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Lembra daquela história de filmar os professores por medo de ideologias?

Professores precisaram se virar para não ficar fora do novo normal (Foto: Secom/PMS)

“As portas das salas de aula foram abertas, tanto na escola privada quanto na pública.” Esse foi um desabafo, mas também uma constatação, feito a O Pharol pela professora Maria Luiza Barone, coordenadora na Escola Municipal Santana Itatiaia, no bairro São Pedro. Talvez pareça um contrassenso, sobretudo num momento que uma disputa judicial se trava entre o Ministério Público e a Prefeitura de Juiz de Fora e em que um grupo da sociedade civil, formado principalmente por pais de estudantes de instituições particulares de ensino, pressiona por escolas abertas e pelo retorno às aulas presenciais na cidade. Uma audiência pública sobre o tema, aliás, foi realizada, entre vaias e aplausos, na terça-feira (17), na Câmara Municipal de Juiz de Fora.

O que é, contudo, uma escola aberta? A série de três reportagens que O Pharol começa hoje se dispõe a refletir um pouco sobre isso, a partir do ponto de vista do trabalho docente. Em artigo publicado no dia 21 de fevereiro deste ano no site do El País Brasil, a jornalista e escritora Eliane Brum questionou a falsa questão presente na dicotomia “abrir ou fechar escolas”. “Se a premissa do debate sobre as escolas numa pandemia é uma oposição entre saúde e educação ou entre sociedade e professores ou ainda entre prevenção da pandemia e prevenção da saúde mental das crianças, o debate já começa muito, mas muito torto, e não pode terminar em nada bom. Infelizmente, é o que tem acontecido em várias instâncias”, escreveu. Para ela, a “questão de abrir ou não os prédios, que são apenas parte do que uma escola deve ser, é uma fração dessa conversa”. “Se a escola é essencial, então é passada a hora de realmente tratar a escola como essencial — e aí não estamos falando de prédios apenas, mas de toda a comunidade escolar, a começar pelos professores e funcionários.”

No desabafo/constatação de Maria Luiza Barone, entretanto, está o lamento de que, uma vez mais — e, na história recente da cidade e do país, isso já se manifestou em outros movimentos, como o Escola Sem Partido e, localmente, sua tentativa de fazer a arquidiocese interferir em decisões dos colégios confessionais católicos, por exemplo —, a compreensão da essencialidade da escola passa ao largo de abarcar quem trabalha nela.

“Lembra daquela história da escola ‘com censura’, que queria filmar os professores e que teve dificuldade? De repente as portas foram escancaradas, não é? Tudo está lá.”

“Lembra daquela história da escola ‘com censura’, que queria filmar os professores e que teve dificuldade? De repente as portas foram escancaradas, não é? Tudo está lá. E todo mundo acha que é técnico de futebol e acha também que é professor e que pode meter o bedelho em tudo que a pessoa fala e faz”, observa a pedagoga, também mestre em Educação Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutora em Educação pela Universidade Católica de Petrópolis. “Então, acho que realmente as portas foram abertas. Em cada rede à sua maneira, mas expondo as questões que estão lá e possibilitando ainda mais o controle ideológico dos que acham que não têm que ensinar o que não é da sua aprovação.”

O dicionário Houaiss estabelece nada menos do que 35 possibilidades de significação para o adjetivo “aberto” e nenhuma delas traduz ipsis litteris a bandeira dos que cobram a retomada das atividades escolares presenciais, realizadas dentro dos prédios das instituições de ensino. Aquilo “que permite entrar, sair ou ver, por não apresentar obstáculos; desimpedido, desobstruído” se encaixa, mas também poderia ser interpretado de forma conotativa, lembrando que no ensino remoto emergencial não tem havido barreiras físicas que impeçam, inclusive as famílias, de “entrar” e “ver”. O mesmo se dá com a definição segundo a qual aberto é o espaço “cuja entrada é permitida a todos”. O dicionário elenca, ainda, uma série de outros sentidos, entre os quais se destacam “que se encontra descoberto, exposto”, “posto em funcionamento” e/ou “exposto ao perigo, ao risco”. Será que cada um deles não traduz também, à sua maneira e em certa medida, o que tem acontecido à educação?

