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Mercedes Sosa cantada pelos tambores do Ingoma

Ingoma faz hoje (22) seu primeiro lançamento de uma música autoral (Foto: Divulgação)

O timbre forte de Mercedes Sosa ecoa em uma canção chamada “Todo Cambia”, do compositor Julio Numhauser, gravada no ano de 1984. Ela repete o verso “todo cambia” (tudo acaba) algumas vezes. A cantora, que se tornou símbolo da América do Sul em seus 50 anos de carreira, levantou a sua voz para dizer aos latinos da linha de baixo do Equador, que os modos de pensar mudam, que o clima muda, que o sol muda de rota. No entanto, que as lembranças e as dores de um povo não mudam jamais. Nem o amor. Nem a esperança.

Para homenagear essa artista nascida na Argentina, na cidade de São Miguel de Tucumã no ano de 1935, o grupo artístico-musical juiz-forano Ingoma faz, nessa segunda-feira (22), seu primeiro lançamento de uma música autoral. O título da canção é uma ode à Mercedes Sosa: “La Negra”, apelido dado por seus fãs devido à sua ascendência ameríndia, mestiça, constituída de europeus e indígenas diaguitas.

O Ingoma é conhecido por sua presença em cortejos nas ruas ou em palcos das praças e teatros de Juiz de Fora e de outras cidades e estados vizinhos. Agora, experimenta os estúdios de música. “La Negra” foi gravada pelos integrantes do grupo e musicistas Fernando Augusto, Ana Souza, Priscila Marques, Virgínia Queiroz, Táscia Souza e Gabi Lacet (nas caixas, tambores, patangomes e percussões), Geison Vargas (na bateria), Adalberto Silva (no baixo) e Lucas Soares (no violão, voz, percussões, arranjo e direção musical). Aliás, “La Negra” nasceu fruto de uma parceria entre Lucas, músico e coordenador do Ingoma, responsável pela melodia da canção, e Kadu Mauad, cantor e compositor da cidade de Juiz de Fora, que assina a letra.

Lucas conta que a composição foi feita em diálogo com Mauad. Kadu recebeu a melodia e construiu a letra em cima dos arranjos propostos. “O Kadu foi lendo as referências que a música passava. Tenho influência muito forte da música mineira, mas da música mineira interiorana, dos movimentos populares, que estão nos reinados, nas folias. Nesta música especificamente, coloco uns tempos latino-americanos, de elementos melódicos, de divisão rítmica, que lembra uma coisa mais andina. Essa coisa que chamo de andina o Kadu leu como latino-americana. E ele se lembrou de Mercedes”, recorda Lucas.

O que o coordenador do Ingoma e compositor de “La Negra” denomina “coisa mais andina” se liga à uma instrumentação ameríndia, que, segundo Lucas, Mercedes Sosa revelava em suas canções. “Ela busca sua ancestralidade, suas raízes. Frequentemente, se apresentava com um tambor a tiracolo”, explica, completando que a conexão entre o Ingoma e Sosa também se dá pela presença dos tambores em ambas as trajetórias.

O que ainda aproxima o Ingoma de Mercedes Sosa é a presença do grupo juiz-forano em várias manifestações políticas ocorridas nos últimos anos. Lucas conta que foram pouquíssimas as vezes em que o Ingoma não foi convocado a participar de protestos locais. Já Mercedes foi uma das maiores vozes contra as ditaduras militares vigentes na América do Sul entre os anos 60 e 80 em países como Brasil, Argentina e Chile.

Por isso, a cantora passou a ser conhecida como “a voz dos que não têm voz”, decidindo-se, inclusive, pelo autoexílio, em 1979, por conta das pressões e ameaças sofridas pela ditadura instituída pela junta militar do general argentino Jorge Videla no ano de 1976. “A Mercedes representava milhares de vozes e, tendo essa consciência, ela escolhia cantar mensagens que defendiam essas pessoas que a reconheciam como representante. Ela recebeu a alcunha de voz da América Latina, de voz do povo. E isso não acontece de graça”, exalta Lucas.

Outros projetos

O Ingoma conta com diversos projetos em sua gênese. No mês de novembro, além do lançamento da música “La Negra”, o grupo irá exibir minidocumentários produzidos sobre os grupos de Reinados Mineiros, que foram levados ao público pela primeira vez durante o Festival do Ingoma, ocorrido em junho de 2021. Além disso, o coletivo vai lançar um novo Cortejo Solidário, com foco em arrecadar doações para familiares em situações vulneráveis da cidade de Juiz de Fora e região. Por fim, as oficinas realizadas semanalmente pelo grupo retornarão de forma presencial.

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