Diversidade

Trabalhadores negros têm média salarial 35,5% menor em Juiz de Fora

Em Juiz de Fora, apenas 13,2% dos trabalhadores formais são negros, segundo dados da Rais 2019. Enquanto a média salarial da cidade é de R$ 2.630,20, negros e negras recebem salário médio de R$ 1.695,92 no município. (Arte: Montagem sobre imagens de Canva)

Em meio às reflexões pelo Dia da Consciência Negra, neste 20 de novembro, Juiz de Fora mostra que ainda há muito o que avançar quando o assunto é empregabilidade e renda. A desigualdade no mercado de trabalho local é uma realidade para os trabalhadores negros, que são minoria na ocupação de empregos formais e têm remuneração média 35,5% inferior ao valor praticado na cidade, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2019, os mais recentes disponibilizados pelo Ministério da Economia.

A situação torna-se mais preocupante considerando que essa disparidade tem sido agravada pelos impactos socioeconômicos da pandemia da Covid-19. De acordo com o boletim divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no último dia 19 de novembro, a crise sanitária aprofundou a desigualdade entre negros e não negros em todo o país. 

Os dados da Rais 2019 mostram que, naquele ano, 13,2% dos trabalhadores formais de Juiz de Fora eram negros. Em números, isto significa menos de 20 mil do total de 147.692 postos de trabalho existentes. Com relação à remuneração, o levantamento revela outra discrepância: o salário médio recebido por profissionais negros era R$ 1.695,92, valor 35,5% menor do que a média praticada na cidade, de R$ 2.630,20. A diferença da remuneração local entre negros e não negros é maior que a nacional, em que pessoas negras ganharam em média 27% menos, conforme os dados da Rais.

A dificuldade de acesso aos empregos com carteira assinada e a falta de políticas de valorização por parte das empresas são apontados como fatores para a desigualdade observada, como avalia o educador financeiro e um dos idealizadores da iniciativa “Pretos Juntos no Topo”, Valdilei Jacob. Ele explica que a baixa representatividade dos negros no mercado formal de trabalho juiz-forano esbarra em um problema estrutural.

“Existe uma desigualdade na educação escolar da população negra oriunda de diversos acontecimentos históricos. Infelizmente, ainda somos a maioria em atividades de subemprego, trabalho informal e que empreende por necessidade.”

Valdilei Jacob

Por outro lado, os profissionais negros que ocupam uma colocação formal enfrentam a escassez de oportunidades em cargos de liderança e que ofereçam maior remuneração. “Em pleno 2021, ainda esbarramos no fato de que, mesmo preparados e em igualdade de qualificação com os demais, muitas empresas remuneram pela cor da pele e não pela capacidade técnica.”

Jacob destaca a importância da criação de políticas de incentivo à diversidade  pela  iniciativa privada. “Ainda falta muita oportunidade para cargos de liderança, gestão e segmentação por aptidões. Algumas empresas usam da justificativa de que não há mão de obra negra qualificada, mas também não procuram pelos profissionais que estão preparados para ocupar estas vagas.”

“Ainda falta muita oportunidade para cargos de liderança, gestão e segmentação por aptidões. Algumas empresas usam da justificativa de que não há mão de obra negra qualificada, mas também não procuram pelos profissionais que estão preparados para ocupar estas vagas”, diz Jacob (Foto: Arquivo pessoal)

População negra é a mais atingida pela pandemia

Desde 2020, o mercado de trabalho de Juiz de Fora sente os reflexos da pandemia da Covid-19.  A cidade, que tem nos setores de comércio e serviços os principais empregadores, acompanhou o fechamento de empresas e a redução significativa dos postos de trabalho no período mais crítico da crise sanitária. 

De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a cidade encerrou o ano passado com a perda de 4.768 empregos formais. Entre janeiro e setembro de 2021, ocorreu a recuperação, com a criação de 5.046 vagas, mas ainda é cedo para falar em retomada do crescimento.

Os dados do Caged não mostram os impactos dessa estagnação do mercado sobre os profissionais negros, mas Jacob analisa como tem sido essa interferência. “Os setores mais afetados foram exatamente aqueles que possuem uma boa parte da população negra trabalhando, como bares, restaurantes, lojas e o setor de eventos.” 