Descerrada como janela, lacerada como ferida

A escola, de repente, entrou nas casas, tanto de professores quanto de estudantes. Salas de aula abriram-se na escrivaninha, no quarto, no escritório, no sofá, na mesa da cozinha. “O trabalho em sala de aula se fundiu com o trabalho da casa, quando passamos a trabalhar remotamente. Brinco que as alunas passaram a conhecer meus filhos porque, às vezes, no meio da minha aula chega um com o computador e fala: ‘Travou minha aula’. Aí você dá uma parada e vai correndo lá tentar ver se consegue destravar”, conta a professora e pesquisadora Elita Martins, docente da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

“E tem o próprio ambiente da casa, que é uma outra questão. Sua casa passa a ser vista por todo mundo. É uma exposição da sua vida, da sua imagem, porque a gente nunca sabe quem está assistindo aula. Por exemplo, eu enquanto professora, já passei por uma situação que achei engraçadíssima. Estava trabalhando com legislação e algumas alunas (Pedagogia é cursada maciçamente por mulheres) ligam a câmera, outras não. Num determinado dia, numa das aulas, uma aluna, que rarissimamente ligava a câmera, ligou. Mas ela não estava só, havia mais duas pessoas dando tchauzinho. Fui olhar no chat o que tinha aparecido. Essa aluna é filha de uma pessoa que trabalhou comigo quando eu dava aula na educação infantil. A mãe e a colega, que eu também conheço, são sócias hoje de uma escola privada e estavam assistindo minha aula. Ri, conversamos rapidinho, e comentei depois com o pessoal do grupo: ‘Não temos noção de quem está assistindo aula da gente’.”

Em maio, quando O Pharol publicou sua primeira reportagem sobre a educação na pandemia, a professora Dalila Andrade, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), comentou na entrevista: “Por trás daqueles quadradinhos pretos pode ter tudo e não ter ninguém. Pode estar qualquer um, até um aluno assistindo aula”. Preparando a publicação de um livro com o resultado de um levantamento e de entrevistas feitas como docentes no ano passado acerca do trabalho docente durante a pandemia, Elita concorda.

O trabalho em sala de aula se fundiu com o trabalho da casa (Foto: Gabriel Benois/Unsplash)

“Uma das colegas que foi entrevistada comentava que isso causava uma certa insegurança. Ela fala que, por exemplo, até mudou um texto que usaria. Ela ia usar um determinado poema, porque leciona língua portuguesa, mas naquela semana havia tido uma discussão sobre um professor em Brasília que tinha exibido um vídeo e estava sofrendo punição porque os pais alegaram que ele estava fazendo doutrinação. Então ela pensou: ‘Ah, pelo sim, pelo não, não vou usar esse poema”. Porque as pessoas ficaram com essa questão: como entende quem está assistindo? Tem uma professora que, na entrevista, fala muito isso: ‘Será que quem está me ouvindo realmente está entendendo? Será que estou sendo clara?’. Quer dizer, não era só o aluno. Era quem mais estivesse ali próximo acompanhando essas aulas.”

As conclusões de Elita vão ao encontro do desabafo de Maria Luiza: a escola nunca esteve tão aberta, porque, na verdade, a despeito de as aulas não estarem ocorrendo nos prédios físicos das instituições, a escola em si, como sistema pedagógico, metodológico e mesmo social, está, nas palavras delas, escancarada. E uma das facetas disso é a tentativa de controle.

Esse ensejo já existia, haja vista pautas como Escola Sem Partido, “doutrinação”, “ideologia de gênero”, homeschooling estarem sendo trazidas ao debate por grupos conservadores há alguns anos (embora “desprovido de preconceitos, que aceita e/ou debate novas ideias, disposto a novas experiências; liberal, tolerante” também sejam definições de “aberto” no dicionário). Isso assumiu duas frentes agora. De um lado, o controle de horários e conteúdos, cobrados desde o início do ensino remoto emergencial, ainda em março do ano passado. De outro, a tentativa de controle das próprias decisões administrativas e sanitárias que envolvem a retomada das aulas presenciais.

