Ciências

“Inovar gera desenvolvimento econômico e, com recurso, pode-se melhorar a qualidade de vida”

Diretor do Instituto Gênesis da PUC-Rio, José Aranha ministrou palestra “A cidade como laboratório de experiências para o conhecimento e criatividade” no 1º Fórum Próximo Futuro em Juiz de Fora (Foto: Reprodução)

Como conectar diferentes agentes de tecnologia para uma cidade mais inteligente e como isso contribui para a melhora em sua qualidade de vida? Para refletir sobre essas e outras questões relacionadas à potência criativa de Juiz de Fora, a Prefeitura de Juiz de Fora, o Sebrae-MG e o Instituto Fábrica do Futuro reuniram especialistas nacionais e internacionais de diferentes setores nesta semana no 1º Fórum Próximo Futuro.

O Pharol conversou com o diretor do Instituto Gênesis da PUC-Rio, José Aranha, que vai ministrou a palestra “A cidade como laboratório de experiências para o conhecimento e criatividade”. O especialista em Administração e Comércio Exterior explicou o conceito de ‘metápolis’ – que prevê um engajamento entre diferentes setores da sociedade para o seu desenvolvimento – e como a mesma se relaciona com a inovação e, consequentemente, à melhora na qualidade de vida e desenvolvimento econômico dos municípios.

O Pharol – Como Juiz de Fora se encaixa ou pode se encaixar na proposta de cidade ‘metápolis’?

José Aranha – Qualquer cidade pode se encaixar no conceito de uma metápolis porque, na realidade, as metápolis são um grande pacto entre os atores locais. Se o governo, a universidade, as empresas e a sociedade local decidem fazer um projeto onde o cidadão passa a ser o centro de benefício do uso da tecnologia, essa cidade começa a caminhar para ser uma metápolis. Então, é muito mais um acordo dos atores para que Juiz de Fora possa, efetivamente, se tornar uma metápolis.

O Pharol – E como fazer essa junção com os desenvolvedores de tecnologia (Universidades, Centro de Inovação e Transferência de Tecnologia [Critt], empresas) e a cidade?

José Aranha – Como fazer esse acordo é realmente, quem sabe, a tarefa mais difícil porque isso envolve capital social. Capital social depende de um fator que é a confiança. Então, os atores precisam confiar uns nos outros e manterem a sua causa, o seu propósito e o seu caminho até que os objetivos sejam atingidos. Esse realmente é um grande desafio: mobilização, conscientização, comprometimento e causa bem definida.

O Pharol – De que forma a inovação e a qualidade de vida se conectam?

José Aranha – A inovação tem tudo a ver com a qualidade de vida. Podem-se observar algumas correlações feitas em estudos que mostram que a criatividade, a concentração de talentos, capital intelectual, concentração de startups e a concentração dos atores de ponta, como universidades, fazem com que uma localidade tenha um grau de inovação maior. Podemos verificar que as cidades que têm essas variáveis em maior grau são também as cidades que têm os melhores índices de qualidade de vida. Então, a qualidade de vida é uma consequência de um ciclo virtuoso, onde inovar gera desenvolvimento econômico e, com recurso, pode-se melhorar a qualidade de vida.

O Pharol – Quais são as principais barreiras que impedem as cidades brasileiras de aumentarem sua capacidade de inovação?

José Aranha – A grande barreira que impede as cidades de aumentarem sua capacidade de inovação está ligada à retenção de talentos, à retenção de capital intelectual. Quem mais sofre são as cidades menores, que estão no interior, que são as cidades onde seus talentos saem para estudar fora em outras localidades e acabam não voltando. Então, essas cidades perdem o seu talento enquanto outras cidades concentram mais talento. Algumas cidades, como Juiz de Fora, que são cidades que têm uma infraestrutura de geração de conhecimento forte como uma boa universidade, o que pode ser feito é um programa de retenção de talentos. Temos que conseguir dar oportunidade como fez, por exemplo, a cidade de Santa Rita de Sapucaí, para que os jovens preparados e criativos pudessem exercer as suas iniciativas de empreendimentos dentro da própria cidade, morando na própria cidade.

O Pharol – Em um evento do Parque da UFRJ, o senhor ressaltou a importância de se discutir o conceito de user innovation (inovação a partir da demanda do usuário). De que maneira esta proposta pode ser trabalhada pelas cidades?

José Aranha – Muito bom ouvir falar sobre user innovation, sobre a possibilidade de uma cidade se tornar um laboratório de experimentação. Esse é um caminho que muitas cidades no mundo têm utilizado para poder desenvolver novos produtos ou serviços. A inovação propriamente dita, que é a transformação das tecnologias e do conhecimento desenvolvido em produtos e serviços utilizados pela sociedade, precisa de um mundo real, de situações reais. Ela precisa que um cinema funcione, que um o hospital esteja funcionando, que uma escola, um restaurante, que qualquer atividade humana na sua rotina de instituição possa dar oportunidade a novos produtos, novas ideias, novos serviços, novos processos e, de maneira sistemática e usando uma metodologia científica, possa transformar esses resultados em novos produtos que vão virar novas startups e fazer desenvolvimento econômico da localidade. Isso é um programa, uma política de governo que pode ser estabelecida pela prefeitura, começando por ela mesma na área dos serviços públicos e se estendendo por toda a sociedade local.