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A vida dos outros

Eny Raimundo Moreira, a advogada juiz-forana que enfrentou a ditadura militar

Morreu na última terça-feira, 4 de janeiro, a advogada juiz-forana Eny Raimundo Moreira (Arte: O Pharol)

Era véspera de Natal na penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. O ano de 1972 caminhava para o fim com seis presos políticos misturados a outros 400 presos comuns naquela unidade.

Por conta daquela meia dúzia – três frades, um camponês, um jornalista e um advogado – bateu à porta da penitenciária a advogada Eny Raimundo Moreira. Viera despachar com o delegado e resolveu levar um afago de Natal aos seus clientes.

O capelão da unidade, após ser convencido, chamou a visitante para a celebração natalina com os detentos. Mais para o fim do evento, o diretor prisional discursou e, em sua ânsia demagógica, destacou a grandeza da advogada naquela ocasião.

Em seguida, foi dada a Eny a oportunidade de falar aos detentos. Com o carinho de quem cuida, naquela noite ela falou apenas de amor. Ao final, para surpresa de todos, propôs: “É noite de Natal e quero dar um abraço em cada um de vocês”.

Mal terminou de falar, desceu do altar e, durante duas horas, sob um silêncio clamoroso, caminhou lentamente entre os presentes. Como anunciado, abraçou e beijou cada um daqueles quatrocentos homens, a maioria há anos sem receber o carinho ou o toque de uma mulher.

Essa história foi contada por Frei Betto, um dos três frades presos na penitenciária de Presidente Venceslau.  Anjo da guarda de centenas de presos políticos, a advogada que não sabia atuar, em nível efetivo, sem o complemento do afetivo, faleceu no último dia 4, no Instituto do Coração, em São Paulo.

Eny Raimundo Moreira nasceu em Juiz de Fora em 5 de abril de 1946. Começou a cursar direito na Universidade Federal de Juiz de Fora em fevereiro de 1964, um mês antes do golpe que levou os militares ao poder.

Em 1966, uma reportagem especial sobre o jurista e advogado Sobral Pinto na revista Realidade chamou a atenção da estudante universitária. “Aí eu falei para mamãe: Eu vou trabalhar com esse homem”, lembraria mais tarde.

Sobral Pinto, na década de 1960, já era reconhecido como uma personalidade jurídica por toda a sua atuação na defesa de presos políticos durante a ditadura do Estado Novo, especialmente a de Luis Carlos Prestes.

Na entrevista publicada pela revista, um detalhe chamou a atenção de Eny. Sobral Pinto era católico de comunhão diária, assistia à missa na capela de um colégio em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, todos os dias às 6h.

Ela então embarcou de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro, dormiu em uma pensão próxima a Laranjeiras e às 6h estava na igreja. Terminada a missa, foi ter-se com seu predecessor.

“Doutor Sobral Pinto, eu sou estudante de Direito, quero muito ser uma boa advogada e quero trabalhar com o senhor. Posso? Ele botou o olho no meu olho, parecia uma eternidade, me olhou profundamente e disse: ‘Começa amanhã’”.

Mais tarde, após ter transferido seu curso para o Rio de Janeiro, descobriu que seus companheiros de estágio eram todos indicações de amigos de Sobral Pinto. “Eu perguntei para ele por que me aceitou, se todo mundo entrou com pistolão, aí ele disse: ‘Porque do jeito que você é abusada, eu achei que ia dar boa coisa’.”

Eny trabalhou na defesa de processados políticos ao lado de Sobral Pinto, Oswaldo de Mendonça e Bento Rubião. Já a partir do seu segundo ano no escritório, passou também a atender clientes. Trabalhou em casos importantes, como os de Paulo Vannuchi, Isis Dias de Oliveira e Theodomiro Romeiro, primeiro processo com condenação de pena de morte.

Foi presidente fundadora do Comitê Brasileiro pela Anistia. Graças também ao empenho de Eny, a memória nacional resgatou, na obra “Brasil Nunca Mais”, assinada por Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright, as atrocidades cometidas pela ditadura.

Foi ela quem encontrou as vias transversas para acessar os arquivos do Superior Tribunal Militar, em Brasília, e microfilmar todos os processos de presos políticos. Eny foi presa duas vezes, uma em 1969 e a outra em 1970.

Questionada se havia alguma vitória especial nos tribunais ou algum caso difícil com resultado inesperado, ela respondeu: “Inesperado nunca era, porque, se você acredita na derrota, você desiste, né? Eu acho que eu posso, sem receio de cometer algum engano, te dizer que algumas vidas a gente conseguiu salvar e algumas penas a gente conseguiu atenuar”.

Eny Raimundo Moreira, presente!