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Os motivos da vacina

O suíço Alexandre Yersin estudou com Louis Pasteur em Paris antes de se alistar como médico e partir em viagem. Com o mestre, deu início à carreira de bacteriologista. Interessava-se em curar os doentes de guerra e examinava as causas de morte por infecção.

Enquanto muitos acreditavam que as mortes nas epidemias se deviam a algo no sangue, Yersin suspeitava de outras fontes. Depois de exumar um de mais de 300 cadáveres já existentes em Hong Kong, em 1894 (fez isso ilegalmente, autópsias eram proibidas), descobriu micróbios em grande concentração. Os mesmos micróbios existentes nos ratos mortos pela cidade.

A situação se repetia desde 590, primeiro registro de uma peste semelhante, em Roma. O momento mais grave se deu na metade do século XIV, com a chamada Peste Negra. Outras pestes de hoje, brancas e racistas, argumentariam que a imunidade de rebanho foi criada e a peste acabou. Falta-lhes o conhecimento de muitos anos seguintes, em que ocorreram epidemias em Marselha (1729), no Egito (1799) e na Indochina (1884).

Quando Yersin descobriu a causa de tantos séculos de mortes, pra se chegar até uma cura ou prevenção foi uma questão de pouco tempo. Primeiro, destacou a necessidade de higiene pública, eliminando os ratos da cidade. Essa mesma frase foi aplicada aos judeus pelos nazistas e a prática foi usada em Manaus por fascistas contemporâneos.

As ampolas de soro contra a peste foram aplicadas em Cantão, em 1896. Aos primeiros sinais de cura, as encomendas cresceram. A vacina começou a vencer a peste bubônica, séculos depois de ela dominar diferentes lugares do mundo.

Poderia ser uma história a ser usada como metáfora da ignorância, que se espalha e mata pelo mundo, mas os estudos identificam os pontos fracos e vencem ao final. Ou uma moralidade sobre perseverança, altruísmo e até mutações. Porém, em tempos de pouca sutileza, de incapacidades cognitivas, de estupidez em massa, melhor ir direto ao ponto: quem não deve, não teme.

Se a sociedade fosse consciente, altruísta e educada, todas as pessoas estariam vacinadas, guardando os limites permitidos, que são de pouca idade ou de contágio recente. Nessa sociedade do “se”, um cartão de vacinação não precisaria ser obrigatório pra entrada em lugar algum.

Na sociedade do “si”, é cada um com seu cada qual. Nem adianta citar Foucault e o “cuidado de si”, que apresenta no terceiro volume d’A história da sexualidade. “Cuidado de si” é cuidar do outro, isso faz com que o si esteja bem nesse convívio (em resumo, é por aí). Cuidar de si é… vejamos um exemplo atual… ah, sim: todo mundo se vacinar.

Na sociedade do “si”, eu cuido de mim e azar o do outro. “Estou vacinado, posso sair e entrar sem máscara” é ignorar o outro. Só que tem gente que se acha mais forte do que o vírus, ou que ele tem caminhos de cura menos invasivos do que uma vacina (ozônio, por exemplo). Quem cuida do outro, reitera a importância da vacina, exibe o cartão com três ou quatro doses, tem orgulho de fazer parte de uma sociedade melhor.

Quando as pestes brancas se espalham, querem proibir a obrigação de apresentação do cartão vacinal pra entrar nos lugares. Insistem que o Português é uma língua pura, cis e hétera. Dão o ar da graça quando as instituições nacionais são ofendidas (eufemismo). Contra essas pestes, vacina-se com educação. Educação política.

Se desconhecemos as sequelas da Covid, e seguiremos nessa ignorância por tantos anos, as das ações das outras pestes são conhecidas em histórias recentes. Entre golpes, torturas e guerras, sobram apenas os restos para o povo. Depois de transformado em rato pode ser tarde demais pra ele esboçar uma reação. Vacine-se com consciência.