Publicidade
Conjuntura

No mesmo palanque, PT venceu 4 eleições para presidente e apenas uma para governador em Minas

Como candidato a governador e presidente, Nilmário Miranda e Lula dividiram o palanque em Minas em duas eleições (Foto: Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação)

Nos últimos 20 anos, os candidatos do PT à Presidência da República perderam apenas uma eleição em Minas Gerais. Em 2018, Fernando Haddad (PT) foi derrotado por Jair Bolsonaro (PL). Em 2002 e 2006, Lula (PT) venceu entre os mineiros, o mesmo acontecendo com Dilma Rousseff (PT) em 2010 e 2014.

Em todas essas eleições, o PT concorreu ou apoiou abertamente um candidato ao Governo de Minas. De forma inversa às disputas presidenciais, apenas uma vez um concorrente petista ou apoiado pelo partido conseguiu chegar ao Palácio Tiradentes. Em 2014, Fernando Pimentel (PT) derrotou Pimenta da Veiga (PSDB).

Levantamento feito por O Pharol com base nos resultados das cinco últimas eleições gerais mostra certa desassociação por parte do eleitor mineiro em relação aos candidatos do PT à Presidência da República e ao Governo de Minas.  Em alguns casos, como em 2006, Lula concorrendo à reeleição obteve no estado votação 26% superior a de Nilmário Miranda (PT) que concorria ao Palácio Tiradentes.

Na eleição anterior, quando Lula foi eleito e se formou a tal “onda vermelha”, Nilmário já havia tentando se eleger governador, mas acabou derrotado por Aécio Neves (PSDB). Na ocasião, sua votação entre os mineiros foi 23% inferior a de Lula. Na macrorregião do Centro-Oeste, essa diferença chegou próxima de 30%.

Mesmo em 2014, quando Pimentel venceu a disputa pelo Governo de Minas e a presidente Dilma foi reeleita, a diferença de votos entre as duas candidaturas foi em média de 7%. Curiosamente, foi a única vez em que um candidato a governador obteve no estado votação superior a de quem postulava a cadeira presidencial. Ex-prefeito de Belo Horizonte, Pimentel conseguiu votação 16% superior a de Dilma na região Central.

Em 2010, na única vez em que o PT não lançou candidato próprio ao governo, mas apoiou Hélio Costa (MDB), ex-ministro das Comunicações da gestão Lula, a diferença entre as votações se manteve. Na média, a petista obteve 13% a mais de votos que seu companheiro de palanque no estado, mas em regiões consideradas redutos do PT, como o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha, a diferença chegou a 25%.

As candidaturas petistas a presidente e a governador com menor índice de desassociação foram registras em 2018, com Fernando Hadadd e Pimentel. Os dois foram derrotados no estado, sendo que o ex-ministro da Educação obteve votação 6,8% superior a do então governador candidato à reeleição. Na região metropolitana, onde Pimentel havia se sobressaído quatro anos antes, Haddad conseguiu melhor resultado pela diferença mínima de 1,6%.

Com Lula e Kalil a história pode ser diferente?

Levantamento eleitoral do Instituto Ver sobre a sucessão em Minas Gerais, publicado na última semana, coloca o governador Romeu Zema (Novo) com possibilidade de ser reeleito no primeiro turno com 44% dos votos. Em segundo lugar aparece Alexandre Kalil (PSD), ex-prefeito de Belo Horizonte, com 22%. O senador Carlos Viana (PL), que será o candidato do presidente Jair Bolsonaro (PL), tem apenas 5% da preferência dos eleitores e fica em terceiro lugar.

A pesquisa foi realizada após o prazo limite para filiações (2 de abril) e conseguiu incluir pela primeira vez o nome de Viana. Com os três no páreo, Zema só é ameaçado quando Kalil aparece como candidato apoiado por Lula. Nesse cenário, a diferença entre o ex-prefeito de Belo Horizonte e o governador é apertada: Kalil tem 33% e Zema, 32%.

Se ter Lula como aliado pode se tornar um grande ativo para Kalil, a parceria, por outro lado, pode dar ao petista um palanque no estado. Após o péssimo desempenho do ex-governador Fernando Pimentel (PT) em sua tentativa de reeleição em 2018, o partido não conseguiu viabilizar nenhum nome para tentar voltar ao Palácio Tiradentes nas eleições deste ano.

