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A presença e o abandono na herança do modernismo em Juiz de Fora

Marco Comemorativo do Centenário de Juiz de Fora, idealizado por Arthur Arcuri, com mosaico de Di Cavalcanti, teve participação de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa (Fotos: Márcia Costa)

Elas são obras de arte a céu aberto, localizadas no centro da cidade. Na correria do dia a dia, em meio ao intenso tráfego de pedestres e automóveis no local, quase passam desapercebidas. É preciso olhar para os lados. E para cima. Ali estão os famosos painéis intitulados “Cavalos”, ornando as janelas do Edifício Clube Juiz de Fora. Descendo o olhar, outra obra que parece perdida no centro comercial, o painel “Quatro Estações”. As criações assinadas por Cândido Portinari e Paulo Werneck imprimiram as marcas do modernismo no coração de Juiz de Fora.

Contra o caos da cidade, uma estética conservadora e um mercado imobiliário que devasta a arquitetura histórica de Juiz de Fora, erguem-se os dois painéis, sintonia perfeita entre arquitetura e arte.  As obras “Quatro Estações” e “Cavalos” ocupam a fachada do edifício modernista datado dos anos 1950, erguido no ponto mais tradicional da cidade, o Calçadão da Rua Halfeld.

O Clube Juiz de Fora é moderno por excelência. Seu desenho foi projetado pelo arquiteto Francisco Bolonha, ícone do movimento modernista.  Esta e outras edificações são um marco do ideário do Movimento Moderno e marcam as experiências de Bolonha em Minas Gerais – além de Juiz de Fora, o artista atuou em cidades como Araxá e Cataguases.

Na fachada para a avenida Rio Branco encontra-se o painel “Quatro Estações”, revitalizado há alguns anos e hoje protegido por um vidro e por iluminação especial, permitindo uma boa visualização da obra. Vale uma parada para olhar os detalhes de perto, ou admirá-lo por inteiro do outro lado da avenida Av. Rio Branco.

Já na fachada do Edifício que dá vista para a Rua Halfeld se irrompe a linha composta pelos painéis em pastilha com o desenho de cavalos, uma criação de Candido Portinari e Paulo Werneck. A imponência do edifício tomado pela figura dos animais faz dele uma referência visual única na cidade. Um exemplar raro de um período onde arte, arquitetura e paisagismo buscavam uma síntese perfeita, muito trabalhada por Bolonha em seus projetos.

Essa riqueza de detalhes e a imponência dessa arquitetura de tons artísticos é narrada em artigo produzido pelas pesquisadoras Raquel von Randow Portes e Marlice Nazareth Soares de Azevedo, produzido na Universidade Federal Fluminense. Em “Esquinas Modernas, dois Ícones Modernistas no Centro de Juiz de Fora: Francisco Bolonha e Oscar Niemeyer”, elas destacam o papel do patrimônio moderno na cidade contemporânea.

Emiliano Di Cavalcanti, um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922, grafou seu nome na história do movimento ao conceber a programação visual, o cartaz e a capa do catálogo do evento. Dono de uma linguagem gráfica moderna, observou atentamente o cotidiano e os costumes, foi influenciado pelo estilo art déco e apostou no desenho estilizado por meio da geometrização elegante das cenas.

A influência da decoração geometrizada e da ilustração gráfica do artista também está presente em outra obra sua, desta vez distante do centro da cidade. Pouca gente conhece o mosaico projetado por Di Cavalcanti que reveste o Marco Comemorativo do Centenário de Juiz de Fora. A obra, localizada na Praça da República, no bairro Poço Rico, foi idealizada pelo engenheiro Arthur Arcuri.

Mural em arte abstrata feito com a rara pastilha Vidrotil, une tonalidades únicas de azul, amarelo, verde e marrom, e mostra a influência do cubismo experimentado por Di Cavalcanti.  Por conta dos estragos, quase não se vê mais a cena criada pelo artista: três homens puxando uma voluta (motivo decorativo enrolado em espiral).

Apesar de a obra ser tombada pelo município de Juiz de Fora quanto pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ela permanece danificada desde julho de 2020, quando um incêndio levou à perda de parte das pastilhas do monumento, o que atrapalha muito a apreciação da arte de Di Cavalcanti. 

Datado de 1951, o monumento contou com a participação do arquiteto de Oscar Niemeyer, que teria indicado o próprio Di Cavalcanti para projetar o mosaico. Lúcio Costa também participou do projeto – teria sido dele a ideia de incluir uma pequena curvatura no final da parede. Oscar Niemeyer já vinha atuando em Minas Gerais, desde o início dos anos 1940, e deixou as marcas da arquitetura moderna em cidades como Cataguases e Belo Horizonte.

O monumento, que deveria representar o progresso na cidade, conforme a concepção da obra, hoje reflete certo abandono da arquitetura e da arte, que se arrasta pela história de Juiz de Fora. Como a praça que o abriga, a obra mescla-se ao silêncio do cemitério ao fundo.

Do outro lado da cidade, ocupando um espaço de maior visibilidade, “Quatro estações” e “Cavalos” seguem intactos, convivendo com a rotina do juiz-forano que percorre as ruas do centro a pé. A arquitetura que tem história, que tem arte, pede o nosso olhar. Por isso, não se deveria ignorar a importância desses painéis e murais: a arte, a cidade, em todos os lugares, seja no centro ou na periferia, pedem cuidado e apreciação.