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Diversidade

As mulheres e a revolução que vem do campo

Nas regiões mais empobrecidas, as mulheres são responsáveis pela produção de 60% a 80% da comida (Fotos: Dowglas Silva)

Todo dia Maria Benta Ferreira, 73 anos, acorda bem cedo, cuida das galinhas, dá comida para os peixes e vai regar a horta. Morando no assentamento do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) Dênis Gonçalves, na cidade de Goianá, a 40 km de Juiz de Fora, ela sabe bem a importância do cuidar. “Tem que saber cuidar da terra, conhecer a melhor planta para cada região, saber a quantidade de água que bota em cada uma. O chuchu tem um cuidado, o jiló tem outro, alface tem outro. É preciso ter zelo com a terra, para não prejudicar o solo. Tem plantação que vai passando para os filhos, netos. Por isso a gente precisa cuidar, para não prejudicar quem vem depois.”

Por todo o país, são as mulheres que lideram iniciativas de manutenção da vida e preservação ambiental. Mas paradoxalmente são elas as mais impactadas pelas mudanças climáticas e desastres naturais, como secas e inundações. Segundo dados divulgados durante a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, a COP26, no final do ano passado, 80% dos deslocamentos por desastres e mudanças climáticas em todo o mundo foram de mulheres. Para citar um exemplo, entre os mortos na tragédia do mês passado, em Petrópolis, 60% eram mulheres.

Vulnerabilidade que é resultado de uma série de fatores sociais, econômicos e culturais. Com menos acesso a recursos financeiros, sendo responsáveis pelos cuidados de crianças e idosos e chefiando lares, as mulheres estão mais expostas a catástrofes, secas e outros efeitos da mudança do clima. 

Os desafios são tantos, que a ONU elegeu como tema do Dia Internacional da Mulher em 2022, a “Igualdade de gênero hoje para um amanhã sustentável”. A escolha é um reconhecimento da contribuição de mulheres e meninas em todo o mundo, que estão liderando a tarefa de adaptação às mudanças climáticas, mitigação, mas também um chamado para a construção de um futuro mais sustentável no planeta.

O cultivo sustentável da terra vem sendo apontado como um dos caminhos para esta mudança. Segundo o relatório da Via Campesina em Ação pela Justiça Climática, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura em 2019, enquanto o agronegócio está no centro da crise climática, sendo responsável por 25% das emissões globais de gases de efeito estufa, a agroecologia  – forma de agricultura sustentável que incorpora as questões sociais, políticas, culturais, energéticas, ambientais e éticas, incluindo a agricultura familiar – é responsável por alimentar mais de 70% da população mundial.

Um olhar sobre a terra

Mesmo ocupando menos de um quarto das terras usadas para a agricultura no Brasil, a agricultura familiar é a principal responsável por colocar alimento de verdade no prato da população brasileira. A partir dela são produzidos cerca de 70% dos mantimentos para as famílias e ela é responsável por 67% dos empregos da agropecuária do país, conforme o último Censo Agropecuário Brasileiro, de 2017.

Segundo a educadora e coordenadora da Regional Zona da Mata do MST, Elis Carvalho, o aprendizado na terra no assentamento começa cedo. A agroecologia integra o currículo da Escola Estadual Carlos Henrique Ribeiro dos Santos, localizada dentro do assentamento, mas também está presente nos quintais de casa. “Existem organizações de mulheres em quintais produtivos, coletivos de produção de artesanato. O MST tem colocado como pauta a luta de mulheres e resistência ao modelo patriarcal e machista. Além disso, as mulheres têm uma relação muito profunda com a terra, de cuidar, de deixar para o futuro. Pensamos a terra no sentido da vida, da fertilidade. A agroecologia é uma ação de resistência e combate à lógica do agronegócio, que cria desertos e pobreza para quem depende da terra”, explica. Iniciativas que, além de promover justiça ambiental, também contribuem para a resolução de problemas sociais, como pobreza e fome, oferecendo autonomia para as mulheres, suas famílias e comunidades.

Para a secretária de Agricultura, Pecuária e Abastecimento da Prefeitura de Juiz de Fora, Fabíola Paulino, é forte a participação das mulheres na agricultura familiar da cidade e região. “Muitas vezes é uma atividade que é rotulada como tipicamente masculina e tem um histórico de invisibilidade, uma vez que,o trabalho da mulher durante muitas décadas era visto apenas como ajuda. Mas atualmente, temos um cenário mais positivo. São elas as responsáveis, na grande maioria das vezes, pela administração de empreendimentos rurais, como associações e cooperativas, e também pela produção sustentável. Também é importante evidenciar a força delas nos quintais produtivos, na área do sustento familiar, que é basicamente conduzido por elas. As mulheres também são protagonistas das agroindústrias familiares, dentro de queijeiras, produzindo e comercializando quitandas.”