Há um mês, durante entrevista à Rádio Super, de Belo Horizonte, Lula considerou a possibilidade de uma união com Kalil como um bom negócio para ambos. “O Kalil precisa de mim, e eu preciso do Kalil e se nós nos juntarmos faremos uma chapa muito forte em Minas”. Recentemente, em entrevista ao jornal O Globo, foi a fez do ex-prefeito de Belo Horizonte usar a mesma expressão para se referir à aliança.

O principal impasse para a aliança ser firmada envolve a definição de quem será o candidato a senador na chapa de Kalil. O PSD pretende lançar o senador Alexandre Silveira (PSD), enquanto o candidato do PT e de Lula é o deputado federal Reginaldo Lopes (PT). Os petistas sinalizaram até com possibilidade de um palanque duplo para o Senado. A proposta vem sendo rechaçada pelo PSD.

Eleição nacionalizada pode favorecer associação de nomes

Embora sem uma correlação afinada nas últimas eleições entre os candidatos a presidente e a governador no estado, dividir palanque com alguém à frente das pesquisas não deixa de ser um bom negócio. A avaliação é do cientista político e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Raul Magalhães, para quem o apoio de um “candidato melhor ranqueado no momento eleitoral é um ativo considerável”.

Além disso, segundo ele, a proximidade entre Kalil e Lula faz sentido para o eleitor. “No caso do Kalil, que construiu certo discurso contra as práticas de Bolsonaro durante a pandemia, lembrando que ele foi um dos prefeitos que adotaram medidas sanitárias, uma política de vacinação. Então, passa a ser uma posição coerente por ele ter se colocado contrário ao bolsonarismo como opção. Há um vínculo nessa aliança”.

A chamada polarização envolvendo bolsonaristas de um lado e lulistas de outro, conforme o professor do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da UFJF, Jorge Chaloub, pode aumentar a correlação entre os candidatos a presidente e governador nos estados. “Há uma nacionalização das eleições estaduais, pelo menos é essa a impressão, de uma maneira mais intensa que nas últimas eleições”.

 Isso acontece em função de como o processo está sendo organizado com uma disputa muito clara entre Lula e Bolsonaro. “Os candidatos nos estados estão sendo demandados para se vincularem a um ou a outro”, explica Chaloub, que chama atenção ainda para o perfil dos concorrentes. “No atual cenário das pesquisas, o Lula é amplamente favorito. Mas lembrando que o Bolsonaro é um candidato forte”.

Em relação aos dois personagens, o professor pondera que todos os presidentes que buscaram a reeleição na recente série histórica democrática brasileira se reelegeram (Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma).  “Reeleições favorecem quem está no poder”. Porém, ele adverte, o oposicionista agora não é uma figura normal.” Não podemos esquecer que se trata de alguém que esteve nas urnas diretamente ou no imaginário, apoiando alguém de modo explícito, desde 1989”.

Por sua trajetória e por deixado o governo bem avaliado, explica Chaloub, as pesquisas colocam hoje Lula com certo favoritismo. “No cálculo dos candidatos a governador, se pensarmos em um cenário sem qualquer tipo de afinidade ideológica ou de trajetória, que são elementos importantes para decisão sobre quem apoiar, o Lula acaba sendo um ativo, um apoiador mais interessante do que o Bolsonaro”.

Isso faz com que, segundo o professor, alguns levantamentos em Minas, no Rio de Janeiro e em São Paulo, colocam os pré-candidatos Kalil, Fernando Haddad e Marcelo Freixo com melhor desempenho nas disputas pelos governos quando colados em Lula.

“O caso mineiro é mais significativo. Hoje, o Lula sabe que é importante ter um palanque no estado. Mas por mais que isso seja relevante e considerando que o Zema não é um governador mal avaliado, os dois (Kalil e Lula) ganham com o acordo. Mas o Lula é mais importante para o Kalil do que o Kalil para o Lula”, avalia o professor.

Por fim, ele conclui: “A grande chance do Kalil, além de mobilizar o eleitorado de Belo Horizonte, é colar sua imagem ao Lula. Digo mais: precisa colar a imagem do Bolsonaro, que tem uma rejeição grande entre os mineiros, ao Zema. Isso pode abrir uma possibilidade de o Kalil fazer algo bem difícil, que é derrotar um governador que não é mal avaliado em uma reeleição”.