Nas primeiras horas após a tragédia provocada pelas chuvas de fevereiro, quando Juiz de Fora ainda tentava compreender a dimensão da destruição, a prefeita Margarida Salomão (PT) recorreu à literatura para explicar o cenário que via diante dos olhos. Em entrevista à GloboNews, comparou a cidade a Macondo, o lendário vilarejo criado por Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão. “Parecia Macondo”, disse, acrescentando que rezava para que a chuva passasse.
Dias depois, questionada pelo jornalista Hugo Netto, da Tribuna de Minas, sobre o que poderia ter sido feito para evitar tamanha tragédia, voltou ao realismo mágico. “Negociar com São Pedro para que não chovesse tão forte naquele dia?”, respondeu.
A literatura tem sua beleza. Mas para quem perdeu familiares, casas, móveis, lembranças e projetos de vida, talvez faltasse menos realismo mágico e mais presença humana.
A impressão que ficou é que a prefeita observou a tragédia de longe. Enquanto a lama cobria ruas e casas, enquanto famílias procuravam desaparecidos e acompanhavam velórios, o governo parecia concentrado em administrar a crise a partir dos gabinetes. Não havia respostas fáceis para perguntas difíceis. Nunca há. Mas quem sofre espera, ao menos, ser ouvido.
Quatro meses depois, os efeitos políticos daquele fevereiro continuam visíveis. A queda de popularidade da administração municipal não pode ser explicada apenas pelos danos causados pelas chuvas. Catástrofes naturais acontecem. O julgamento popular costuma ser mais severo quando percebe ausência de empatia.
O desgaste foi suficiente para alterar cálculos eleitorais dentro do próprio grupo governista. A secretária de Desenvolvimento Urbano desistiu da disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa. Lideranças petistas observam com preocupação o impacto da crise sobre candidaturas ligadas ao governo municipal. O problema não foi apenas a enchente. Foi a forma como a enchente foi enfrentada politicamente.
A história recente de Juiz de Fora oferece um paralelo interessante. O ex-prefeito Bruno Siqueira chegou ao auge da popularidade ao ser reeleito com mais de 151 mil votos. Sua posterior perda de prestígio não decorreu exclusivamente da crise fiscal que se desenhava. O rompimento ocorreu quando parte da população passou a enxergá-lo distante da realidade cotidiana da cidade, após sua tentativa de projetar novos voos políticos antes do fim do mandato. O eleitor costuma perdoar erros. O que raramente perdoa é a sensação de abandono.
No final de 2024, as enchentes que devastaram a região de Valência, na Espanha, deixaram mais de duzentos mortos. O rei Felipe VI e a rainha Letizia visitaram as áreas atingidas. Na primeira visita, foram recebidos com revolta, insultos e até lama arremessada por moradores indignados. Voltaram dias depois. Dessa vez, ouviram relatos, entraram em casas destruídas e receberam aplausos.
A diferença entre uma visita e outra não estava na reconstrução das cidades, que ainda levaria muito tempo. Estava na disposição de permanecer diante da dor coletiva.
Talvez o momento ideal para visitar os atingidos pelas chuvas em Juiz de Fora já tenha passado. Afinal, quatro meses se passaram. Mas ainda há tempo para ouvir.
Nesta tarde, a Câmara Municipal realiza audiência pública para discutir os impactos da tragédia. É uma oportunidade para que a prefeita Margarida Salomão esteja presente não apenas institucionalmente, mas humanamente. Para olhar nos olhos daqueles que perderam tudo e que seguem buscando respostas. Presença não apaga erros. Mas ausência os confirma.
Nem todas as perguntas terão resposta. Mas algumas ausências falam mais alto do que qualquer explicação.
Porque, na política, o isolamento também cobra seu preço. E poucas condenações são mais duras do que governar cercado de gente e terminar envolto em cem anos de solidão.

