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Praça dos Quatro Poderes, domingo, 8 de janeiro de 2023

Enquanto esses ventos que inflam a boneca da ultradireita continuarem soprando, no Brasil ou além, as pedras no caminho continuarão fazendo tropeçar a sociedade.

Faz tempo que essa história de que a imprensa é o quarto poder vem caindo por terra, ainda mais em tempos de internet, redes sociais e “basta ter um celular com câmera e internet pra ser jornalista”, já que o Gilmar Mendes suspendeu a obrigatoriedade dos diplomas dizendo que jornalista é igual cozinheiro.

Tá bem indigesto o jornalismo nos últimos anos, ainda mais quando a dita grande mídia, sendo “grande” um adjetivo de orçamento, ainda se acredita dona da verdade. E na falta da verdade de verdade há quem invente a sua.

Pois que se chega à edição da CNN. O canal ficou famoso mundo afora na Guerra do Golfo, a primeira. Mostrava o conflito e as cenas que pareciam de videogame, tudo ao vivo, uma guerra dentro de casa, via televisão. Amparada pelo derramamento de sangue, a marca da empresa de notícias se espalhou pelo mundo.

Michael Moore, cineasta estadunidense, mostra no filme Fahrenheit 9/11 que a história de  seu país é banhada de sangue. Conflitos por terras, por pessoas, por dinheiro e poder sempre estão por trás do movimentos sociais, culminando na venda irrefreada de armas e na queda das Torres Gêmeas em 2001. A CNN nasceu e cresceu ali.

Chega ao Brasil e resolve editar gravações do dia 8 de janeiro de 2023 para ferrar o Governo Lula. Um governo ciente de que, para avançar, não precisa ser gestor de um estado e sim uma tenda dos milagres. Diante da sangria desatada dos últimos anos, desde o golpe de 2016, o mínimo que se espera é que seja um esparadrapo.

CNN, não tem sangue suficiente aí?

Quando a mídia tentar ser a pauta, num planeta digitalmente conectado e com jorro de informações por diversos aplicativos, mostra que a formação de jornalista é realmente importante. Quando os técnicos de informação do canal construíram a mentira postada nesta semana, conseguiram o protagonismo das notícias, mais pela discussão ética do que pela qualidade do trabalho.

Houve, claro, algum incômodo ao governo, o que levanta debates e faz com que decisões sejam constantemente analisadas e repensadas, ainda mais numa coalisão de tantas forças, em que as discussões são mais alongadas porque puxadas para mais lados. Para a CNN talvez tenha valido o marketing, atraindo anunciantes bolsonaristas e consumidores de ultraprocessados.

Comida de verdade, como jornalismo de verdade, se faz com cuidado, atenção e respeito, desde a coleta de matéria-prima até o produto final. Sempre pensando no outro e ciente do contexto social em que se insere.

Ações como a da CNN atrasam a retomada do desenvolvimento saudável e democrático de um país que voltou a ter esperança no futuro. Enquanto esses ventos que inflam a boneca da ultradireita continuarem soprando, no Brasil ou além, as pedras no caminho continuarão fazendo tropeçar a sociedade.

Uma sociedade em que escolas dialogaram com a comunidade, abraçaram seus espaços de trabalho e pregaram a paz para enfrentar os alardes de que sofreriam atentados. O dia das ameaças passou, as escolas seguem em luta e a vida continua. A verdade da imprensa ajuda quando participa desse movimento. Quem não a tem, por favor, fique em silêncio.