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Conjuntura

Por que Anitta é a melhor aposta para criar engajamento dos jovens com as eleições?

Anitta: fãs de 16 e 17 anos devem apresentar título de eleitor antes de tirar foto com ela (Foto: Divulgação)

Anitta e outros famosos com peso nas redes sociais entraram na campanha para incentivar os jovens a participarem das eleições. Luisa Sonza, Juliette, Gkay, Whindersson Nunes, Bruna Marquezine, Casimiro, Felipe Neto, Zeca Pagodinho, Taís Araújo e até o ator americano Mark Ruffalo, conhecido por interpretar o Hulk no cinema, estão em uma espécie de cruzada sobre a importância de tirar o título.

Se o apelo dessa turma vai fazer a galera nascida em meados dos anos 2000 acessar a página do Tribunal Superior Eleitoral e fazer o alistamento eleitoral, só se saberá após o dia 4 de maio – prazo limite para requerer o título de eleitor. É certo, entretanto, que a melhor chance de aumentar a participação dos jovens – e também dos já não mais tão jovens – nas eleições de outubro está no empenho dessas celebridades das redes sociais.

Isso porque, segundo o cientista político da Universidade Federal de Viçosa, Diogo Tourino, o papel assumido por Anitta e outros influencers do mundo digital é de reorganização do mundo público. “Se a política de cancelamento aleatoriamente começa a desorganizar o mundo público, de repente ele começa a ser reorganizado por esses personagens que foram sendo inventados”.

Nesse contexto, Anitta, Casimiro, Felipe Neto assumem postura semelhante a dos antigos intelectuais. “Eles não têm uma agenda, uma proposição, um conjunto coerente de ideias, mas atuam no processo de reorganização do debate público. Isso não é tolo. A personagem Anitta não é uma personagem irrelevante na cena democrática brasileira hoje pelo modo como ela faz o enfrentamento com o Ricardo Salles (ex-ministro do Meio Ambiente)”.

Diogo Tourino explica que o mundo onde se dá o embate protagonizado por essas celebridades tem suas particularidades, o que torna o enfrentamento relevante para o atual momento da democracia no país. “O mundo no qual Anitta faz o enfrentamento é o mundo da informação rebaixada, torta, equivocada, que circula gratuitamente pelo whatsapp, que não passa nem pelas mãos dos jornalistas profissionais”.

Questionado quanto à forma como acontece a desorganização do mundo político por meio do cancelamento, o cientista político pondera se tratar de uma questão delicada. “As pessoas são instigadas a despejar ódio de maneira agressiva, sem o menor pudor. Por que é delicado? Porque, de fato, não vamos ficar ouvindo torturador, ouvindo pedófilo, ouvindo racista. Isso não vamos. É um tema delicado sobre esse aspecto”.

Mas, por outro lado, chama atenção Diogo Tourino, a ideia vigente hoje de uma multidão promovendo linchamentos online é assustadora do ponto de vista da desorganização do debate público. “Se você se entrega ao sabor imediato das redes sociais, toda semana terá raiva de alguém. Às vezes, na mesma semana, estará com raiva de três pessoas diferentes”.

É nesse sentido, segundo ele, que se dá a desorganização. “Parece que as redes sociais não organizam o debate público. Não o organizam na medida em que não priorizam questões. Na verdade, elas desorganizam o debate ao promoverem uma espécie de ódio aleatório. Ou seja: pode surgir uma coisa e simplesmente a atenção é tragada por aquilo. Nisso, se perde o foco”. 

Quanto à possibilidade de o medo do cancelamento afastar os jovens do envolvimento com a política, o cientista político considera que o problema, nesse caso, está no processo de desencantamento. “Depois daquele fervor que foi a volta do voto no final dos anos de 1980 e início dos anos 1990, tivemos uma espécie de arrefecimento.” A rotinização democrática pode ser um dos fatores, segundo ele.

O que não significa, na sua avaliação, que os jovens não sejam mobilizados ou engajados. “Eles são mobilizados, têm associativismo cultural, têm militância, se engajam na rede para jogar jogo online”. O problema é que a política se rotinizou num universo que é estranho a esses jovens. “Sem capacidade de a política se tornar permeável, eles foram se engajando em outros mundos”.

Para o professor de política da Universidade Federal de Juiz de Fora, Paulo Roberto Figueira Leal, o problema dos jovens em relação à participação política passa mais pela questão da insatisfação com o cenário da representação do que pelo medo do cancelamento. “Algo que historicamente tem acontecido muito antes mesmo da emergência das redes sociais como espaço da contestação sobre política”.

Ele considera que, independentemente de votar ou não, o risco de cancelamento existe. “A questão mais importante para desestimular jovens que não são obrigados a votar ou as pessoas com mais de 70 anos tem a ver com o desencanto com o mundo institucional, com o mundo político, com a descrença nas instituições. Isso não é um fenômeno potencializado pelas redes sociais. Historicamente sempre foi assim”.

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