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Guerra boa é de confete

Tem gente falando da terceira guerra mundial começando na Ucrânia com a Rússia invadindo porque tem um monte de coisas históricas envolvidas, mas é Carnaval, que tem muito mais coisa muito mais histórica muito mais envolvida.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

Povo fala das vítimas da terceira guerra mundial, mas tem um Carnaval — privado — num país com quase três dígitos diários de mortes e um total de quase 650k. Números de fantasia para os que sabem dos blocos de desinformação no país, porque a folia é bem maior.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

Geopolíticos estudam diferentes possibilidades de entrada russa na Ucrânia, mas é Carnaval em festas particulares em meio à variante Ômicron, de fácil contágio e poucas mortes, porque, afinal “tomei três doses” is the new “é só uma gripezinha”. E tem nova variante vindo aí, mas sem ter comprado passagem (nem ingresso) a tempo pra festa de Momo, então tem tanta relevância quanto a guerra do Putin.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

Há quem se preocupe com quem conseguiu sair da Ucrânia antes da guerra, mas é Carnaval e a vacina já tem lugar em 80% dos foliões brasileiros, com 71% “imunizados”, conforme palavra do jornalismo nacional, porque são pessoas com duas doses. Isso aí, imunes, ou seja, livres pra festejar no feriado porque sem qualquer chance de morrer de Covid, porque quem morre é quem não vacinou e só.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

A juventude sendo convocada pro exército na terceira guerra mundial, mas lá longe, porque aqui é Carnaval e jovem que é jovem mesmo nem se vacinou, porque é bebê, e idosos ou pessoas com comorbidades não foram convocadas pro conflito porque podem morrer. E morrem, melhor ficarem em casa acompanhando as notícias pela tela. Nem recebem visita, claro.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

Ninguém acreditava que haveria uma terceira guerra mundial, mas ponderações ficam de lado porque é Carnaval, independente de a taxa de contágio elevada tê-lo cancelado nas ruas. O contágio segue batendo recordes, mesmo que a proporcional quantidade de mortes seja inferior a outros tempos. Em mortes absolutas isso não muda nada, porque basta uma pra pessoa parar de ler este texto. Isso mesmo: não foi você.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

Se há espaço ou não no mundo para a terceira guerra mundial é irrelevante, porque é Carnaval em espaços fechados enquanto ainda há espaço livre também nos hospitais para internação de contaminados. Levam-se em conta as UTIs expandidas que ainda não puderam ser contraídas e sempre haverá lugar pra internações, porque geralmente há quem se cuide e não precise de hospital e há quem morra e abra vagas.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

E daí se o mundo está cansado de guerras? É Carnaval! O negócio é queimar energia em bloco, como têm feito os profissionais da saúde incessantemente nos últimos dois anos. Desde 2020 estão somando as atividades de sempre às decorrentes da Covid, que se expandem em novas cepas celebradas pelos foliões da vacina alheia.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

Guerra tem um monte por ano, em vários lugares do mundo. Carnaval é um só. Ano passado essa pandemia já avacalhou com a festa, fazer isso dois anos é sacanagem. Melhor deixar a guerra de lado e curtir confete e serpentina (quem pode pagar por isso), porque a pandemia também tá durando muito. Samba ruim é assim, toca naquele ano e acabou, deixa pra lá e pronto.

É um tempo de guerra, é um tempo sem sol.

Ainda bem que é Carnaval.

Melhor ainda: ainda bem que o timing do Putin é terrível, afinal, é Carnaval.

Se ele tivesse dicionário, veria que pandemia mata mais que guerra, mas o Houaiss e o Aurélio não devem falar russo e o Putin não fala português. Achou melhor, por falta de conhecimento, arriscar. Vai virar notícia, mas vai se dar mal nas estatísticas.

Números bons serão vistos no Carnaval, porque o vírus não tem essa noção de blocos militares, marchinhas pra guerra e coreografias de massa. Ele come quieto, pelos flancos e sem puxador (intérprete, perdão) conclamando. E nem sempre há justiça na dispersão, sem dó.