“Tem a questão da interferência”, aponta Elita. “Uma gravação pode ser usada para diferentes finalidades. Você corre o risco, inclusive, de edição. Uma professora de educação infantil que nos deu entrevista relatou que estava gravando uma historinha vestida de coelhinho da Páscoa. E aí houve um comentário extremamente desagradável do pai de um aluno. Quando você, professora de educação infantil, coloca umas orelhinhas e faz um jogo de cena com crianças, tem toda uma imaginação infantil. O olhar de um adulto no contexto é diferente”, conta. “Ela estava indignada com a situação. Quer dizer, é uma exposição. O professor ficou exposto. E, para nossa surpresa, ao invés de isso resultar em valorização, a gente está vendo o contrário.”

O paradoxo do visível invisível

No artigo de Eliane Brum citado há pouco, a jornalista e escritora enfatiza que “a pandemia botou as crianças e os adolescentes em casa e, bem, o óbvio ficou óbvio para (quase) todos: não se faz educação sozinho nem entre quatro paredes”. E que, “mais uma obviedade: é muito difícil ser professor”. A primeira parte parece ter sido mesmo percebida; a segunda, nem tanto.

Na pesquisa “O exercício da docência no contexto da pandemia”, realizada no ano passado por Elita Martins e pelo Grupo de Estudos em Sistemas de Ensino (Gese), que ela coordena na Faculdade de Educação da UFJF, uma das questões tratou sobre a interferência dos pais na realização das atividades. Entre os professores que responderam, 63,6% disseram perceber interferência. “Aqueles que responderam positivamente, justificaram afirmando visualizarem os pais ou responsáveis no mesmo espaço onde o aluno assiste aula, ouvirem os pais responderem questões, ou ainda, os alunos usarem vocabulários não familiares a sua faixa etária.”

Em contrapartida, ao serem questionados sobre ideias que ganharão força após a experiência das atividades on-line, 50,9% citaram, espontaneamente, que a “sociedade de modo geral reconhecerá os limites da educação on-line, reconhecendo a importância do professor no processo de ensino-aprendizagem”. Outros 43,6% disseram acreditar que haverá “um reconhecimento da importância do trabalho docente”.

“Os professores, quando responderam aos questionários, e aqueles com os quais fizemos entrevistas ao longo de uma semana, acreditavam que, quando terminasse a pandemia, aconteceria uma grande valorização do magistério. Não uma valorização financeira, mas uma valorização social. Eles acreditavam que chegariam à escola e que os pais perceberiam o quanto o trabalho do professor é importante, que a sociedade reconheceria o quanto a base é importante”, ressalta Elita.

“Brinco que só falta amarrar os professores e jogar para dentro da escola e falar assim: ‘Vai lá trabalhar, então’. Como se não estivessem trabalhando, até mais, durante todo esse tempo.”

Os questionários e entrevistas foram feitos entre maio e agosto do ano passado. No meio do processo, dois docentes que concediam entrevistas tiveram de interrompê-las: uma professora cuja mãe, por causa da pandemia, não podia mais ajudá-la a ficar com seu bebê (e ela tinha de dar aulas remotas com ele no colo, com uma carga horária extremamente pesada) e um professor que se demitiu porque a direção e a coordenação da escola entravam nos links de suas aulas e, em alguns momentos, censuravam assuntos — até mesmo relativas à pandemia e a demora do retorno às aulas presenciais — que, segundo escola e famílias, não podiam ser trabalhados.

Na iminência, agora, de escutar novamente os entrevistados para atualizar as percepções para a publicação da pesquisa, depois de transcorrido um ano, é provável que as respostas sobre uma possível valorização não apareçam mais. “O que a gente tem visto hoje é o contrário [da valorização]. Brinco que só falta amarrar os professores e jogar para dentro da escola e falar assim: ‘Vai lá trabalhar, então’. Como se não estivessem trabalhando, até mais, durante todo esse tempo.”

Trata-se de um paradoxo. “Parece que talvez, trabalhando dentro de casa, as pessoas não identificaram como trabalho, não é? Ficou visível e invisível. Visível quando está sendo assistido, mas parece que ninguém está vendo de fato como trabalho e como ensino. Essa é a impressão que a gente está tendo.”

