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Polytheama

25 de abril: Revolução dos Cravos e um cheirinho de alecrim

Chico Buarque compôs a canção "Tanto mar", em 1975 (Foto: Divulgação)

Produzido em 2012, o documentário “Meu caro amigo Chico”, foi feito em resposta à canção “Tanto mar”, de Chico Buarque, e reúne canções e testemunhos de músicos, esboçando, nas palavras da diretora, “um retrato de Portugal contemporâneo”. Com direção da cineasta e compositora portuguesa Joana Barra Vaz, o filme estreou no dia 25 de abril de 2020, data da cerimônia de entrega do Prêmio Camões a Chico, o que, em razão da pandemia, acabou não ocorrendo. Não por acaso, 25 de abril é a data da Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal em 1974, que pôs fim aos 41 anos de ditadura salazarista.

“Uma celebração da liberdade e da democracia, através da música e da história de dois países para sempre enlaçados, Brasil e Portugal”, destaca Joana Barra Vaz, que realizou o longa com argumento dela junto com Maria João Marques e Rui Pires.

Tudo começou em 2005, segundo Joana, durante a temporada do musical “Ópera do malandro”, de Chico Buarque, em Portugal.

“Maria João e eu fomos assistir à ‘Ópera do Malandro’ em Lisboa e depois tivemos uma longa conversa sobre estas canções de Chico e sua relação com a história de Portugal, sobretudo ‘Tanto mar’, a gênese do projeto”, comenta. “No ano seguinte, quando soube que Chico voltaria a Portugal, desta vez com a turnê de ‘Carioca’, era a possibilidade de tornar esta ideia real, fazer um filme como se fosse uma carta respondendo à canção dele. Um retrato de uma sociedade portuguesa que fala muito sobre liberdade de uma geração que é a minha, o poder da palavra e da música dos dois países”.

Joana, que foi contratada pela produção do Prêmio Camões para apresentar o documentário na cerimônia, convocou músicos próximos do universo musical de Chico, cada um representando estilos musicais, gerações e visões distintas da sua profissão. Nomes como António Zambujo (que gravou “Até pensei que fosse minha”, um disco só com composições de Chico, em 2016), José Eduardo Agualusa, JP Simões, Nuno Prata, Roda de Choro de Lisboa, Sérgio Godinho e, claro, Chico Buarque que, no mesmo dia 25, postou um vídeo em seu perfil no Instagram saudando os amigos portugueses e escreveu: “Sei que estás em festa, pá / Fico contente / E enquanto estou ausente / Guarda um cravo para mim”.

“Vai aqui minha saudação aos amigos portugueses pelo 25 de abril, infelizmente não haverá entrega de Prêmio Camões, mas esta tarde deixarei na janela cravos vermelhos e cantarei em alto e bom som ‘Grândola, Vila Morena’, de José Afonso. Se possível, peço a vocês que guardem seus pensamentos para os irmãos brasileiros que estão mais do que nunca necessitados de um cheirinho de alecrim”, disse o compositor à época.

Chico aos portugueses no Instagram

No filme, que tem duração de 1h45, Chico Buarque explica como compôs a canção “Tanto mar”, em 1975:

“A revolução portuguesa mexeu muito com os brios das pessoas aqui no Brasil, o assunto virou um tabu. Eu fiquei bastante empolgado com aquilo tudo e fiz a canção, que foi proibida”.

A música, então, foi reescrita em 1978, a versão como conhecemos atualmente, de acordo com Chico, “mudando o tom de felicitação para um mais apreensivo”. Em um outro trecho do vídeo, são citados os versos: “Já murcharam tua festa, pá / mas, certamente, / esqueceram uma semente nalgum canto de jardim”.

“Depois que começamos a produzir as entrevistas, o roteiro foi ganhando uma outra cara, tudo foi ficando mais denso, então era preciso abrir para mais pessoas entrarem neste time, entre eles Miguel Araújo e Luanda Cozetti, dos couple Coffee, filha de Alípio de Freitas, que nos concedeu uma entrevista interessante sobre as realidades políticas no Brasil e em Portugal. Estava concluído o encontro entre música e política que serviria de discurso de abertura da nossa carta”, explica Joana Barra Vaz, que ainda cumpre quarentena com a mãe, em Lisboa.

Lançado somente em festivais, o filme, para ela, ganha novas leituras agora, sobretudo em relação ao Brasil.

“Neste momento, em que o mundo ainda está numa guerra contra o vírus, aumentou o pedido de pessoas para ver o filme. Pedi autorização para a equipe do Chico que autorizou na boa. Seria mais uma chance para sublinhar a união e o valor da liberdade. É como se fechasse um ciclo, e ainda nos traz mais uma chance de retribuir e, dez anos depois, mandar aos brasileiros um ‘cheirinho de alecrim’”.