O especialista destaca, ainda, que mesmo quem não trabalhava com carteira assinada enfrentou dificuldades por conta das restrições impostas pela pandemia. “Isto piorou ainda mais a condição da população negra, que teve que se desdobrar para sobreviver nesses últimos dois anos e está se reerguendo, aos poucos, com a retomada das atividades.” 

No Brasil

Segundo o Dieese, a população negra do Brasil foi a mais afetada pela crise sanitária.  “No momento do isolamento, uma parcela muito maior de mulheres e homens negros perdeu o trabalho e voltou para casa, sem perspectiva de nova ocupação”, informa o relatório divulgado no último dia 19. 

O retorno ao mercado formal vem acontecendo aos poucos. “Mesmo antes da vacinação, eles começaram a voltar, devido à necessidade de renda para a sobrevivência”, afirma. “Mas é possível observar que quase 40% dos negros que antes estavam na força de trabalho ainda não voltaram.”

Para o Dieese, esta ausência pode retratar a falta de oportunidades de emprego e, também, os óbitos durante a pandemia. “Segundo dados do Ministério da Saúde, os negros têm 40% mais chances de morrer de Covid-19, pois estão mais expostos. Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que eles representam 57% dos mortos pela doença.”

O documento alerta que o cenário de instabilidade econômica – com a alta da inflação, o aumento dos juros e a ausência de perspectivas de crescimento – dificulta ainda mais a inserção e a recolocação de pessoas negras no mercado de trabalho. 

O Dieese aponta, ainda, que os dados sobre ocupação e rendimento em 2021 mostram que “persiste a intensa desigualdade” e que os trabalhadores negros seguem enfrentado “mais obstáculos para conseguir uma colocação, ganham menos e têm, frequentemente, inserção mais vulnerável.”

Iniciativas locais buscam transformar a realidade

Atentos à necessidade de mudanças do mercado de trabalho de Juiz de Fora, iniciativas têm sido criadas por profissionais e pela iniciativa privada para promover a inclusão e a diversidade.

Criado este ano, o grupo “Pretos Juntos no Topo” reúne 180 profissionais negros de diferentes áreas, de Juiz de Fora e região, em uma rede de network. Idealizado por Valdilei Jacob e os jornalistas Lidianne Pereira e Rafael Rodrigues, o projeto busca fomentar oportunidades de trabalho, emprego, eventos e troca de experiências.

A participação é gratuita, e os interessados podem ingressar pelo link do grupo disponível no Instagram @pretosjuntosnotopo. “A ideia é cada um ajudar a impulsionar propostas que evidenciam o talento, o profissionalismo e as ações feitas por todos os membros, dando visibilidade e fazendo o dinheiro girar cada vez mais entre nós”, explica Jacob.

O grupo também tem estreitado a parceria com a iniciativa privada. Para Jacob, a redução da desigualdade no mercado de trabalho também é papel das empresas. “Isto é possível através de políticas que valorizem a inclusão e a diversidade.”

Desde 2010, a MRS Logística realiza ações com a proposta de promover a diversidade entre a equipe de colaboradores. Inicialmente, o trabalho foi direcionado para a inclusão de pessoas com deficiência e, posteriormente, ampliado. “Para todas as vagas abertas na empresa, as equipes de recrutamento e seleção são estimuladas a buscar candidatos de perfis variados, garantindo que pessoas diversas – sem restrição de etnia, gênero, orientação sexual ou deficiência, por exemplo – possam participar dos processos”, explica a assessoria.

Além disso, a diversidade é um tema trabalhado no dia a dia da empresa. “A MRS entende que, para oferecer um ambiente que acolha todas as representatividades, é necessário também cuidar para que haja uma cultura inclusiva. “Para isso, são realizadas ações educativas, como a “Semana da Diversidade”, e há um canal de denúncias para a informação e investigação de irregularidades.

De acordo com a empresa, os resultados têm sido positivos. “A companhia ganha quando tem em seus quadros pessoas com perfis, origens, características e opiniões distintas. Isso traz riqueza de pensamentos, ideias e a possibilidade de serem desenvolvidas soluções ainda mais criativas para os desafios corporativos.”

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