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Contexto

Rotulado de “ostentação”, casamento de Lula é alvo do preconceito da classe média

Lula e Rosângela Silva, a Janja, se casam na noite dessa quarta-feira (18) em São Paulo (Foto: Divulgação)

A polêmica envolvendo os vinhos servidos no casamento de Lula com Janja é mais uma safra do preconceito destilado pela classe média e midiática brasileira sobre a classe trabalhadora. 

“Ostentação! Saiba quanto Lula investiu em bebidas para seu casamento”, titulou um colunista de fofoca, em texto reproduzido por outros veículos, que trata do vinho branco espanhol Freixenet Sauvignon, cujo preço mais em conta é R$ 49,90 a garrafa. E não R$ 90, como publicou o colunista. 

O mesmo aconteceu com o argentino Perro Callejero Malbec, que pode ser comprado a R$ 68,30, mas apareceu custando R$ 120. E só piora, a garrafa do espumante nacional brut Cave Geisse (safra 2014), produzido na serra Gaúcha, sai por R$ 115 (na caixa com seis), bem diferente da faixa sugerida na mesma coluna: “entre R$ 135 e R$ 800 reais”, no caso do valor mais alto equivale a uma safra especial de 2012, que não faz parte do brinde do casório. 

A repulsa a Lula e a tudo aquilo que ele representa – torneiro-mecânico nordestino chegado a uma cachaça – é antiga, como listado em sua biografia, escrita por Fernando Morais, vem do surgimento do novo sindicalismo nos anos 1970, aprofundando-se em 2002, quando o petista foi eleito presidente. 

Danuza Leão, então colunista da “Folha”, chegou a usar adjetivos como “breguice”, “jequice” e “vexame” ao se referir a uma festa junina promovida por Dona Marisa na Granja do Torto.

De volta às eleições de 2002, Lula foi criticado por ter comemorado o último debate do primeiro turno tomando uma garrafa do francês Romanée Conti, considerado um dos melhores vinhos do mundo, que ganhou do marqueteiro Duda Mendonça. A mesma foi avaliada pela imprensa na época em R$ 6 mil. 

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em uma família pobre em um dos estados mais pobres do país e passou anos liderando sindicatos, um ambiente notoriamente alcoolizado. Relatos da imprensa brasileira e estrangeira sempre se debruçaram sobre isso, em 100% dos casos com alguma dose de valor moral. 

“Sob Lula, a caipirinha se tornou a bebida nacional por decreto presidencial”, disse uma chamada da “Folha de S.Paulo”. “Luiz Inácio Lula da Silva nunca escondeu seu gosto por um copo de cerveja, uma dose de uísque ou, melhor ainda, um gole de cachaça, o potente licor de cana do Brasil”, cravou o “The New York Times”. 

No caso do carioca “O Globo”, chama a atenção um paradoxo. “Qualquer um que esteve em uma recepção formal ou informal em Brasília viu presidentes tomando uma dose de uísque. Mas você não terá lido nada a esse respeito sobre outros presidentes, apenas sobre Lula. Isso cheira a preconceito”, reconheceu o jornal, o mesmo que um dia manchetou “farofeiro” para legendar uma foto do petista com uma caixa de isopor na cabeça numa praia em Salvador.