A análise de Maria Luiza Barone segue na mesma linha. “A porta está escancarada, mas, ao mesmo tempo, os professores estão fragilizados. Na nossa perspectiva dessa abertura da porta, ela vem num sentido de oportunidade única de a gente trabalhar algumas coisas em relação à formação do professor em serviço. Mas, para a sociedade, é um momento de desmerecer mais ainda esse trabalho docente, porque o trabalho docente é um trabalho invisível. As pessoas acham que professor não está trabalhando”, lamentou. “O trabalho do professor é um trabalho invisível para a sociedade. Ela não vê que antes daquele vídeo, de aquela aula estar lá, a professora precisa se organizar. Como nunca viu e não vai ver agora. Porque agora acha que, como não sai de casa, não está gastando nem a sola do sapato. Então, não valeu.”

A educação como mercadoria

Os docentes reconhecem o quão difícil é para crianças e adolescentes. Na Escola Municipal Santana Itatiaia, onde Maria Luiza é coordenadora, há busca ativa sistemática pelos estudantes, assim como tem acontecido, de forma geral, nas redes públicas municipal e estadual. Também há plantões para entrega de materiais impressos às crianças que não têm acesso à internet, bem como para entrega dos kits merenda escolar, que têm o objetivo assegurar a alimentação das crianças. Muitas vezes, segundo ela, nesses momentos as professoras aproveitam para dialogar com as famílias com as quais não conseguem contato via WhatsApp, por exemplo, e reforçar a importância da participação das crianças nas atividades, nem que seja devolvendo-as semanalmente na escola.

Maria Luiza, no entanto, não fala apenas como coordenadora de uma escola municipal de educação infantil, mas também como mãe de alunos do setor privado, observando bem as diferenças, tanto de resposta quanto de postura, e as pressões enfrentadas tanto pelos estudantes quanto pelo magistério.

“Tenho filhos na escola particular. Meu filho mais velho, inclusive, estava no terceiro ano do ensino médio. São muitas coisas que ficaram pelo meio do caminho. Era o último ano na escola, era o ano que antecede uma possível entrada no ensino superior. No caso dele, foi um rito de passagem que não foi vivido”, comenta. “Meu olhar não consegue ser só de mãe ou só de professora em nenhum dos dois lugares. Não tenho essa pretensão. Mas a escola particular, especificamente, respondeu de forma muito rápida. Os professores trabalharam desde sempre.”

A questão, conforme lembra, por sua vez, Elita Martins, é que muitas vezes impera a lógica que enxerga a educação como mercadoria, como algo pelo qual se pagou e que, portanto, tem-se o direito de consumir. “Enquanto mãe, sofri muito discutindo com os pais dos colegas dos meus filhos, porque vinham com aquela ideia de que: ‘Não, a aula começa 7h20 e vai até 13h40’. Eu falava: ‘Gente, os meninos não podem ficar esse tempo todo de frente para o computador. Olha a coluna, olha os olhos…’ Não adiantava. Uma vez falei isso com o médico. Nenhum pai normal vai virar para o pediatra e dizer: ‘Não, o senhor prescreveu o vidro de antibiótico de 240 ml e vai dar só 200 ml? E os 40 ml eu vou jogar fora? Não, eu vou dar os 240 ml”. Nenhum. Mas na área de educação todos falam.”

Na discussão, tão aberta quanto a escola, há quem aponte a defasagem dos estudantes. Para Maria Luiza Barone, porém, essa geração a passar pelo ensino remoto tem uma outra experiência de vida que não pode ser desvalorizada. “A gente não pode achar que ela aprendeu menos. Foi prejuízo ou a trajetória dela foi outra e a gente tem que compreender que essa outra trajetória também é legítima e também produz o resultado final?”, questiona. “Acho que a gente vai ter que discutir um pouco isso, sabe? Não dá para dizer assim: ‘Essa geração perdeu, essas crianças não aprenderam’. Não aprenderam o quê? Conteúdo? Ou elas aprenderam a pensar?”