Ferreira Lage viesse a formalizar a doação do Museu Mariano Procópio ao município em 1936, a transferência da “rica instituição” à Câmara Municipal já era anunciada em 1922. No período entre 1905 e 1930, o presidente da Câmara fazia as vezes de prefeito.

Quando em 1925 veio a “ferroada” cobrando donativos para o Museu Mariano Procópio, era presidente da Casa o vereador José Procópio Teixeira. De lá para cá, mudaram-se o sistema político e os governantes. Permaneceram a cobrança por donativos e, claro, as “ferroadas”.

Tarcísio Delgado primeiro, Custódio Mattos depois e Margarida Salomão agora tentaram dividir as “ferroadas” com o Conselho de Amigos do Museu Mariano Procópio, criado pelo próprio Alfredo Ferreira Lage como guardião da instituição. É desse colegiado a formulação da lista tríplice enviada ao Executivo para escolha do novo gestor do Museu Mariano Procópio.

Cada um ao seu modo, conforme as circunstâncias de seu tempo, propôs mudanças na legislação municipal indicando que, se a escolha do gestor do Museu Mariano Procópio fosse genuinamente do Executivo, a sorte da instituição seria outra. Isso, reconhecendo, com a devida vênia, a importância do Conselho de Amigos.

Nas três ocasiões, os senhores das leis mantiveram os termos da doação firmados em 1936. Na mais recente, a juíza Roberta Araújo de Carvalho Maciel, da Vara da Fazenda Pública de Juiz de Fora, deu prazo de dez dias para a prefeita escolher o nome do próximo diretor do Museu Mariano Procópio a partir da lista tríplice.

A Prefeitura anunciou intenção de recurso, mas, por via das dúvidas, exonerou na sexta-feira (29) Giane Elisa Sales de Almeida, que respondia interinamente pelo Museu Mariano Procópio. A instituição permanece acéfala. Giane Elisa segue como diretora geral da Funalfa.

A proposta de mudança na legislação segue esquecida na Câmara Municipal. Se entrar em pauta, há pelo menos dois substitutivos prontos, deixando tudo mais ou menos como sempre foi. A mudança possível contempla apenas a escolha de nomes externos ao colegiado dos Amigos do Museu para a formulação da lista tríplice.

Essa busca por gestores com experiência em outros museus chegou a ser feita no final de 2020 e início de 2021 por integrantes do Conselho de Amigos do Museu. O incipiente processo, no entanto, não logrou êxito. Além das limitações do período de pandemia, pesaram a ausência de corpo técnico e a baixa expectativa de investimento.

O Museu Mariano Procópio não possui hoje em seus quadros museólogos e historiadores. Os donativos governamentais e da iniciativa privada seguem minguados. As transferências da União desde 2005, conforme Portal da Transparência, indicam aportes de apenas R$ 4,2 milhões à instituição no período.

Dos cinco projetos com o Museu Mariano Procópio como proponente em editais de leis de incentivo, dois conseguiram captação do setor privado. Contribuíram com a instituição – via renúncia fiscal – apenas os Correios, com R$ 64 mil, e a MRS Logística S.A., com R$ 1,03 milhão.

Dos cofres públicos do município, o pouco que entra é para manutenção, e olhe lá. Os governos sucessivamente têm priorizado outros espaços culturais e parques. Casos da Praça CEU – Centro de Artes e Esportes Unificados, do Teatro Paschoal Carlos Magno e mais recentemente do Sesc Pousada, transformado em parque municipal ao custo anual de R$ 2,5 milhões.

A escassez de donativos não é prerrogativa apenas do mais importante museu de Juiz de Fora. Levantamento realizado pela Agência Lupa em 2019, por ocasião dos dez anos da Lei Rouanet – principal meio de financiamento cultural do país -, mostrou que apenas 34% dos os projetos para a preservação de acervos de museus apresentados ao Ministério da Cultura desde 2009 conseguiram captar recursos.

É o cenário que ajuda entender, por exemplo, o incêndio na Cinemateca, que possui o maior acervo de audiovisual da América do Sul, formado por aproximadamente 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos relacionados ao cinema. Ou ainda, para continuar nos incêndios, o Museu Nacional e o da Língua Portuguesa, consumidos por chamas, respectivamente, em 2018 e em 2015.

O Museu Nacional recebeu R$ 244,8 milhões em doações do Bradesco, do BNDES e da Vale via renúncia fiscal. O Ministério da Educação aportou cerca de R$ 18 milhões para intervenções emergenciais. A reconstrução do Museu da Língua Portuguesa teve recursos investidos de R$ 85,8 milhões. Desse total, R$ 56,6 milhões foram captados via lei de incentivo à cultura.

Incêndios à parte, há aqueles espaços fechados por conta de riscos estruturais, caso do Museu Mariano Procópio, mas também do Museu de Arte de Brasília, que não recebia visitantes desde 2007. Na capital federal, com orçamento de R$ 9 milhões, as obras foram retomadas em 2020 e entregues em abril desde ano.

Perto de reabrir, o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, por contar a história da Independência do Brasil, está fechado desde 2013. Com investimento de R$ 210 milhões, sendo a R$ 170 milhões da iniciativa privada (via renúncia fiscal), tem previsão de reabertura para 2022.

Sem investimentos públicos ou privados (via renúncia fiscal) o Museu Mariano Procópio vai seguir como está desde 2008. A adoção do modelo do Instituto Brasileiro de Museus para seleção de gestores pode ser bem-vinda, até necessária, entretanto, caso não apareçam os donativos, as “ferroadas” seguirão.