A secretária conta que as experiências nas produções orgânica, agroecológica e de plantas fitoterápicas e plantas alimentícias não convencionais (pancs) têm uma participação expressiva das mulheres. A produção de orgânicos no Sítio da Lagoa JF é um desses exemplos. A produtora Salete Furtado Sarquis Hallack herdou uma terra do pai, na Barreira do Triunfo, em 2016, e largou suas atividades no Rio de Janeiro para se dedicar ao cultivo de orgânicos. “Quando cheguei aqui procurei me informar sobre a técnica, pois queria produzir, mas eram poucas as pessoas que se dedicavam ao cultivo. Lembro que fui a uma feira no bairro São Pedro e vi que ofereciam um curso de plantio orgânico. Me inscrevi e foi ali que tudo começou.”

O sítio do pai era dedicado à criação de gado, mas Salete não tinha interesse em dar continuidade a este tipo de negócio. “Logo peguei a terra e havia uma nascente que secava na época de estiagem. Providenciei o plantio de mudas no local, com técnicas de agrofloresta, e essa nascente nunca mais secou”, conta. A produção foi crescendo, ela chamou a filha Juliana Hallack e contratou mais três pessoas para ajudar no plantio e colheita; uma para cuidar do cultivo de flores comestíveis e pancs; e outra para a produção de refeições, sendo a maioria mulheres. “O interesse por orgânicos sempre existiu. Sabia do perigo do agrotóxico para quem consome e quem planta e nosso país infelizmente está cada dia liberando mais e mais veneno. Eu jamais produziria de outra forma.”

O estímulo à participação de mulheres está presente nos processos de inscrições da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa). “Colocamos como pontuação mais alta o fato de ser mulher, com objetivo de  estimular a participação delas. Isso também acontece nas compras institucionais, tanto no Programa Municipal de Compras Institucionais da Agricultura Familiar, o Comida Boa, quanto no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)”, explica a secretária. No mês de março, a Seapa convidou apenas mulheres para participarem da edição da feira que ocorre no pátio da Prefeitura. “Queremos reconhecer o papel delas como parte fundamental não só da economia, mas também do bem-estar das famílias, de suas comunidades e de toda a sociedade.”

A construção de uma agenda feminista para o meio ambiente

As mulheres representam, em média, 43% da força de trabalho no campo, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Nas regiões mais empobrecidas, são responsáveis pela produção de 60% a 80% da comida. Mas elas possuem apenas pequenas propriedades, possuem renda menor e têm menores chances de conseguir empréstimos em comparação aos produtores homens. Estimativas do órgão apontam que, se elas tivessem o mesmo acesso a esses recursos, a produção aumentaria entre 20% e 30%. 

Segundo o estudo “Mulheres brasileiras na luta por desenvolvimento sustentável com justiça social” publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2020, a articulação entre os direitos das mulheres e a sustentabilidade ambiental tem dois momentos fundamentais: o Território Global das Mulheres de 2012 e o Planeta Fêmea, de  1992, que apresentaram a demanda dos movimentos feministas e de mulheres por um  olhar sobre o meio ambiente em que elas fossem incluídas nos processos e espaços de tomada de decisão. O objetivo era reivindicar seu lugar nesse debate e nas decisões a serem construídas a partir dele, abrindo espaço para o questionamento do modelo de desenvolvimento implementado até então e denunciando sua insustentabilidade ambiental e também social.

Isso porque para responder às mudanças climáticas é preciso desenvolver políticas com diferentes implicações e impactos em pessoas de acordo com gênero, classe e raça. Não basta simplesmente incluir mais mulheres, mas trazer pessoas com visões de mundo e experiências diferentes – incluindo aquelas cujas vidas têm sido severamente afetadas pela mudança do clima. 

“A luta das mulheres pelo desenvolvimento sustentável e a preservação do meio ambiente é uma luta cotidiana pela própria preservação: de seus corpos, de suas identidades e  histórias, de suas comunidades e seus territórios. Se é verdade que elas são essenciais para a sustentabilidade da vida, é também verdade que a garantia plena e irrestrita de seus direitos é absolutamente necessária para a sustentabilidade de suas próprias vidas”, destaca a autora do estudo, a socióloga Nina Madsen. 

Sem igualdade de gênero hoje, um futuro sustentável e um futuro igualitário permanecem fora do alcance. As sementes foram lançadas, mas é necessário cuidar.